terça-feira, 8 de outubro de 2019

O OPALA

O rapaz tinha dezenove anos e era orgulhoso. Estava sentado ao pé da porta, segurando uma caneca de café, curtindo o sol; amanhecia. De pé, ao lado, a irmã mais nova: quinze. Ambos olhavam o Opala de seis canecos com o capô aberto:
- E ficou bom dessa vez? – a menina perguntou.
- Agora está tinindo.
- E o pai?
- Quebrou o pau, como sempre. Você não ouviu?
- Ouvi sim, mas você é filho, ué! Não é sua obrigação sustentar a casa. É dever dele. Se ao menos não bebesse tanto...
Dentro da casa, outros três meninos, o mais velho deles com dez anos recém-completados, assistiam televisão. No quarto, a mãe gemia: câncer. O pai ainda não tinha acordado. Roncava na lavanderia ao ritmo da bebedeira da noite anterior. Era um homem forte, o pai, um metro e noventa e mais de cem quilos; violento, na maior parte das vezes.
- Eu queria me divertir, Ana.
- Eu também.
- A gente tá condenado; o tempo, passando. Não há futuro. Logo seremos dois velhinhos. A mãe morrendo... Essas crianças fodidas também... Dívidas, contas, carnês... O sítio hipotecado! Meu trabalho naquele mercado... sete dias por semana! Ele que nunca se controla! As brigas! Não aguento mais... Nada de melhor nos espera, Aninha. Às vezes, tenho vontade de acabar com tudo. Mais de uma, tive de me esforçar pra não jogar esse carro de frente com uma carreta quando voltava do trabalho.
Os olhos da menina brilharam. Ela tomou o resto do café. Pensou entrar e começar a lavar a louça, mas se decidiu. Sentou-se ao lado do irmão, segurou-o pelo braço:
- Vamos.
- O quê?
- O carro. A carreta. Só nós dois. Juntos. Pra sempre.
- Você não tem coragem.
- Tenho.
Enxergaram-se então. O tempo desacelerou. As mãos dela fervendo no antebraço dele. Os corpos diziam sim. Ele jogou a caneca longe, na terra; segurou a mão da irmã e os dois correram para o carro. O rapaz bateu o capô com força, depois a porta, fez um meio círculo levantando poeira, os pneus cantando, rasgando a terra como se fossem.
E partiram. Rumo à via Dutra.
Dia seguinte, seus retratos estampavam as manchetes dos jornais.🌻

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