quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A ESCRITA, A DOENÇA E A GRANDE SAÚDE

E me lembro daquela entrevista da Clarice Lispector na qual ela parece um bichinho acuado; sentindo-se, em meio aos entrevistadores, como a farpa que o pus e a infecção querem expulsar do dedo. E ela diz: “Quando não estou escrevendo, estou morta!” Em Tigresa, Caetano Veloso canta um de seus versos mais simples e sinceros: “como é bom poder tocar um instrumento”. A possibilidade de escrever, de tocar, de criar, é uma pausa na doença; enquanto a gente escreve, afasta o precipício. Quando nada se forma em nosso útero, é a doença que grassa tal qual mioma, ferida, tumor, ausência de buraco; ou melhor, buraco sem borda. Hemingway deu um tiro com uma espingarda de matar elefante na própria boca porque perdeu essa possibilidade de criar, de honrar a Deus imitando seu gesto, e, ao mesmo tempo, colocar ordem em seu coração escangalhado. Um dia no qual não escrevo é como um dia sem medicação. Tudo fica estranho, sem conexão com a alma; é como se surgisse um fosso entre mim e o lá-fora, tal e qual aqueles fossos que cercavam os castelos na Idade Média. As coisas esvaziam-se de seu mistério e a pedra torna-se só pedra; o pássaro: um bípede com penas e até o amianto, um nome sem porquê. Então, a mão que escreve é verde-violeta e conecta-se ao coração sem passar pela cabeça; enquanto a mão que revisa é racional e teima em segurar a outra para que ela não escreva. Uma é a mão social; a outra, a mão selvagem. Há dias nos quais elas não se entendem e. Outro dia, li um poema da Adélia Prado que termina assim: “A uns Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo”. Enquanto houver a palavra, sei que estou a salvo. Ela, a palavra, não é a corda com a qual me enforco, mas a reta tensionada sobre a qual me equilibro acima do abismo. É impossível um romancista se matar sem terminar o romance que está escrevendo. Mas e se um dia eu sentir que já nomeei o que tinha de ser por mim nomeado e, como van Gogh, achar que nada mais tenho a pintar-escrever? E, se a cartola do mago, de um instante para o outro, ficar vazia?
Ainda assim, aposto no amor.
Hei de sobreviver ao meu sonho.
Sou fé.

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