- Essa é uma canção deliciosa pra fazer amor e dormir agarradinho, pelado, depois, né não?
- Pode crer, Profe.
Cada um de nós lavava um panelão. Passávamos o dia na laborterapia. Era melhor que ficar lá fora, trancado no refeitório, com mais de cem cabras perturbados. Na cozinha, não parávamos nem por um minuto, mas tínhamos direito a ouvir o rádio e, no final da tarde, tomávamos um cafezinho, sentados na grama, nos fundos da clínica, olhando a serra do mar. Todos carregávamos culpas e agonias impensáveis; em silêncio, duros e doloridos. De vez em quando, contudo, tocava uma canção e a gente virava menino outra vez, cantando junto: sharing the night together, uôô! A magia nos levava pra um lugar longe de nós mesmos: alívio.
- Será que ela vem na visita, Profe?
- Vai saber. Tomara que venha, uai. Não sei nem se vem alguém na minha.
O menino que conversava comigo era o Flavinho. Vinte e dois.
- Sabe, Profe. Na noite em que eu a conheci, nem acreditei, porque não dá pra crer que alguém tão bonita pode carregar tanto sofrimento. Eu tava doidão, pra variar, né? E, nem sei como, fui parar na zona. Como é que uma menina daquelas? Era uma história pra lá de triste: estupros, abusos, violência, aquelas coisas todas, sabe? Então, eu tinha feito fita boa e nem sabia o que fazer com o dinheiro. Nunca soube. Enfim, assim que vi a moça, paguei o pernoite. Falei: você vai ser minha essa noite inteira. Depois vai ser depois. E ela ficou como, Profe? Sorrindo, uiuiui. E eu nem sei outro nome pra isso, é encontro mesmo, né? E ficamos, ali, os dois. Dia seguinte, chamei ela pra ir pra praia e ela topou. E ficamos uma semana na praia, de boas, sem fazer nada, só se amando... fumando um, andando na orla de noite. “Vou fazer um filho em você!” – Falei e sabe o que ela respondeu? “Eu quero”. Mas depois que voltei, tive uns problemas com a lei; descaralhei de vez da cabeça e acabei aqui. Que acha? Será que ela vem, Profe?
- Se disse isso aí tudo vem. Mulher é bem diferente da gente. Nos momentos difíceis é que elas se apegam mais. O contrário não rola. Sabia que setenta por cento das mulheres são abandonadas quando descobrem um câncer ou algo assim?
- Sabia não.
Voltamos às panelas. Eu não sabia se ainda teria uma família ao sair. Nos primeiros noventa dias, ficávamos incomunicáveis. Quanto ao Flavinho, recebeu seu amor em todas as visitas. Ela não faltou uma vez sequer. E sempre levava doces, frutas, trufas, ou.
Da última vez que soube dos dois, o Flavinho tinha comprado um barco – era garoto ligeiro - e trabalhava com pesca no Arraial do Cabo; mandou foto de umas praias lindas. Tinham agora uma menininha de dois anos e o pai dela continuava limpo. Toda vez que me lembro deles, meu coração transborda de ternura e, quase sempre chorando, murmuro um oração por eles, e por mim, e por todos os desajustados desse mundo.
Que o amor floresça sobre a lama feito o lótus: sempre.
🌻
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