Coringa é um bom filme; mas mais que uma obra de arte é um trabalho que capta o zeitgeist, o espírito de um tempo. A direita, burra como sempre, não entendeu o filme. A esquerda, burra como sempre, também não. Sobre seu A banalidade do mal, Hannah Arendt escreveu que a falha do livro é que o mal é sempre radical, nunca banal. A burrice também é sempre radical. Os conservadores viram o filme como um manifesto de esquerda e a esquerda também. Ambos se esqueceram de olhar para o protagonista. O mal é sempre radical. O Coringa é alguém para quem pouco importa a justiça social. É o “tanto-faz”. Ele pode cometer suicídio ou assassinato. E aquilo com que goza nas revoltas de Gotham é com a destruição e não com a possibilidade de um mundo mais humano. Ele não acredita nisso. Tanto que, no final, aparece espalhando pegadas de um sangue inocente. O filme estaria mais perto daqueles dois adolescentes que entraram atirando numa escola em Suzano do que de uma revolução qualquer. Claro, a película mostra como uma sociedade injusta cria violência e monstros. Acontece que ninguém pode controlar esse tipo de energia. Não há utopia no horizonte, só a ânsia de destruição. Esse mesmo tipo de revolta pode criar um Hitler, um Napoleão; com muito menos, no Brasil, fez-se um Bolsonaro. A Gotham City do filme é um pouco o mundo, o Brasil mesmo, hoje, mas também é um pouco da República de Weimar: o ovo da serpente. O livro de cabeceira de Stalin era o Viagem ao fim da noite, de Céline, que, ao ser publicado, foi saudado pela esquerda como um livro revolucionário, uma vez que era uma denúncia contundente do absurdo da sociedade burguesa. Anos mais tarde, Céline exigia o enforcamento de judeus num tribunal. De certo modo, creio que vivemos numa época limítrofe em que o velho está morrendo e o novo ainda não nasceu. O que pode nascer daí, não se sabe. Há as lutas ecológicas, a representatividade cada vez maior das minorias; mas há também o aumento da truculência, das mortes pueris.Temos de trabalhar muito para o Bem. Pode ser que nasça alguém (uma sociedade) como o protagonista de Kundun, ou o próprio bebê de Rosemary. O erro de toda intelligentsia é se achar capaz de utilizar para seus fins supostamente humanitários essa energia louca. A fé na razão tanto de esquerda quanto de direita é ingênua.
Ah, Joaquin Phoenix escreveu de vez seu nome entre os maiores. Embora eu ainda ache que seu melhor trabalho está em Amantes.
Ah, Joaquin Phoenix escreveu de vez seu nome entre os maiores. Embora eu ainda ache que seu melhor trabalho está em Amantes.
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