Tudo bem que dois blocos fizessem as vezes da perna quebrada da cama, eles acordaram felizes. Enquanto ela foi pro banheiro tomar banho e se aprontar, ele colocou água no fogo para o café. Caminhou até o quintal e ligou realizado o caminhãozinho com a intenção de já ir aquecendo o motor. Era seu próprio caminhão! Sim, senhor! Seria a primeira viagem no que era seu e Pedro estava feliz. A travessia seguia. Durante toda a vida, o pai tinha vendido a força de trabalho nas lavouras: nunca tivera nada de seu; e ele, agora, antes dos trinta, já tinha sua própria casa, seu caminhão e conseguira construir até uma edícula nos fundos pro pai morar mais a mãe; cortinas brancas na cozinha da velhinha! A esposa saiu do banheiro. Ele entrou. A barriga ainda não aparecia, uma vez que a gravidez sequer alcançara o quarto mês. Ângela ainda cabia no mesmo uniforme dos Correios. Enquanto ele se aprontava, ela coou o café que os dois tomaram juntos, depois, com as mãos dadas sobre a mesa. Desfrutavam a simplicidade de ser. A luz do sol entrava pelas janelas e iluminava os rostos de ambos como se fosse um modo de a Divindade dizer: “Ei gente, estou aqui abençoando vocês”. Quando se levantaram para colocar a louça na pia, ele a abraçou por trás, beijou a nuca e ela se virou. Aconteceu então um beijo carregado de. Deste mesmo modo, os querubins se beijavam nas festas no céu. Ele ensaiou uns passos, ela acompanhou: o amor é uma dança; bem como o sexo é o dançar dentro do outro. Antes de entrarem no auto, que se traduzia em termos materiais num carnê de oitenta e quatro páginas, ele colocou ração, água, afagou e brincou com o cachorro:
- Cuida de tudo pra nós, Bruxão! – e o cão, não contendo a excitação, deu uma volta no quintal correndo feito louco. Como não sorrir?
Antes de rumar para a firma, ele a deixou na porta do trabalho. Beijaram-se.
- Eu te amo – ela disse sem véus e sem complicações.
- Eu vejo você – ele respondeu.
Na casa de frente àquela onde moravam, um monge-poeta observava tudo sem inveja; com bênçãos nos olhos. Era um atormentado pela fome de Deus, o monge. Tinha recebido visita uma vez e todo o mundo pintara-se de luz; mas, depois que Deus se foi, sua alma tornara-se sertão. Não conseguia encontrar a porta de entrada de volta. E a alma sequer sabia o que tinha feito de errado; feito noiva abandonada no altar, ainda esperava a visita do Cristo, olhando sem jeito para os convidados. E o Cristo não vinha, não aparecia na porta da capela.
terça-feira, 8 de outubro de 2019
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