quarta-feira, 20 de junho de 2018

Por um novo paradigma


Uma caricatura do paradigma patriarcal que comanda o mundo há muito e que, pelo jeito, ainda vai demorar um bom tempo para ser dissolvido é o governo de Donald Trump, as crianças mexicanas enjauladas como bichos, longe dos pais; mas não só. Temos aí os brasileiros fazendo besteira na Rússia, nossa violência no trânsito, em casa, nas favelas. O tal paradigma patriarcal independe de o sujeito ser homem ou mulher, visto que já tivemos uma Margareth Tatcher, uma Condoleezza Rice...  Ele é algo estrutural, caracterizado pela completa falta de alteridade, de empatia. O outro é visto como objeto ou inimigo. O planeta? Mais um brinquedo a ser explorado. Pura testosterona, competição, egoísmo e pouco cuidado. No fundo, está a fraqueza, a insegurança e o medo da morte, afinal, é preciso escrever nome na eternidade, realizar algo imenso, como Áquiles em Troia; é necessário fazer algo heroico custe o que custar, mesmo que seja um heroísmo às avessas, tipo Trump. A valorização do feminino não é apenas um esforço por garantir representação de mulheres nas mais variadas esferas, é construir, ainda que aos poucos, um novo paradigma onde o cuidado seja o essencial, onde consigamos nos colocar nos sapatos do outro, onde a mãe seja mais importante que o herói. É uma mudança profunda e radical, mas também é uma das poucas saídas para as próximas gerações. Um pouco mais Winnicott e um pouco menos de Freud. As sementes estão sendo plantadas, mas o polo fascista também se enrijece, pois se amedronta.

domingo, 17 de junho de 2018

Um triângulo de dois lados


Para o Dr. Pedro Britto Braga

            O senhor sabe que sou um homem empírico. Para mim, o que não chega aos sentidos, não existe. O meu triangulo tem só dois lados: o conhecido e o desconhecido... E eu quero lá saber do incognoscível? Daquilo que pode haver para além do corpo, mas não captamos porque o corpo somos nós? Isto posto, quero relatar-lhe um caso que aconteceu na minha família mesmo. Eu esbarro em dizer, mas esse seu problema pode ter origem numa outra dimensão; muito embora, nessa instância, eu mesmo não creia. Mas não é preciso a gente crer em alguma coisa para que ela exista. Podemos não acreditar nessa mesa antiga que nos separa e, no entanto, ela vai continuar aí: sólida, rígida, impassível, não é mesmo? O senhor me fala de obsessores e diz que é pela linguagem que se reconhece o Espírito, como se a comunicação entre mundos fosse uma questão linguístico-literária? Posso aceitar coisa assim, porque sei que não são só os escritores que criam uma língua própria dentro da língua mãe. Cada um de nós combina as palavras de um jeito singular, como se esse modo de junção fosse uma espécie de impressão digital anímica: Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal Pedro Páramo. O caso que me intriga e que agora vou lhe relatar, entretanto, não envolve a palavra. Ressalto que não creio e, contudo, vi com esses olhos que a terra há de. Assunte:
            Sou o mais novo de uma família de três irmãos, o único vivente. Nasci quinze anos depois do mano do meio e hoje já tenho setenta e dois. Daí que, comigo, há de morrer o mistério... O que, para dizer a verdade, é bom, pois não creio em mistérios e também não acredito que vá durar tempo suficiente para passar a estória adiante – ele disse com uma ponta de ironia, mas sem sorriso. - O que lhe narro, meu amigo, passou-se com meus irmãos. Preste atenção: quando os dois ainda eram jovens, num dia de bebedeira, no Recife antigo, fizeram combinação:
            - Quando tu morrer, mano, vou tomar uma cachaça da peste!
            - Não, eu que vou tomar uma cachaça da peste quando tu morrer!
            Tempo veio e tempo foi. Mário, o mais velho, tocou a vida. Estudou, tornou-se advogado. Um dos mais requisitados de todo o estado de Pernambuco. Casou, teve duas filhas, entro para a política. Já Paulo, perdeu-se na vida, como se diz por aí. Dividia noites e dias entre bares, bicos e cabarés. Mesmo no final, sempre tinha alguma rapariga apaixonada por ele, tratando... Alguém que cuidava do homem de meia idade como de um menino. Por Canário do Reino, ou só Canarim mesmo, é que Paulo ficou conhecido no Recife. Levava sempre um violão debaixo do braço e gostava de cantar. De vez em quando, empenhava a viola em troca de cana. Teve muitos filhos, mas não tratou de nenhum. Viveu como passarim, cantando, brincando, pulando de galho em galho. Quando morreu, já não tinha um documento sequer, papel nenhum. No velório de Paulo; eu já morava aqui em São Paulo onde estudava Medicina; tive de voltar às pressas para o Recife. Eu estava lá. Eu vi. Não foi ninguém que me contou, não senhor... No enterro - cheio de bêbados, e putas, e bandidos, e veados - caburé fugiu das árvores, espantado por uma revoada de canários; pássaro por demais difícil de se ver por aquelas bandas. Sim, senhor, estou-lhe dizendo... Mesmo naquela época, o homem já tinha engaiolado quase todos. E os bichinhos cantavam com gosto, na copa das árvores. Só se vendo para crer. O povo chorou.
            - É o espírito de Canarim cantando – disse uma puta velha.
            O povo chorou mais: Canarim não valia nada, mas era bom; já Mário era bom, mas não valia nada – diziam. O senhor sabe como o povo é. Meu irmão Mário estava muito abalado. Eu estava lá. Eu vi. Não foi ninguém que me contou. Assim que foram descer o caixão, Mário se machucou. Cortou a ponta do indicador e o sangue respingou no caixão, na terra, pela cova inteira. Dos olhos do meu irmão Mário não escapou uma lágrima. Quando caminhávamos para o carro, o dedo do meu irmão mais velho pingava feito pescoço de galinha sangrada. Paramos numa lanchonete ali mesmo, no Cemitério de Santo Amaro. Mário perguntou ao dono do estabelecimento:
            - O senhor tem aí alguma coisa pra desinfetar esse corte?
            - Só pinga mesmo.
            Nesse instante – meu irmão me disse mais tarde -, Mário se lembrou do acordo fechado com o Paulo, muitos anos antes. Jogou um pouco de cachaça no corte e entornou o resto. Foi a conta, daquele exato momento em diante, Mário começou a beber e não parou mais até ele mesmo morrer de cirrose uns anos depois.
            Shakespeare, o senhor sabe, tem uma frase famosa que diz que há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia. Não creio, já disse ao senhor que meu triângulo só tem dois lados, mas como explicar os fatos que ainda agora lhe narrei?
            O que eu poderia dizer ao meu psiquiatra?
            Nada.
            Fiquei em silêncio, só pensando que, por mais céticos que sejamos, uma hora ou outra, algo nos abala e perdemos o centro, divagamos, atravessamos as horas recordando o vale das maçãs.