Para o Dr. Pedro
Britto Braga
O senhor sabe que sou um homem
empírico. Para mim, o que não chega aos sentidos, não existe. O meu triangulo
tem só dois lados: o conhecido e o desconhecido... E eu quero lá saber do incognoscível?
Daquilo que pode haver para além do corpo, mas não captamos porque o corpo
somos nós? Isto posto, quero relatar-lhe um caso que aconteceu na minha família
mesmo. Eu esbarro em dizer, mas esse seu problema pode ter origem numa outra
dimensão; muito embora, nessa instância, eu mesmo não creia. Mas não é preciso
a gente crer em alguma coisa para que ela exista. Podemos não acreditar nessa
mesa antiga que nos separa e, no entanto, ela vai continuar aí: sólida, rígida,
impassível, não é mesmo? O senhor me fala de obsessores e diz que é pela
linguagem que se reconhece o Espírito, como se a comunicação entre mundos fosse
uma questão linguístico-literária? Posso aceitar coisa assim, porque sei que
não são só os escritores que criam uma língua própria dentro da língua mãe.
Cada um de nós combina as palavras de um jeito singular, como se esse modo de
junção fosse uma espécie de impressão digital anímica: Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal Pedro Páramo.
O caso que me intriga e que agora vou lhe relatar, entretanto, não envolve
a palavra. Ressalto que não creio e, contudo, vi com esses olhos que a terra há
de. Assunte:
Sou o mais novo de uma família de
três irmãos, o único vivente. Nasci quinze anos depois do mano do meio e hoje
já tenho setenta e dois. Daí que, comigo, há de morrer o mistério... O que,
para dizer a verdade, é bom, pois não creio em mistérios e também não acredito
que vá durar tempo suficiente para passar a estória adiante – ele disse com uma
ponta de ironia, mas sem sorriso. - O que lhe narro, meu amigo, passou-se com
meus irmãos. Preste atenção: quando os dois ainda eram jovens, num dia de
bebedeira, no Recife antigo, fizeram combinação:
- Quando tu morrer, mano, vou tomar
uma cachaça da peste!
- Não, eu que vou tomar uma cachaça
da peste quando tu morrer!
Tempo veio e tempo foi. Mário, o
mais velho, tocou a vida. Estudou, tornou-se advogado. Um dos mais requisitados
de todo o estado de Pernambuco. Casou, teve duas filhas, entro para a política.
Já Paulo, perdeu-se na vida, como se diz por aí. Dividia noites e dias entre
bares, bicos e cabarés. Mesmo no final, sempre tinha alguma rapariga apaixonada
por ele, tratando... Alguém que cuidava do homem de meia idade como de um
menino. Por Canário do Reino, ou só Canarim mesmo, é que Paulo ficou conhecido
no Recife. Levava sempre um violão debaixo do braço e gostava de cantar. De vez
em quando, empenhava a viola em troca de cana. Teve muitos filhos, mas não
tratou de nenhum. Viveu como passarim, cantando, brincando, pulando de galho em
galho. Quando morreu, já não tinha um documento sequer, papel nenhum. No
velório de Paulo; eu já morava aqui em São Paulo onde estudava Medicina; tive
de voltar às pressas para o Recife. Eu estava lá. Eu vi. Não foi ninguém que me
contou, não senhor... No enterro - cheio de bêbados, e putas, e bandidos, e veados
- caburé fugiu das árvores, espantado por uma revoada de canários; pássaro por
demais difícil de se ver por aquelas bandas. Sim, senhor, estou-lhe dizendo... Mesmo
naquela época, o homem já tinha engaiolado quase todos. E os bichinhos cantavam
com gosto, na copa das árvores. Só se vendo para crer. O povo chorou.
- É o espírito de Canarim cantando –
disse uma puta velha.
O povo chorou mais: Canarim não
valia nada, mas era bom; já Mário era bom, mas não valia nada – diziam. O
senhor sabe como o povo é. Meu irmão Mário estava muito abalado. Eu estava lá.
Eu vi. Não foi ninguém que me contou. Assim que foram descer o caixão, Mário se
machucou. Cortou a ponta do indicador e o sangue respingou no caixão, na terra,
pela cova inteira. Dos olhos do meu irmão Mário não escapou uma lágrima. Quando
caminhávamos para o carro, o dedo do meu irmão mais velho pingava feito pescoço
de galinha sangrada. Paramos numa lanchonete ali mesmo, no Cemitério de Santo
Amaro. Mário perguntou ao dono do estabelecimento:
- O senhor tem aí alguma coisa pra desinfetar
esse corte?
- Só pinga mesmo.
Nesse instante – meu irmão me disse
mais tarde -, Mário se lembrou do acordo fechado com o Paulo, muitos anos
antes. Jogou um pouco de cachaça no corte e entornou o resto. Foi a conta,
daquele exato momento em diante, Mário começou a beber e não parou mais até ele
mesmo morrer de cirrose uns anos depois.
Shakespeare, o senhor sabe, tem uma
frase famosa que diz que há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga
nossa vã filosofia. Não creio, já disse ao senhor que meu triângulo só tem dois
lados, mas como explicar os fatos que ainda agora lhe narrei?
O que eu poderia dizer ao meu
psiquiatra?
Nada.
Fiquei em silêncio, só pensando que,
por mais céticos que sejamos, uma hora ou outra, algo nos abala e perdemos o
centro, divagamos, atravessamos as horas recordando o vale das maçãs.

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