Filósofos e filósofas são, em geral, seres mancos de amor. Cabeças grandes demais para corações atrofiados. A maioria não sabe de si; são muito bons em pesar, analisar, sintetizar, avaliar, julgar; mas se esqueceram de olhar pra dentro. É bem o que Nietzsche diz logo no início de Genealogia da moral. Eles, os pensadores, podem destrinchar as estruturas sociais, as induções culturais que nos constituem enquanto indivíduos; mas muito poucos sabem o valor de um beijo, de um abraço. Ninguém nasce mulher, torna-se; mas para a além das pressões sociais, que exigem um padrão de comportamento, há o olho da mãe no olho bebê enquanto o amamenta e isso é revelação primordial: amor. Nem tudo é um constructo sociocultural! Talvez, eles, pensadores e pensadoras, morram abraçados ao monstro que combatem porque não conseguem superá-lo, ir além. Não conhecem a totalidade de si mesmos, olharam demais para fora. Quando combatemos monstros, corremos o risco de nos tornarmos um deles. Quando olhamos por muito tempo um abismo, o abismo também olha pra dentro de nós.
Dizem que homem não chora, não dá defeito, tudo suporta sem demonstrar fraqueza. Somos programados pelos super-heróis, pela escola, pelas instituições religiosas para sermos duros, impenetráveis. Nem batman, nem o super-homem são raquíticos. Acontece que, um dia, a cachorrinha aqui de casa foi atropelada. Não sabíamos se estava viva ou morta. Meu filho de dez anos esperou as notícias na casa da minha mãe enquanto fui conferir o que havia acontecido. A Piti estava morta. Precisei dar um jeito no cadáver. Voltei pra casa da mãe. Ele perguntou, ainda tentando segurar pela mão o fiapo de esperança:
- E aí, pai?
- Ela morreu, João.
O menino, que aos dez já tentava agir como machinho, pediu colo e choramos abraçados, juntos, doloridos, coração a coração. E, neste momento, estávamos num lugar muito além de todas as pressões sociais, longe da ilusão de um eu-individual, criado pela cultura, separado da flor e do beija-flor. Não existia sequer a lembrança de que precisávamos ser vencedores-fortes. Longe daquilo que se impõe enquanto padrão materno, há a beleza da barriguinha do bebê em contato com a mão da mãe. Longe do padrão pai-indestrutível, há o hálito do filho ao acordar. O amor, assim como a morte, não é uma criação cultural.
Longe das teorias, há o Sol e a Terra, o yin e o yang, o feminino e o masculino, homens muito femininos e mulheres muito másculas e entre e, para além de ambos, o amor e olhos que não mentem.
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Um comentário:
Eu estava pensando sobre isso, muito bom saber que eu não sou o único doido :)
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