sábado, 15 de dezembro de 2018

A ALMA QUE DEUS BEIJOU NA BOCA


Era um filhote de porco espinho parecido com todos os outros.
Só que sua pele,
Feito manto de Deusa-mãe,
Fora vestida ao avesso.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Visões de Dó


Menino ainda, achava meu pai parecido com o incrível Hulk.
Não quando estava verde e forte,
Mas depois,
Quando ia embora:
Cabeça baixa, olhar piedoso
E era apenas um homem,
Caminhando rumo ao desconhecido.

HERANÇA


Quero falar de coisas que, sendo idadosas, são ainda novas:
Velho com chapéu de jornal,
Madeira marcada,
Carro de boi de brinquedo,
Uma canção da jovem guarda;
A senhora que cultiva orquídeas e tranças:
- Tu és moço tão belo, vou dar-te um bezerrinho – ela diz.

Ser é acumular:
O bebê acumula pai, avô e tataravô.
O velho acumula a criança, o jovem e o homem.
Tudo é novo e velho ao mesmo tempo.
Desmontada a matrioshka, nosso destino não é a cova,
Mas a erva e o coração daqueles que cantam.

sábado, 8 de dezembro de 2018

FEITIÇO


A força não é ausência de delicadeza:
Vê como a tigresa lambe a cria,
Enquanto a amamenta.
A delicadeza não é ausência de força:
Contra a densidade do concreto,
Uma roseira abre fissuras,
Na travessia de pedestres do viaduto da China.
Quem conhece sua força
E, ainda assim, preserva a delicadeza imanente,
Descobre em si macho e fêmea
E tanto pode ir à guerra,
Quanto pode cuidar da cria.
Torna-se, portanto, a Fêmea do sol;
O Senhor da lua,
CAVALO:
Encantador dos dias.

domingo, 2 de dezembro de 2018

DE TUDO O QUE ACONTECE

(Sobre amizade e amor)
De tudo o que aconteceu,
Não me lembro mais de uma briga!
Ficou a lembrança de comermos da mesma panela,
De bebermos do mesmo copo.
O vinil rodando sem parar, acariciado pela agulha,
Os instrumentos espalhados pela casa,
Livros sobre as camas.
No final, o que fica é a amizade,
Vontade de cantar junto de novo ao redor da fogueira
No campinho da moradia.
De tudo o que acontece:
As brigas, palavras rudes, louça suja,
Chagas guardadas, enroladas em jornais antigos, na gaveta da pia;
O que vai ficar, quando um de nós se for, amor: o Amor.
Essa vontade de caminhar ao lado,
Dividindo a jornada da vida.
No final, as alfinetadas cotidianas, o chuveiro queimado, as contas atrasadas,
Viram pó.
Fica a lembrança do dia em que nos conhecemos.
E o velhinho ou velhinha que ficar só no mundo,
Mal saberá dar o nó dos próprios cadarços.