Quando lemos um autor
original pela primeira vez; inconscientemente, vamos comparando sua voz à voz
de leituras passadas; ouvindo os ecos que ressoam em nosso coração; tentando
entendê-lo a partir do que já levamos na alma: isso parece José Lins do Rêgo, o
grande coronel José Paulino, isso parece Federico Garcia Lorca, La casa de
Bernarda Alba, Emerenciana, seria pois, Emerenciana Alba, aquilo se parece com
Gabriel García Márquez, com Alejo Carpentier, com o realismo mágico e o real
maravilhoso. Mas, e essa voz? Esse modo de narrar? Essa respiração
encantatória? Essa música, a conexão entre a comida e a memória, isso é Proust!
Só que não, não pode ser Proust, em Proust não cabem o caldo de mocotó, o bolo
de fubá a cuxa de gergelim. Por fim, nos damos conta, entregamos os pontos;
trata-se de um autor original. Como um girassol num cemitério, aponta para
todos os lados, mas sua beleza e sua singularidade são únicas.
Essa
reflexões vieram-me à alma depois da leitura de A Casa das Marionetes, de
Santana Filho, editado pela Reformatório (2015) e finalista do Prêmio São Paulo
mais recente. A primeira coisa que nos damos conta, assim que lemos as
primeiras linhas do livro, é de que estamos diante de um autor seguro, de alguém
que sabe narrar, que não se afoba e nem precisa dar piruetas para conquistar o
leitor, pois sabe que “apenas a ficção é real. Só pode existir realidade se
existir organismo, e o organismo se expressa unicamente nos momentos de
devaneio, nos sustos descuidados e na aceitação do mistério, quando se consegue
ludibriar a razão, os vícios de pensar, a técnica e os ensinamentos viciados.”
(p. 24)
A
meu ver, todo o romance parece ser a explanação desta afirmação que aparece ao
final do primeiro capítulo. Numa prosa que não obedece aos manuais da boa
escrita tão em voga nas oficinas de escrita literária - os quais afirmam a
necessidade das sentenças curtas, da ordem direta – Santana Filho narra a
decadência de um casarão: de residência de família poderosa, abastada,
respeitada e unida, a bordel. Foi essa decadência do sistema patriarcal,
atrelado ao espaço da casa que me fizeram lembrar os romances de José Lins do
Rêgo, o coronel José Paulino. A casa, aliás, sem forração, com as vigas e os telhados à mostra nos
parece uma metáfora do próprio teatro de marionetes que o bisavô costumava
encenar e que cede o título ao romance. Ela, a casa, é uma espécie de palco de
marionetes, no qual as personagens se movimentam, observadas pela voz do menino
que lá passava as férias escolares. A casa viaja no tempo.
No
parágrafo anterior, abordamos o sistema patriarcal como um dos aspectos do
enredo; na orelha do livro, todavia, a escritora Andréa del Fuego diz se tratar
de uma família matriarcal. Podemos concordar ou não com ela. Se comparamos
Emerenciana ao fraco avô Jacinto, o Cintinho, tendemos a ver que a força da
personagem feminina excede em muito à da masculina, nos lembrando a fala final
de Bernarda Alba na peça de Lorca “Aqui
nada se passa!”. Ao confrontar o
jovem padre César, Dona Emerenciana anuncia, tal qual Bernarda Alba: “Padre
César, não existe doente mental em minha família. Nunca existiu nem haverá de
existir.” (p. 160) Por outro lado, há o bisavô, o homem que move os fios das
marionetes e que, quando ia ao porto da
Capital buscar seus bonecos e charutos importados, “Ali permanecia por um tempo
além do necessário para o que tinha ido fazer, enfurnado nos salões do cais do
porto às voltas com marinheiros, aguardentes e prostitutas, evocando os mundos
do outro lado do oceano. [...] Houve um ano em que, encantado com uma bailarina
tailandesa, e alongando a temporada no cais, ele quase perde o batismo dos
penitentes, a romaria dos homens na Sexta-Feira da Paixão” (p.21) Se
mantivermos o foco no bisavô, notamos a tradição patriarcal, coronelista, ainda
que em decadência.
Sobre
tudo o que afirmamos no parágrafo anterior, duas coisas precisam ser melhor
explanadas: 1º a questão das tradições religiosas, das crenças ligadas à terra,
do mágico neste lugar ser algo cotidiano. 2º A força das personagens criadas
por Santana Filho.
Para o escritor cubano Alejo Carpentier, o mágico, o
absurdo, ou, se preferirem, o surreal, em nosso continente, é parte integrante
do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os
europeus, consciente e subconsciente se fundem num só, num todo, não há
uma fissura. Aqui a razão não prevalece sobre a fantasia, tudo é mágico e
cotidiano. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a
maravilha de nosso continente; basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a
arquitetura maia, ou ainda o Titicaca, lago navegável mais alto do
mundo e berço da civilização Inca. Todo bom romancista cria um mundo no
qual acreditamos. Não se trata de verossimilhança, a ficção nada deve à
realidade, mas de coerência interna. Santana Filho consegue isso; com poucas
palavras nos transporta para um mundo mágico, no qual tia Dália (a seguir
falaremos mais dela) cuida dos defuntos, assegura-se de que foram bem recebidos
do outro lado e se alegra tanto com suas lagartixas a ponto de se converter
numa delas. Além disso, quando ia comprar os mocotós junto ao narrador, muitas
vezes tia Dália “escolhia o pedaço de toucinho a ser levado para dona Assíria
dar de comer à ferida que lhe roía o seio, evitando que o mal se alastrasse à
procura de alimento, consumindo os demais órgãos do corpo. A tia recomendara o
uso do toucinho por dentro do sutiã em contato direto com a boca da ferida e em
uso contínuo até a saciedade daquela fome.” (p. 34) Loucura? Não segundo Tia
Dália, Dona Emerenciana; não aqui.
Tia Dália é a grande personagem deste romance familiar,
que trata da força da consanguinidade. Ela assume a força de uma sacerdotisa
inocente, dissolvendo em tiras colocadas sobre a língua as notícias de jornal.
É quem faz a ponte entre o mundo natural e o sobrenatural. É curandeira e
sábia. Para ela, as enfermidades são um “jogo de luz e sombras, brincadeiras
entre gato e rato, marionetes desarticuladas...” (p.34) Mas nem só de tia Dália,
se faz um romance; são necessárias outras tias, como Inácia. Tia mais velha, viajada,
liberal, conhecedora do mundo, outra estrela do casarão da Rua des étoiles. São
necessárias Dona Emerenciana, vó Lama, o almofadinha Rodrigo e o devotado
Bernardo, sobre os quais o narrador afirma com a naturalidade
latino-índio-americana: “O tio almofadinha se chamava Rodrigo e era filho de minha
avó com o seu filho mais velho, Bernardo, morto de cirrose hepática...” (p.101)
Trocando em miúdos, Santana Filho, além de médico, como
Céline, Moacyr Scliar e Guimarães Rosa é também um tremendo escritor e com esse
A casa das marionetes nos traz algo de latino-americano: o real maravilhoso,
que não é a magia separada da razão, mas uma razão mágica, ou uma magia
racional e cotidiana. Tradição muito forte em nosso folclore e em toda a América
Latina, mas que aqui, literariamente, não explodiu com a mesma força que nos
países de língua espanhola. Talvez por isso eu tenha chegado ao término da
leitura do livro e há alguns parágrafos acima no início desta resenha à
conclusão de que se trata de um romance absolutamente original por aqui.
O que diria a tia?
Reformatório, 2015. R$ 36,00
Reformatório, 2015. R$ 36,00
