Naquela noite você me contou que
estava triste. Cantarolou uma canção antiga, dizendo que nós deveríamos pegar
mais leve, ficar mais calmos, porque amanhã nós ainda estaríamos aqui, mas
nossos sonhos poderiam não estar. Eu me fiz de durão. Joguei meu topete de
lado. Não havia como não me tornar um astro de rock. Outros sonhavam ser
jogadores de futebol, de basquete, atrizes, modelos, Idalino queria ser
corredor de fórmula 1. Sua voz, lembro bem, tinha o timbre da Joni Mitchell, e
você tinha até um ukulele. Onde foram parar todas aquelas meninas e meninos
famosos? Aqueles gênios do sonho? Alguns estão por aí, limpando para-brisas com
o cu cheio de bosta no farol. De você, soube que vivia, até há pouco, em um
albergue em Divinolândia. Eu me tornei funcionário público, único motivo pelo
qual ainda não fui parar embaixo da ponte. Você sabe como é bonita aquela
lorota de educar as novas gerações e etc e tals. Todos têm vocação para fazer,
dos outros, santos, até os ateus. É fácil ser ateu depois que você se sai da
sala de aula e vai ganhar um pouco mais numa salinha arejada com umas
plantinhas verdes e silenciosas.
Fitzgerald
escreveu o melhor início de texto do mundo, em seu Crack up: “É claro que toda
vida é um processo de demolição.” Desmoronamento, demolição, chocamos nossas
frustrações com as frustrações alheias. É, ferimos com requintes de crueldade
aqueles que caminham ao nosso lado e são um pouco mais lerdinhos, ou mais
bonzinhos. Na escola, dizem: “coitada, não domina a sala!” Em outras profissões
deve haver algo semelhante. Vejo gente defendendo o fim da polícia militar.
Deveriam defender é o fim da escola. Ninguém quer professor, quer um sargento
que mantenha 38 alunos com o cu na cadeira durante seis horas.
Mas
nem é disso que quero falar, papo ruim. A gente acha que vai conquistar o mundo
e não conquista, com os bolsos cheios de farelos, nem a simpatia dos pombos na
praça. Feito toupeira cega, saímos empurrando a terra com o focinho, buscando
uma fresta de luz. Quando achamos ter encontrado o túnel certo; quando nos
sentimos fortes e estamos cuidando do corpo e da alimentação... Aí vem, do
nada, uma avalanche e transforma tudo em merda.
Hoje
não estou para bons sentimentos, querida, você sabe, sempre tive problemas para
levantar da cama. E acordei lúcido demais, meu mal desde a infância. Que vá pra
puta que pariu, a utopia. O futuro é tenebroso. Crianças e adolescentes são só
canalhas em fase de crescimento. Não me venham falar de moral – palavra fora de
moda – ou de ética – palavra muito em voga. Conheço a ladainha, percebo há
quilômetros um hipócrita. Meu filho diz hipótrico, acho mais contundente.
É,
temos de tentar ver o outro lado também. Parece que vai chover, companheiro. O
tempo vai abrir. Tem feriado semana entrante. Nem tudo é tão ruim. Existem os
gatos que se aproximam ronronando quando percebem que estamos tendo uns
pensamentos sombrios; mas também existem os karnais que pensam estar
desvendando algo da alma humana, os cortelas que contam as dobrinhas dos dedos.
Quem não é charlatão é canalha declarado. E, então, o proto-padre fala dos
moribundos, que deveríamos ser gratos... Ó, a vida é um dom. A gente pode perdoar a
deus por um bocado de coisas, menos por ter criado tantos idiotas. Toda a
história do conhecimento humano não vale um gato vivo.
Outro
dia me levaram a um psicólogo. As pessoas estão sempre me levando a algum lugar
Igreja, Centro Espírita; eu vou não tenho nada melhor pra fazer mesmo. Até que
gosto deles, dos psicos, mas quando falei que eu parecia um retardado ou um ET
porque sempre que tentava explicar os lugares pelos quais passei, as coisas que
pensei, as emoções cheias de pus que avassalaram meu coração, ninguém me
entendia. Ele, o psicólogo, imediatamente pegou um carimbo e tacou na minha
testa: NARCISISTA. Nem por um segundo o cara pensou que eu estava tentando
nomear minha vida e que todas as palavras estavam gastas demais, sujas demais.
Talvez só eu pudesse mesmo entender as coisas que dizia. Às vezes pareço a mim
mesmo tão claro. Quando Vincent, por exemplo, pinta seu quarto, ele não está
querendo dizer quarto, mas Vincent, sua dor, sua incompreensão, sua falência.
Não é uma metáfora é uma andança. E, ah, como seria bom se alguém algum dia
chegasse com a chave secreta e abrisse todas as portas do labirinto. Então eu
poderia ao menos ter um rosto, um riso, rugas, um nome: existir.
Agora
não quero mais saber. Acredito que o otimismo de uma pessoa é diretamente
proporcional à sua BuRRicE.
Decidi
me tornar um ladrão. Minha dúzia de ovos agora terá treze ovos. O desodorante
roll on cairá fácil no bolso do meu casaco. Não tenho qualquer compromisso
ético com um mundo que sempre me julgou sem sequer me deixar nascer.
Que
aumentem a velocidade das vias públicas para 280 km\h! Que construam ciclovias
na pista do aeroporto. Que se fodam! Que se matem! Não quero mais tomar parte
em porra nenhuma. Só não me venham pedir para levantar uma palha. Meu lema é
dormir sempre que possível e comer pastel de queijo. Não fosse a incompetência
generalizada, a turma já teria dado cabo do mundo mesmo.
Só
levarei comigo o sonho da menina que queria ser Joni Mitchell. Não, melhor,
levarei a lembrança do sonho daquela menina. Talvez ela ainda seja você, talvez
ela também já tenha apodrecido. Não faz mais diferença
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