Segundo um bom dicionário, a palavra
devir vem do latim devenire, que significa chegar. Em filosofia, grosso modo,
trata-se de um conceito que aborda as mudanças pelas quais as coisas passam. O
conceito foi criado por Heráclito que dizia que nada no mundo era permanente
exceto a mudança e a transformação. Fragmento: “Não se pode entrar no mesmo rio
duas vezes.” Nas antípodas de Heráclito está Parmênides que postulava que por
trás das aparentes transformações, dos “devires” havia a pura perfeição em
silêncio, a eternidade, a verdade suprema: o Ser.
Platão, assim como Sócrates, não se
perguntavam o que era estar feliz, mas o que é a Felicidade? Haveria algo de
transcendente, de imutável por traz da natureza, platonicamente, no mundo das
Ideias. Toda natureza que, com o tempo se degrada, é engendrada pela Ideia
perfeita e transcendente.
Boa parte da filosofia Ocidental
versa sobre este assunto: o mutável e o imutável, Deus e a Natureza, o ôntico e
o ontológico.
Como bem disse, nosso bom compositor
baiano: “Se você tem uma boa ideia, faça uma canção / já está provado que só é
possível filosofar em alemão.” E a contribuição tupiniquim sobre o assunto vem
de uma das mais belas músicas do cancioneiro brega, a estupenda: “A noite mais
linda do mundo (A Felicidade)”, cantada por Odair José.
Na canção, o moço goiano afirma
“Felicidade / Não existe / O que existe na vida são momentos felizes.”
Postulando, portanto, junto a filósofos tão diversos e distantes no tempo
quanto Heráclito e Deleuze, que a única coisa imutável é a mudança, a única
coisa que se repete é a diferença. Não há, pois, uma Felicidade eterna,
Transcendental, mas apenas momentos felizes, cambiáveis, blocos de afetos,
imersos no devir.
Não bastasse tamanho poder de síntese
e lirismo, há ainda, na canção, dois
outros versos que se conectam à esfera ética do eterno retorno (não nos
interessa discutir se do mesmo ou do diferente) nietzschiano, o qual aparece
pela primeira vez num aforismo de A gaia ciência pela boca de um demônio hipotético,
o qual pergunta, algo mais ou menos como: e se tua vida inteira retornasse
eterna e eternamente, tu afirmarias cada segundo? O imperativo ético que se
despende daí é “viva cada segundo como se fosse vive-lo eternamente.” Odair
canta: “Vamos viver nesta noite / A vida inteira num segundo.”
Depois de muito tempo esquecido,
Odair José vem sendo redescoberto. Hoje costumam compará-lo ao gênio canadense
Neil Young. Na boa, não é para menos.
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