kEROUAC acreditava que, na
estrada, em algum momento, a pérola lhe seria ofertada. Penso em Clarice,
Lygia, Katherine e na impossibilidade de escrever uma crônica quando já não há
liberdade, bonde ou esperança; elementos essenciais ao gênero.
Meus
olhos perderam o encanto. Tudo é velho e gasto; mas, e a pérola? Onde está a
pérola? Na cerveja que não bebo? Nas crianças dividindo a fruta? No silêncio
que não encontro mais? No louco que busca uma ordem milimétrica para as suas
garrafas, trapos e restos de aparelhos eletrônicos? Propriamente dizer:
-
Tem de haver algo mais – repito. – Avida não pode se resumir a amarrar
cadarços.
Enquanto
empaco no trânsito, uma faceta do maravilhoso se joga do viaduto.
Onde
a pérola para o funcionário público?
No
primeiro pega no cachimbo – o transbordante a dez reais por dois minutos? Na
sequência de acordes do Toninho Horta? Numa canção dos Beatles? O som exato,
ser o que fui? Não, isto não nos traz a pérola, só a nostalgia por uma pérola
que nunca tivemos, que não encontramos, por uma potência de nós mesmos que não
nos deixamos realizar. Quando finda a canção, despencamos do paraíso: carros
buzinam, o dia amanhece cinzento, novo jornal, trens cortam o que resta da
noite, meninos se jogam do oitavo andar.
Como
ver os peixes e os comboios com os olhos de Adélia? Ensina-me, Adélia, a
consagrar uma colher, um guardanapo, a ver o sagrado por todo lado. Tira dos
meus olhos a fuligem.
-
Homem, tu desejas a pérola, mas se apresenta diante de Deus com a alma seca, de
porre, o corpo sujo, amente cansada – diz Adélia e sua poesia me esmaga.
Já
não posso pegar a estrada de Kerouac.
Os
anos passaram a galope.
Passo,
de um minuto a outro, do sentimento oceânico à crise.
Já
não me importam, sequer o leite e o mel. Sou exigente quero me alimentar das
pérolas.
Abro,
pois, a ostra, passo a língua afiada, mas não há brilho lá, só o gosto de
sangue da carne machucada... E a ferida não nos torna brilhantes.
Propriamente
eu sou Durango Kid.
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