É sempre
assim... cada picada aberta me tem mais fechado em mim
Beto Guedes & Caetano Veloso
A padaria fica ao lado da maior
universidade do país.
Ele trabalha na padaria, mas nunca
entrou na universidade. Tem só dezessete anos e ainda cursa o ensino médio numa
escola estadual da periferia da cidade.
Ela estuda na universidade e é
cliente assídua da padaria. Veio de uma cidade no interior de Minas Gerais, uma
cidade pequena; ainda assim, a maior produtora de leite e seus derivados de
todo o país.
Ele gosta do campus por causa das
árvores. Também admira o conhecimento que supõe ser produzido lá dentro, embora
jamais tenha tido coragem de entrar pelos portões sempre abertos. Parecia haver
um campo magnético, como aqueles dos filmes de ficção científica, que o
mantinha eternamente trancafiado do lado de fora. Se tentasse entrar, ele seria
repelido por barreiras invisíveis e impossíveis de transpor. Tomaria choque.
Certeza.
Quanto às árvores, gosta delas
porque trabalha das seis da manhã às duas da tarde e, no verão, quando espera o
ônibus para voltar para casa, é sempre no horário em que o sol está mais
quente. Não fossem as árvores – o campus é bem arborizado -, seria uma tortura
ficar embaixo do sol quente depois de um dia inteiro trabalhando na chapa. Ele
é chapeiro. Chapeiro bom.
Ela tem vinte anos e acaba de
terminar o terceiro semestre de filosofia. Ama Jean-Jacques Rousseau e cheese
bacon. Acredita que a filosofia é a mais nobre ocupação humana. Participa de um
grupo de estudos de A Fenomenologia do
Espírito todas as segundas-feiras das 16:30 às 18:30, mas, como boa
interiorana, não abre mão de uma refeição bem preparada, geralmente coberta por
queijo derretido e seguida de um cafezinho preto.
O engraçado é que ela é magra. Deve
ter um metabolismo estupendo, pois em seu corpo jovem não há uma dobra fora do
lugar.
Os dois jamais tiveram oportunidade
de conversar. O movimento na padaria é imenso nos horários em que ela
aparece para comer... Ele gostaria de conversar com ela sobre seu mundo...
Falar a respeito dos livros que lia nas quatro horas que gastava para ir e vir do
trabalho todos os dias. Será que ela já tinha lido O morro dos ventos uivantes? Ou Pergunte
ao pó? Ou os quadrinhos de Will Eisner? Será que ela já tinha ouvido uma
balada do Black Sabbath chamada Solitude?
Ou mesmo Changes? Ou aquela balada
sobre lágrimas e chuva de uma banda grega que tinha o nome da deusa do amor?
Crianças da Deusa do Amor? Era bom ouvir a Antena
1 FM quando voltava da escola, depois das onze da noite, baladas e só
baladas, mas os amigos roqueiros não podiam saber. A reputação era mantida
gastando metade do salário em discos de bandas desconhecidas na galeria do
Rock. Em dia de pagamento, seguia a pé até a República, para economizar o
dinheiro da condução, e voltava para casa com um ou dois discos dentro da
sacola. É um prazer comparável ao sexo: ser adolescente, comprar um disco caro
que se vinha paquerando há meses, chegar em casa e colocar na vitrola para
tocar. O chiado da agulha percorrendo os sulcos negros é tão marcante quanto o
primeiro beijo. A música é a melhor amante para um solitário.
Mas agora era época de férias,
pouquíssimo movimento na padaria, e ela não tinha ido embora para casa. O
balcão estava praticamente vazio. A oportunidade perfeita, mas, como falar? O
que dizer?
Ela pediu um cheese salada no pão
francês. Ele jogou o hambúrguer na chapa e colocou a tampa por cima.
- Tira o miolo do pão pra mim. É que
não quero engordar, sabe? – ela disse e sorriu.
Ele escolheu o pão ideal, nem branco
demais, nem muito torrado. Partiu-o ao meio, passou maionese e colocou na chapa
para esquentar um pouco. Virou o hambúrguer e colocou duas fatias de queijo em
cima. Tampou novamente. Escolheu a mais verde das folhas de alface e partiu
novo tomate. Virou o pão, cujas bordas estavam douradas por causa da maionese
levemente derretida, e acomodou a salada ali. Tirou a tampa de cima do hambúrguer,
o queijo derretido borbulhava. Num movimento ágil, colocou o pão com a salada
em cima do hambúrguer e virou com a espátula. Acomodou tudo em cima da outra
metade e partiu ao meio. Um pouco de queijo derretido caiu sobre o dedão e o
queimou. Mesmo chapeiro bom cometia deslizes. Chacoalhou o dedo e não deu
importância. É assim que a gente faz.
- Huuuummm! Deve tá uma delícia!
Você é o melhor lancheiro que eu já conheci.
- Chapeiro.
- Que?
- Chapeiro, o nome da profissão é
chapeiro.
- Então você é o melhor chapeiro que
eu já conheci. O sanduíche está simplesmente divino! – disse e acolheu com o
dedo um pouco de queijo derretido que caía da boca depois da primeira mordida.
- Vai querer beber alguma coisa?
- Um suco de laranja.
Enquanto espremia as laranjas, ele
sabia que tinha de dizer alguma coisa. A Intuição gritava que este era o
momento. Se tentasse agora, poderia ter uma chance. Antes ou depois, como
saber? Era agora ou nunca. Dizer alguma coisa, sim, mas, como escolher, entre
todas as palavras, a palavra exata? Existia uma só palavra que o conduziria a
um futuro ao lado dela? Havia um futuro no qual os dois namorariam um tempo e
depois terminariam, ela voltaria para Minas e ele seguiria para Santa Cruz de
la Sierra. Havia um futuro em que os dois se casariam e teriam um casal de
filhos, o menino, o caçula, ficaria de recuperação todos os anos, da primeira à
oitava série. Havia um futuro em que cada um seguiria seu caminho sem olhar
para trás. Havia um bilhão de futuros possíveis. A felicidade dependia da
palavra certa, de uma única palavra certeira. Palavra que funcionaria como
chave numa porta ancestral.
Entregou o suco e disse:
- MORANGO!
- Quié?
- Se você quiser, coloco alguns
morangos no suco pra você e bato no liquidificador.
- E fica bom?
- Como você mesma sempre diz, fica
divino.
- Então faz pra mim.
Ele colocou o suco de laranja no
liquidificador, acrescentou duas pedras de gelo e meia dúzia de morangos. Bateu
a mistura por cerca de um minuto e depois entregou a ela.
Experimentou.
- Huuuummmmm, delícia! Tudo o que
você faz é divino!
Terminado o lanche, ela pagou tudo e
foi embora. Deixou dois reais de caixinha. Ele não sabia se tinha dito a
palavra certa. A gente nunca sabe. Morangos?
Quando estavam no vestiário,
trocando de roupa para ir embora, ele comentou com Severino, o copeiro, seu
amigo, um pouco mais velho, tudo o que estava acontecendo.
- E por que tu num chega e fala pra
ela? Assim... Na lata! Aproveita que o movimento tá fraco.
- Não consigo... Ela nunca se
interessaria por um pé-rapado como eu... Tentei falar hoje, mas pensei uma
coisa e disse outra.
- Bicho, ou vai ou racha! O que
mulher não guenta é home mole, mofino, sem decisão. Sou franco em falar.
Terminaram de se trocar. Ele contou
as moedas que tinha na carteira e colocou os fones do walk-man nos ouvidos.
- Taí, tu não gosta de música? Por
que é que tu não grava uma fita pra ela? Só com aquelas lenta de melá a cueca?
Ela vai se ligá, bicho.
Era isso. Severino tinha razão.
Ficou em casa durante a noite,
gravando uma sequência de baladas matadoras. Como diria o DJ de uma rádio
brega: só as mais mais. Começou lá nos anos 1950, gravando Elvis Presley e Etta
James. Passou para a década de 60 com Joni Mitchell e Crosby, Stills & Nash.
Da década de 70, pinçou Gal Costa, Lô Borges e Beto Guedes. Dos anos 80, gravou
Just like honey, do Jesus and Mary Chain e Por enquanto, da Legião Urbana. O
espaço era curto. Para expressar o que era de fato, precisaria gravar umas dez
fitas e resenhar uns cinquenta livros. Era o que dava pra fazer. Sentia-se
satisfeito. A fita estava bonita.
Dia seguinte, acordou às quatro
horas da manhã e foi trabalhar. Apesar do sono, aproveitava o trajeto para ler,
afinal, eram duas horas de viagem. Colocou os fones nos ouvidos, a touca por
cima e abriu o Crime e Castigo.
Durante as primeiras horas da manhã,
não trabalhou bem, embora o serviço fosse fácil. Geralmente, neste horário, as
pessoas pediam pão com manteiga, no máximo um misto quente. Easy... Easy... Só
que, nesta manhã, ele deixou dois pães com manteiga caírem no chão ao
retirá-los da chapa.
Motivo?
A fita k7 ardia no peito.
Era mais de nove horas quando ela
apareceu. Ele lavava as verduras. Chapeiro bom tem tudo preparado na hora do
almoço.
- Oi... Huuuummmm, tô morrendo de
fome! Não jantei ontem. O que você me sugere?
- Churrasco com queijo, pode ser?
- Hummm, não sei. Você põe umas
fatias de bacon pra mim?
- Você é quem manda.
- E um pouco de vinagrete também?
- Já disse, você é quem manda.
- Então faz lá, capricha, tô mesmo
morrendo de fome.
Ele colocou o contrafilé e quatro
fatias de bacon na chapa.
Saiu um pouco de seu posto de
trabalho.
Estava disposto a entregar a fita.
Ela lia um livro de capa vermelha.
Judas, o obscuro, de Thomas Hardy.
- Já li esse livro.
- Jura? É muito triste, mas estou
adorando.
- Todo livro bom é meio triste.
- Tem razão. Então, além de fazer
estes lanches maravilhosos, você também gosta de ler?
- Ahã. Esse aí eu li duas vezes. É a
história de um cara pobre que quer ser intelectual, né? Ele tenta de todas as
formas e, no final, fracassa.
- Não conta o final, ainda não estou
nem na metade.
- Desculpe. Tenho uma coisa pra te
dizer. Espera só um pouco...
Nisto, ele teve de ir até a chapa
para virar o bife e o bacon. Quando voltou, um homem que ele conhecia,
professor da faculdade, barba e cabelos grisalhos, estava sentado ao lado dela,
com o braço ao redor de seus ombros.
- Que livro é esse que você está
lendo? – Perguntou o professor.
Ela mostrou a capa.
- Uma porcaria! Já falei que você
tem de ler Sartre.
- Já li Sartre – interrompeu o
chapeiro.
O professor fez uma careta. Estava
incrédulo, embora fosse um humanista de Moema. Um chapeiro que lia Sartre era
inimaginável! Nem em Paris! Ou então era mentira mesmo...
- Que livro de Jean Paul Sartre você
leu? O Ser e o Nada? A Náusea?
- Não, nenhum dos dois, o título era
A idade da razão. Gostei principalmente de um personagem homossexual que afoga
seus gatos, e ele amava demais os gatos, no Sena.
- Além de fazer lanches divinos, ele
conhece um bocado de livros.
Ele sorriu e teve de correr até a
chapa. Em menos de um minuto, colocou o vinagreta para esquentar, cortou um pão
francês e também pôs sobre a chapa. Duas fatias de queijo sobre o bife, o bacon
por cima. O bife por baixo e o bacon por cima derreteriam o queijo mais
rapidamente. Por fim, juntou o vinagrete e, num movimento milimétrico, montou o
lanche. Aí era só partir o lanche ao meio e levar para ela.
Quando se aproximava do balcão da
copa, entretanto, ela e o professor estavam se beijando. Ali, bem no meio da
padaria e da manhã. Então eles estavam juntos? Como homem e mulher? Juntos? Ele
tinha idade para ser pai dela, forçando até avô, porra! Até aquele momento, nem
sequer tinha desconfiado. O lanche quase despencou de suas mãos. A fita k7
tremeu sozinha no bolso do guarda-pó. A barriga doeu. Peidou... Encostou-se ao
balcão.
Severino percebeu tudo e foi rápido
em recolher o lanche de suas mãos.
- Tais passando mal, menino? – O Português
perguntou do caixa.
Severino voltou correndo com um copo
de suco bem doce.
- Tá não, seu Joaquim, o menino tá é
bem.
No balcão, o professor discutia com
a menina, na medida em que ia lendo as notícias do jornal:
- Isto é uma vergonha! Eu exijo que
Israel liberte a Palestina! Mas como? Outro caso de pedofilia na igreja católica?
Sinto-me enojado!
Entre um comentário e outro, ela
tenta beijá-lo, mas é repelida:
- Você está com a boca cheia de
gordura, anjinho, depois nos beijamos. Deixe-me terminar de ler o jornal, mas,
o que é isto? Temos de acabar de fato com a polícia, tanto a civil, quanto a
militar...
- O que é que você queria me dizer? –
a menina pergunta ao chapeiro enquanto o professor continua lendo o jornal e,
dessa vez, exige que os Estados Unidos retirem, de uma vez por todas, todas as
suas tropas do Oriente Médio.
- Deixa, quieto – ele responde e se
dirige ao outro lado da padaria para cortar os frios. É preciso ter tudo pronto
para a hora do almoço.
O casal termina a refeição.
Vão de mãos dadas até o caixa.
Ele paga a conta e pede um maço de
cigarros. Antes de irem embora, o professor grita ao chapeiro:
- Segura aí! – E atira uma moeda de
um real.
A moeda bate no peito e vai parar no
vão embaixo do balcão. Ele agacha e tenta apanhá-la.
- Tava gostoso demais da conta.
- Obrigado – ele responde e continua
tentando apanhar a moeda. Não consegue. É preciso buscar o rodo lá no cozinha.
Ao se ajoelhar para tentar pegar a moeda com o rodo, a fita k7 cai de seu
bolso. Ele recolhe a moeda e a fita e vai até a copa.
- Tomaí – diz Severino.
- O que é?
- Bebe, rapaz.
É um líquido amarelo. Parece fanta
laranja, mas deve ter alguma bebida alcoólica dentro.
Depois de virar o copo, o chapeiro
tira a fita do avental e atira no meio da rua. Um caminhão de bebidas que
estacionava para a primeira entrega do dia, imediatamente esmaga a música. O
barulho do acrílico sendo triturado se parece com o barulho de ossos quebrando.
- Fica desse jeito não, a vida é
assim mesmo. Se tu quisé, te levo na zona, menino, hoje mesmo.
- Deixa quieto, Severino.
E aí um cliente chega e, sem
titubear, exige:
- Quero dez cheese tudo pra viagem!
- É pra já!
Imediatamente, o chapeiro corre até
a chapa e coloca cinco hambúrgueres para fritar. Depois quebra cinco ovos e
junta um punhado de bacon que é para dar o gosto. Não dava para fazer os lanches todos de uma
só vez. Teria de fazer metade e metade. Normal. É profissional. Chapeiro. Uma
profissão tão inglória e gloriosa quanto outra qualquer. Os gênios entre os
egípcios manejavam a desempenadeira. Eram pedreiros. Ergueram as pirâmides. Ele
é chapeiro. Chapeiro bom.