Não se diz: dessa água não beberei; todavia, já não sinto a menor necessidade de escrever um romance, embora tenha escrito meia dúzia até aqui. Dentre os gêneros literários, o romance é o mais amorfo. Nele, cabem vestígios do conto, da crônica, do ensaio e do poema. De certo modo, até por conta de sua extensão, o romance absorve todos os outros gêneros. Em suas páginas, cabem o mais corriqueiro e o mais elevado: o pão de queijo, o café com o amigo, mas também a morte da pessoa amada, o nascimento de um filho. Entre os gêneros, talvez seja o romance o que mais se aproxima da vida. Misto de banalidade e milagre. Valéry dizia não poder escrever um, porque não se imaginava escrevendo uma frase trivial como: "A baronesa saiu às cinco horas da tarde". Não vou por aí. Em mim, o processo era um esforço de dar forma ao caminho. Em cadernos, eu ia anotando tudo o que me surgia: ideias, reflexões sobre leituras, descrições, cenas; enquanto isso, no útero, a narrativa ganhava contornos. Quando sentia que a criança estava pronta para nascer, começava a escrever, costurando todas as anotações dentro de um clima, uma visão, um mundo. Não mais. Quero continuar escrevendo entre a forma e o informe, fiel ao momento exato em que o que não há, passa a haver. Já não estamos no século XIX. É a vida mesma que quero escrever. A vida é narrativa. É a história de quem somos que viemos contar ao mundo. Dentro de mim aconteceu uma inversão: o que vem primeiro já não é o viver, mas o contar. Então, se observarmos, nossa jornada por aqui é só um único e longo romance. A gente escreve e vive sempre o mesmo livro. Para que dividir em unidades acabadas de sentido? Aquelas notas continuam proliferando, mas já não me esforço para incluí-las num contorno. Minha vida é o contorno que as torna coerentes. Vida como escrita e escrita como vida, indiscerníveis. Assim como a vida, literatura é devir. Não posso corrigir o menino que fui a não ser no homem que sou; bem como já não concordo com muito do que escrevi, mas não posso revisar; a palavra é fiel àquela hora, ao cara daquele momento e, se mudei, anoto agora, fiel ao que sou, já não tenho de defender o que disse há um, dois, dez anos. A palavra é irmã do rio. De todos os caminhos espirituais, o dizer foi o que melhor se ajustou ao vazio que sou neste mundo; o qual, em verdade, nem existe🌻
Daniel Lopes Guaccaluz compartilhou uma lembrança.
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Daniel Lopes Guaccaluz
A UM CASTELO BRANCO
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De uma prostituta portuguesa...
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Texto emocionante de Daniel Lopes Guaccaluz
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