quarta-feira, 1 de julho de 2020
A LEI SECRETA
Em seu Introdução à Metafísica, Martin Heidegger faz a pergunta que é o início de toda a filosofia e que, no entanto, ninguém antes havia formulado: “Por que o ente e não antes o nada?” Por que o átomo, o homem, as galáxias e não o nada? Quando foi que um elétron passou a ser a partir deste impensável que chamamos nada? Que centelha criadora, lá no passado sem fim, incendiou-se de tal paixão que passou a ser? E mais: a paixão em si já é algo. Em que momento o nada mudou de natureza e criou algo diferente de si? O que há na cartola do mago? Não temos resposta para tais perguntas. Mais importante que a resposta é a pergunta certa, porque a aventura humana, em verdade, é pergunta revigorada ao longo do tempo, histórica-mente. Ainda não podemos sondar os confins do universo, mas podemos investigar os confins de nosso ser, o qual é feito da mesma chama. Em mim, o nada faz visita travestido de angústia. “O que você tem, menino, que tá aí acabrunhado?” “Nada!” Talvez seja este o motivo do meu estado de ânimo depressivo e do qual, quando se torna insuportável, fujo com medicamentos. Na angústia, o nada faz visita e, a partir do nada, a criação se torna possível. Daí a arte ser, no mór das vezes, uma atividade dolorosa! Tudo o que é manifesto está sujeito ao tempo e, portanto, à mudança. Há, contudo, uma lei secreta, esquiva e inefável, que nunca muda, posto que é seu próprio paradigma, e que rege tanto a trajetória dos elétrons ao redor do núcleo, quanto a dos planetas em suas órbitas. Neste exato momento, cientistas tateiam, buscando descobrir a equação que una a teoria da relatividade à física quântica. Tal descoberta pode ser a ponta do véu, ou novo equívoco e não responde à pergunta; antes mapeia os rastros do nada em tudo o que é manifesto. Talvez o nada seja inacessível ao pensamento. A porta da caverna está selada. Pela fresta, no entanto, podemos sentir o frio que sopra lá de dentro. O nada pode ser sentido, mas não pensado. Quem foi até o fundo do abismo sabe que do outro lado há um colo. Deus é a sensação de estar em casa depois de cair no sem-fundo. Mas não era nada disso que eu queria dizer. Quero voltar à lei, porque ela sim pode ser pensada. Algo sustem o mundo existindo. Embora tudo mude, a lei continua a mesma. A Terra faz todo ano o mesmo trajeto ao redor do Sol, o camaleão ordena que seu couro mude de cor ante o perigo. Nestes dois eventos tão díspares, opera a mesma lei: a Consciência - Ela per-meia. Quando o livro de Gênesis diz que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, não falava de braços e pernas, mas da abertura que é Consciência. A razão ainda não é Consciência. O ser humano é o lugar onde Deus cria a si mesmo e espanta-se com tudo o que criou. A arte é a linguagem deste espanto. Amanhã🌻
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário