terça-feira, 7 de julho de 2020
OUÇA O LEÃO
Conheceram-se nos tempos da pandemia. Todas as tardes, corriam - sob os crepúsculos deslumbrantes daqueles dias - na mesma praça. Davam dez, doze voltas e proseavam, protegidos pelas máscaras. Ele tinha olhos claros, quase sobrenaturais. Era verdadeiro. Desde o início, confessara ser cocainômano. Fora internado uma pá de vezes e, agora, frequentava um grupo de ajuda mútua; estando limpo havia já mais de dois anos. Ela gostou da sinceridade. Afinal de contas, todos temos esqueletos no armário. Uma noite, depois da corrida, não suportando mais a seca e a fragilidade daqueles dias, ambos se tocaram; num canto escuro. Ela sentiu os braços, o peito, o cheiro; seu sexo derramou, amanteigado, pulsante, pronto para receber o músculo. Faltava, no entanto, uma coisa: o beijo. O desejo gritava mais alto que a prudência e ela abaixou a própria máscara. Quando, todavia, tentou tirar a máscara do amante, ele fugiu: olhos horrorizados. Por alguns dias, ele não apareceu e ela teve dificuldades para dormir; se conseguia, tinha pesadelos, sempre com felinos. Quando, por fim, encontraram-se outra vez, foi como se nada tivesse acontecido. Correram, conversaram, gargalharam alto, porque ele era engraçado. Nesta tarde, ele a convidou para conhecer sua casa; ao que ela não pôde recusar. No caminho, dentro do carro, acariciavam-se até quase. Ele tinha dedos macios. Entraram correndo. Enfurecidos pelo desejo, mas quando deitaram na cama e despiram-se, ele pediu para continuar de máscara. A moça insistiu. Como leão acuado, ele tentou dizer não; mas cedeu, por fim – olhos frágeis marejados. Foi ela então quem fugiu, feito presa assustada; quando, ao retirar, com as próprias mãos, a máscara do rosto dele, avistou, onde deveria haver nariz, apenas dois buracos fundos, cercados de carne preta, como se fossem cancros; condilomas num pênis apodrecido.
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