quinta-feira, 5 de outubro de 2017

SOBRE A CAIXA DE FERRAMENTAS

Ouvi dizer que certos monges no Himalaia atravessam semanas e semanas para construir a mais bela mandala de areia... Quando a mandala, enfim, fica pronta; eles, prontamente,  destroem-na. Não há homenagem maior à impermanência das coisas, ao fogo, ao rio, à atividade em si e não ao resultado: Heráclito anda por aí e o wu wei também. Logos é o Tao do ocidente. A lição que fica para o artista aqui é o desapego, o gosto por dar forma: o ovo é o caos do pássaro, sem vaidade e sem esperar resultado. A orquídea não floresce por causa do olho humano, embora o olho humano saiba guardar a beleza. Mas, por que é que escrevi isso tudo mesmo, hein? Ah, sim! Eu também escrevi um livrinho intitulado A delicadeza dos hipopótamos, no qual, basicamente, um filho volta à cidade onde nasceu para tomar o lugar do pai... Mesmo sem saber, mesmo contra a vontade, mesmo sem ter filhos; um dia, nós também nos tornamos o pai.
Meu pai sempre teve habilidade para trabalhos braçais... Trabalhava em metalúrgica, mas faz, desde sempre, trabalhos de pedreiro, eletricista, marceneiro, encanador; e, quanto maior o desafio, melhor. Já com mais de sessenta e cinco anos levantou, praticamente sozinho, um sobrado de sete cômodos nos fundos de casa. Quando alguém perguntava para que ele estava fazendo aquilo, naquela idade, quem iria morar lá, ele respondia sereno:
- Tenho netos, mas não sei. Meu trabalho é fazer...
Quando precisava fazer algum trabalho na minha própria casa, sempre chamava meu pai...  Nunca tive tempo ou vontade. Quando eu mesmo tinha de fazer o serviço, caminhava até a casa do velho e pegava a ferramenta necessária emprestada. Ele ficava puto. Um homem tem de ter suas ferramentas! Pois bem, aos poucos, fui tomando gosto em arrumar as coisas, em colocar tudo nos seus devidos lugares. A vida fica mais fácil com um pouco de organização e Deus não entra em casa suja. Então, dias atrás, fui até uma casa de materiais para construção e comprei uma furadeira, um martelo, a marreta, uma caixa de ferramentas completa, parcelada em três vezes no cartão. Gosto de escrever e, enfim, percebi que escrever e consertar as coisas quebradas que encontro pelo caminho são trabalhos semelhantes.

domingo, 1 de outubro de 2017

OUTUBRO

Ando pensando em Alberto Caeiro: “Há metafísica bastante em não pensar em nada.” - e em Martin Heidegger. O mundo em si é simples, se aceitarmos o mistério. É preciso não ter filosofia para compreender as coisas. Talvez por isso o Rosa tenha recorrido aos jagunços, às crianças, aos cangaceiros; eles é que são os sábios. A sabedoria é natural. Há quem tenha sabedoria, mas não conhecimento. Há quem tem conhecimento, mas não sabedoria. E há os raros que têm tanto conhecimento quanto sabedoria... Lao Tsé: “Conhecer reconhecendo a ignorância fundamental é saúde mental.” O problema é que já chegamos às coisas com as lentes sujas. Desde a infância, na escola, o humanismo deposita conceitos e mais conceitos em nós... E, quando chegamos às coisas recheados de conceitos, perdemos as coisas porque projetamos a nós mesmos em tudo o que vemos. Contaminamos tudo! Estamos tão mergulhados na complexidade, que, quando dizemos as coisas mais simples, como fez Heidegger, parecemos complexos. Quando perdemos a naturalidade, sofremos e, quando sofremos, tornamo-nos Midas, tudo o que tocamos – com o ouro da razão – destruímos. Olha o Rio Doce. Outro dia vi uma reportagem. Destruímos o rio; mas a natureza, aos poucos, se reconstrói. Basta deixar o Rio quietinho e, em alguns anos, o teremos vivo de novo. Mas este é nosso grande desafio: ficar quieto, deixar as coisas quietas... Temos a impressão de que temos de estar o tempo todo fazendo alguma coisa, é um modo de não lembrarmos nossa finitude, nosso nada... Mas, ao não nos aquietarmos, vamos violentando as coisas. E, depois, quando aparecemos com as soluções, as conquistas da tecnologia e das ciência$, esquecemos que boa parte delas são soluções para problemas que nós mesmos criamos – é um círculo vicioso – ainda que a aspirina seja uma tremenda invenção, como percebeu o João Cabral.