domingo, 1 de outubro de 2017

OUTUBRO

Ando pensando em Alberto Caeiro: “Há metafísica bastante em não pensar em nada.” - e em Martin Heidegger. O mundo em si é simples, se aceitarmos o mistério. É preciso não ter filosofia para compreender as coisas. Talvez por isso o Rosa tenha recorrido aos jagunços, às crianças, aos cangaceiros; eles é que são os sábios. A sabedoria é natural. Há quem tenha sabedoria, mas não conhecimento. Há quem tem conhecimento, mas não sabedoria. E há os raros que têm tanto conhecimento quanto sabedoria... Lao Tsé: “Conhecer reconhecendo a ignorância fundamental é saúde mental.” O problema é que já chegamos às coisas com as lentes sujas. Desde a infância, na escola, o humanismo deposita conceitos e mais conceitos em nós... E, quando chegamos às coisas recheados de conceitos, perdemos as coisas porque projetamos a nós mesmos em tudo o que vemos. Contaminamos tudo! Estamos tão mergulhados na complexidade, que, quando dizemos as coisas mais simples, como fez Heidegger, parecemos complexos. Quando perdemos a naturalidade, sofremos e, quando sofremos, tornamo-nos Midas, tudo o que tocamos – com o ouro da razão – destruímos. Olha o Rio Doce. Outro dia vi uma reportagem. Destruímos o rio; mas a natureza, aos poucos, se reconstrói. Basta deixar o Rio quietinho e, em alguns anos, o teremos vivo de novo. Mas este é nosso grande desafio: ficar quieto, deixar as coisas quietas... Temos a impressão de que temos de estar o tempo todo fazendo alguma coisa, é um modo de não lembrarmos nossa finitude, nosso nada... Mas, ao não nos aquietarmos, vamos violentando as coisas. E, depois, quando aparecemos com as soluções, as conquistas da tecnologia e das ciência$, esquecemos que boa parte delas são soluções para problemas que nós mesmos criamos – é um círculo vicioso – ainda que a aspirina seja uma tremenda invenção, como percebeu o João Cabral.

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