Ando pensando em Alberto Caeiro: “Há
metafísica bastante em não pensar em nada.” - e em Martin Heidegger. O
mundo em si é simples, se aceitarmos o mistério. É preciso não ter filosofia
para compreender as coisas. Talvez por isso o Rosa tenha recorrido aos jagunços,
às crianças, aos cangaceiros; eles é que são os sábios. A sabedoria é natural.
Há quem tenha sabedoria, mas não conhecimento. Há quem tem conhecimento, mas
não sabedoria. E há os raros que têm tanto conhecimento quanto sabedoria... Lao
Tsé: “Conhecer reconhecendo a ignorância fundamental é saúde mental.” O
problema é que já chegamos às coisas com as lentes sujas. Desde a infância, na
escola, o humanismo deposita conceitos e mais conceitos em nós... E, quando
chegamos às coisas recheados de conceitos, perdemos as coisas porque projetamos
a nós mesmos em tudo o que vemos. Contaminamos tudo! Estamos tão mergulhados na
complexidade, que, quando dizemos as coisas mais simples, como fez Heidegger,
parecemos complexos. Quando perdemos a naturalidade, sofremos e, quando sofremos,
tornamo-nos Midas, tudo o que tocamos – com o ouro da razão – destruímos. Olha
o Rio Doce. Outro dia vi uma reportagem. Destruímos o rio; mas a natureza, aos
poucos, se reconstrói. Basta deixar o Rio quietinho e, em alguns anos, o
teremos vivo de novo. Mas este é nosso grande desafio: ficar quieto, deixar as
coisas quietas... Temos a impressão de que temos de estar o tempo todo fazendo
alguma coisa, é um modo de não lembrarmos nossa finitude, nosso nada... Mas, ao
não nos aquietarmos, vamos violentando as coisas. E, depois, quando aparecemos
com as soluções, as conquistas da tecnologia e das ciência$, esquecemos que boa
parte delas são soluções para problemas que nós mesmos criamos – é um círculo
vicioso – ainda que a aspirina seja uma tremenda invenção, como percebeu o João
Cabral.
domingo, 1 de outubro de 2017
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