
Há dias que deveriam amanhecer depois das onze da noite, mas o sol nos acorda, o caminhão do gás passa com sua música de
torturador alemão, os pedreiros batucam nas casas ao lado. Na periferia, as
casas nunca terminam. Há, entretanto, coisas urgentes requisitando atenção, a
barriga, por exemplo. Sempre é preciso pensar no almoço no Bom Prato, enquanto outros
pensam em croissant em Paris. Cinquenta anos, a cara feia, o nariz cheio de cravos
pretos, dez quilos de sobrepeso e essa vontade de escrever só para ofender a
tudo e a todos. Tudo o que podia resultar em amor virou ódio, ressentimento,
incompreensão. Punir todos os bons sentimentos. Esse é meu lema. Os filantropos
são uns chatos; essa esquerda de rede social – misto de revolucionários do Jardim
da Infância e burros cultos - uma chatice. Cá entre nós, toda essa turma são as
testemunhas de Jeová do materialismo. Ostentam duas ambições: voyage a Paris e salvar uns faveladinhos
à distância. A maquiagem de consciência é a estética de nosso tempo. Ou eles
diriam ética? E todos reclamam a falta de oportunidade, eu inclusive. As
mulheres não têm oportunidade, os gays também não, os negros muito menos. E,
tirando o Dória, os Batistas e mais meia dúzia, quem é que tem? Você tem de
fazer a oportunidade, tacar a pedra na vidraça, botar pra fudê e, claro que um
pouquinho de talento, também ajuda. Muitas vezes não há uma conspiração para
derrubar quem quer que seja, só falta de talento mesmo.
Como perceberam, falo demais, esse
aí é meu mal, mas pobre não é assim mesmo? Barraqueiro, boca suja, escandaloso,
só os pobres dos intelectuais é que tomam café com o dedo mindinho levantado. Lembro
vagamente de tudo o que aconteceu ontem. Coisa besta, não se pode mais elogiar
uma dama que tudo é mal entendido, as mulheres se sentem vilipendiadas,
ofendidas:
- Moça, você é tão bela que me dá até
vontade de peidar – falei, assim, na lata. Queria expressar minhas entranhas,
meus sentimentos mais carnais, mortais e profundos. Amor de corpo, entendem?
Nada de almas. Só aquela coisa dos corpos de que fala Bandeira. E aí me veio a
metáfora do peido. Dizem que quem tem cu tem medo. E tem medo porque o cu é a
prova de que morremos. Tudo o que caga morre. Almas e anjos não têm cu. Mandar
alguém tomar no cu é mandar tomar na morte.
Confusão generalizada, ali, no Bar da
Loira, não entenderam meus insights filosóficos,
meu sartori, minha epifania. Alguém
sacou um trezoitão, o namorado da dama,
acho... Os botões da minha camisa caíram pelo chão... Depois umas cadeiras passaram
voando e um tremendo empurra-empurra começou: mata, não mata... Mata, não
mata. Vamos debater, comigo é nas ideias! - falei. Ideia de cu é rola, maluco. Como
são emocionantes os relacionamentos apimentados! No final, estávamos todos
juntos, comendo uns ovinhos de codorna e tomando catuaba.
Isso tudo foi ontem à noite, domingo. Se
gostasse do Faustão, teria escapado da confusão; mas minhas segundas-feiras começam no domingo depois das seis, e preciso esquecer um pouco, como todo mundo. Vasculho agora os bolsos e
não encontro moeda. A fome aperta. Vou ao banheiro. Três dias de cachaçal,
torresmo e ovo cozido: só os melhores ovos, aqueles de casca rocha. Dá uma vontade
de beijar uma dama de gosto requintado, dessas acostumadas a licor de cassis e wrap de alcachofra, mais assim, pelo aroma
delas, que pelo sabor do beijo. Saio do banheiro. Fezes nada saudáveis, mas
também não tenho qualquer vontade de prolongar a vida.
Eu gostaria de passar a
manhã de segunda-feira refletindo sobre a diferença ontológica entre o ser e o
ente, mas tenho questões mais urgentes para pensar: um real para o Bom Prato.
Como um real pode fazer tanta falta a um artista, um filósofo? Ó Diógenes, será
que em algum lugar em seu barril haveria um real?
É uma manhã quente. Segunda-feira.
Sinto um pouco de pavor porque não sei se o cara ainda quer me matar. As
havaianas suam, gosmentas de sujeira, escorregando nos pés. E ainda tem o Bar
da Gorda e o Bar da Loira... Tenho de passar na frente dos dois. Por três vezes
já fui parar na lousa dos caloteiros: uma vergonha. Tentei pagar com um dos
meus livros, mas a Gorda jogou o livro do outro lado da rua. Depois falam do
romantismo feminino. Por aqui ninguém acredita que sou um artista. Isto me
deixa muito magoado. Pensam que sou apenas um vagabundo. Na Grécia, Alexandre,
o Grande, foi visitar Diógenes e extraiu daí valiosa lição. No Jardim Robru é diferente.
O jeito é esperar um
caminhão. A Gorda e a Loira conversam varrendo a calçada... E o pavor
crescendo.
Fico escondido atrás
de um poste, esperando um caminhão descer a rua. Essa rua é mais movimentada
que o porto de Santos, mas quando a gente precisa, não passa um caminhão, um
ônibus, nada. Aparece uma Kombi. Espero ela chegar bem perto e acelero a
corrida pra ninguém me ver nos bares comprometedores. Como seria bom sentar à
beira do Sena e degustar um cappuccino, comentando a situação política du Brésil!
A quitanda do Seo Mané
ainda está fechada. Ô sorte! Subo na mesa de sinuca e me aproprio das lâmpadas. Ele nunca me
vendeu fiado mesmo. Será que Andrei Tarkóvski passou por situações semelhantes
na Rússia? Todos os artistas pobres do mundo tinham pais formados em cursos
superiores lá pelos anos vinte. Meus avós sequer sabiam ler. Por que será que
todo mundo gosta de dizer que foi pobre? Será que enxergam alguma espécie de
santidade na pobreza? Sim, sofremos muito para pagar nossa cobertura nos
Jardins! Na Vieira Souto! Foi um tempo difícil. Como não?
Enfim, caminho uns
três quilômetros para vender as lâmpadas. Para tudo neste mundo precisamos
contar com uma certa logística. Tento pechinchar um real e uma cachaça. Sem chance.
Ou uma coisa ou outra, diz o dono do bar. Ó dúvida cruel, alimentar a alma ou
o corpo? Se minhas fezes estivessem com um aspecto melhorzinho... Teria cuidado
da alma, mas aquela coisa esverdeada, com pelotas de sangue deixara-me
preocupado.
Vou para a frente do
Bom Prato, pego a fila no começo. A sorte está mudando. Como. O estômago
estufa. Chupo uma laranja. Saí. Tudo começa a clarear. Não precisamos de
muito. Estava tudo indo tão bem que fiquei com medo de que alguém me parasse na
rua e oferecesse um emprego. Graças ao bom Deus, tal medo se mostrou infundado.
Quando me sentei num banco da praça para esperar a digestão, um cachorro vesgo
encostou. Cachorros e gatos sempre colam em mim, mas, assim como as mulheres,
eles também não ficam por muito tempo. Olhei o cachorro. Era um tranqueira pior
que eu. Acho que andava bebendo por muito mais tempo.
- Que acha de
batalharmos mais um real para uma cachacinha mais tarde? – Perguntei.
- Au, au – ele disse.
E saímos procurando
umas lâmpadas dando sopa.