“Mas, todas as manhãs,
a mesma ferida”. Escreveu Foucault em O corpo utópico. Um texto denso e visceral, no qual o autor que,
junto a Nietzsche, mais celebrou o corpo, trata-o - ele, corpo - como “uma
jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear”. Acho que conheço bem a sensação: manhãs em que
tudo nos falta, o tempo como abismo, eternidade, futuro infindável de
desespero. O cérebro que se nega a produzir endorfina... Tudo falta. Se faz
sol, o sol dói. Se chove, a chuva machuca... E o tempo não é horizonte de esperança,
mas juiz que sentencia:
- Culpado por toda a
eternidade!
Não sei quanto a
Foucault, mas eu tenho minha receita: uma praça... Juntar as forças, caminhar,
olhar os outros, os pássaros, as árvores, as flores, os adolescentes namorando,
os velhos jogando dominó, os animais. Vira e mexe, chego em casa com um gato ou
cachorro de rua.
Dizem-nos, quando
estamos sofrendo, para visitar a ala de tratamento de câncer em um hospital
qualquer. Para mim não funcionaria. Faria mal aos doentes e a mim mesmo. A esperança
é irmã gêmea das flores; é no jardim que se deve colhê-las. De modo que eu
caminhava, na praça. Fazia sol depois de dias de chuva. Uns garotos jogavam bola
na quadra. Meninas andavam de patins e meninos, de skate. Num cantinho isolado,
entretanto, a família brincava. Eram quatro pessoas. Duas meninas de uns sete,
oito anos; um menino de uns dois e o pai: magro, alto, com o cabelo cortado do
mesmo modo que o filho, um menino grande. Eram extremamente pobres. A pobreza
tem rosto e uniforme: manchas na pele, micose, vestidinhos esburacados,
camisetas e bermudas manchadas por gotas de água sanitária, chinelos gastos de
borracha.
Ainda que não fosse natal, o pai tinha feito um trenó. Amarrara uma corda fina nas duas extremidades
de um pedaço retangular de madeira, ajeitara os filhos ali em cima, colocara a
corda ao redor da cintura e dava piques de um lado para o outro. As crianças
gargalhavam. Às vezes, uma delas, não necessariamente a menor, caía na grama. As
outras crianças gritavam. O pai parava. A meninada se ajeitava outra vez sobre
a madeira e a brincadeira continuava. Sentei num balanço ao sol para
observá-los. Não prestavam atenção em mim. Estavam se divertindo demais para
prestar atenção ao entorno.
Brincaram por mais de
uma hora. O pai estava esgotado, molhado de suor. Antes de partirem, o pai
colocou o menininho sobre os ombros, pegou a mão de cada uma das meninas, a
maior puxava o trenó com cuidado, feito bicho de estimação. Ao passarem por
mim, os quatro sorriram. Só o menino tinha todos os dentes. Ao pai, tanto
quanto às meninas, faltavam os dentes da frente. Ninguém se importava. Estavam felizes. Eu sorri de volta, esse meu riso de quem deseja
ser aceito, e a manhã se tornou mais leve e o futuro já não era tão abismal.
Antes de atravessarem a rua, o pai se virou e acenou pra mim. Era apenas um homem com a sensação do dever cumprido. Um herói banguela.
Antes de atravessarem a rua, o pai se virou e acenou pra mim. Era apenas um homem com a sensação do dever cumprido. Um herói banguela.


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