Se procurar direitinho, você vai perceber dentro de si um outro. Forte, imutável, silencioso, iluminado e, ao mesmo tempo, misterioso. Enquanto um eu tagarela, o outro observa. Diante deste outro que me é para além de mim, ajoelho-me - fiel e altar - e ofereço o que tenho: minha alegria, minha festa, esta insegurança diante de meu semelhante, esta dor que não cala, meu coração partido. O outro é o buraco no fundo da agulha por onde passo pra me fazer eterno, infinito, ilimitado, sagrado. Há em cada um de nós uma fissura que nos leva a. É inútil procurar fora aquilo reside em nosso próprio coração. Você é maior que a História do mundo. No parque de diversões da alma, a criança-criação segura uma maçã do amor. Deus é simples.🌻
terça-feira, 19 de novembro de 2019
BITUCA E TÍ TUNICO
Meu tio Antonico tinha setenta anos, mas parecia ter sete. Era especial. Pequenim, a cabecinha branca, magro-magrim. Foi menino a vida toda. Era do lado italiano da família e gostava de. Conhecia pelo canto. “Ói, hum, trinca-ferro... Ói, ô, é coleirinha!” Era do tempo antigo e, infância vasta, confundia amor e posse. Tinha viveiro onde criava muito, mas de preferencia era um só. Passo preto. Bonito, vistoso, peito estufado, cantadô do grave ao agudo, solfejado; em sendo macho, tinha coração de fêmea, o bichim. Nome dado foi Bituca, em virtude de minha prima, Madá, que era do lado mineiro e escutava o Clube; momento em que o passarim cantava ainda mais alto, desafiado, disputando com o outro. Foi Madá também quem contou causo, no intuito de conscientizar. Disse que o povo furava os olhos de passo preto na intenção de afinar o canto. Nesse dia, o tio chorou. Maldade muita pra imaginar um coração sem mancha. Madá continuou. Era judiação sim; mas também o era manter os bichim tudo assim... preso: mesmo conversando, limpando, dando carinho e alpiste do melhor. “Os bichinhos são do céu e não da gente”. Madá, pedagoga severa. Ensinava o certo pela autoridade; sem vislumbre de delicadeza. Aos pouquim, tio Tunico foi soltando. Mas chorava sempre. E adoecia. Tinha febre alta e caganeira. A vó brigava: “Pra que isso Madá? El’é menino.” E a prima: “Menino também distingue”. E foi que foi. E o tio se-desfez-se da íntegra, mas do Bituca não conseguia, posto que preferido. “Agora canta pra Madá”. Dizia o menino envelhecido. E o preto cantava de um jeito. “Agora canta pra nona.” E o bicho atendia de outro. “Agora pro papai.” E o bichim enchia o peito, s’exibia-se e cantava de perfil, qual tenor italiano. Bom, bonito. Mas deu-se num sábado, feriado da proclamação. O tio tava zelando, limpando o viveiro e, no descuido, deixou a porta aberta. E Bituca, o assum preto, partiu sem olhar. Do jeito que tava tudo, meu tí deixou. Largou o mundo e correu chorando pro quarto. Ali ficou toda a noite; sem saída. Madá teve de dar calmante do forte; do contrário, ninguém dormia. Mesmo assim, tí Tunico só calou quando raiava; momento em que nós, os outros, também.
Amanheceu dia de domingo e a casa inteira acordou em sonho. Pela alegria do canto e a força do fôlgo, era Bituca quem voltava, solfejando a melodia do papai. O tio correu. Dentro do viveiro, a porta ainda aberta, Bituca meso cantava sorrindo. E foi reencontro de sorriso e cheiro, carinho e cuidado. Os dois juntos: um inocente e um passarim. Daí por, tio Tunico percebeu que o bicho queria ser livre e não tornou a fechar; mas o passarim.
Toda tarde saía pra passear pelo mundo; dia seguinte, no entanto, entrava outra vez, por vontade, pela portinhola aberta e cantava que cantava pro meu tio especial.
Quem ama, volta.🌻
Amanheceu dia de domingo e a casa inteira acordou em sonho. Pela alegria do canto e a força do fôlgo, era Bituca quem voltava, solfejando a melodia do papai. O tio correu. Dentro do viveiro, a porta ainda aberta, Bituca meso cantava sorrindo. E foi reencontro de sorriso e cheiro, carinho e cuidado. Os dois juntos: um inocente e um passarim. Daí por, tio Tunico percebeu que o bicho queria ser livre e não tornou a fechar; mas o passarim.
Toda tarde saía pra passear pelo mundo; dia seguinte, no entanto, entrava outra vez, por vontade, pela portinhola aberta e cantava que cantava pro meu tio especial.
Quem ama, volta.🌻
O DIA MAIS FRIO DO ANO
VANDRÉ: Às vezes ainda tenho vontade de ligar pra me desculpar ou ofender, mas é inútil. Fiz de tudo que estava ao meu alcance, empenhei meu mundo e mais: apresentei-te minhas amigas do sagrado feminino, levei-te às reuniões do coletivo, ao meu restaurante vegano favorito, aos protestos por Lula livre, por um país melhor e até frequentei sozinho todas as reuniões para desconstrução da masculinidade tóxica - fiz de tudo pra evitar o mansplaining e o manterrupt; ainda assim, ó Manuela, tu me deixaste no dia mais frio do ano, por um... um... um bolsominion, argh; o qual, por pura maldade, ainda comeu todo meu pudim de leite condensado de soja que estava na geladeira. Não tens ideia do quanto me dói ver tuas fotos no rodeio de Barretos, fazendo arminha com as mãos, ao lado dele.
MANUELA: Nada pessoal, Vandré, é que você me dava nos nervos, querido! Até pra lavar louça tinha discurso, embasamento teórico e citação filosófica, um saco! E tudo era uma questão política e tals: o patriarcado. E quando, por acaso, eu inventava de ler um poema, tu citava uma porra de uma escritora negra, ou indígena desconhecida. Já passou pela sua cabeça que a poeta pode ser mulher, negra, anã, lésbica e perneta e, ainda assim, escrever mal? Tudo tinha de ser por uma minoria, molecular, marginalizada. Todo esse papo furado mudou o quê? E tem mais, gosto é de homem com pegada na cama, não tenho paciência pra minúcias. Teu sagrado masculino era lento feito o Suplicy. Enquanto a gente acampava nas maiores roubadas, ele me hospeda nos melhores hotéis; enquanto tu me davas miçangas, ele me presenteia com diamantes. Algumas mulheres querem é segurança e, quanto ao seu pudim vegano, você tem ideia de quantas aves e javaporcos são mortos para preservar um único campo de soja?
MANUELA: Nada pessoal, Vandré, é que você me dava nos nervos, querido! Até pra lavar louça tinha discurso, embasamento teórico e citação filosófica, um saco! E tudo era uma questão política e tals: o patriarcado. E quando, por acaso, eu inventava de ler um poema, tu citava uma porra de uma escritora negra, ou indígena desconhecida. Já passou pela sua cabeça que a poeta pode ser mulher, negra, anã, lésbica e perneta e, ainda assim, escrever mal? Tudo tinha de ser por uma minoria, molecular, marginalizada. Todo esse papo furado mudou o quê? E tem mais, gosto é de homem com pegada na cama, não tenho paciência pra minúcias. Teu sagrado masculino era lento feito o Suplicy. Enquanto a gente acampava nas maiores roubadas, ele me hospeda nos melhores hotéis; enquanto tu me davas miçangas, ele me presenteia com diamantes. Algumas mulheres querem é segurança e, quanto ao seu pudim vegano, você tem ideia de quantas aves e javaporcos são mortos para preservar um único campo de soja?
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
O DESAPEGO
Eu ouvi:
Romi era senhora de uma beleza exuberante; mas, mais que a beleza, era sua magnética pureza, seu trato reto, a honestidade de seu sexo, que faziam com que todos no reino orbitassem seu coração. Simplesmente era bom estar perto dela. Tanta boniteza, no entanto, não lhe trazia felicidade. Homens e mulheres sofriam por Romi e ela se enternecia. Não era confortável à sua alma humilde causar tanta dor. De fato, não é que as pessoas quisessem se apossar do destino da moça; muito pelo contrário, o problema era que, quem conhecia Romi, não conseguia imaginar para si um futuro no qual ela não estivesse. Mais de um tentou suicídio. E Romi sofria do sofrimento que causava; ela, no entanto, era o que era, apenas, sem trama ou cálculo. O que ninguém sabia era que Romi estava doente; seu coração, aos poucos, rachava-se como terra esturricada. Por já não suportar mais sofrer e causar, a moça decidiu se trancar na Torre do Espírito e lá permanecer por exatos dez anos; até que se esquecessem de sua existência. Só então voltaria. Mais velha. Mais seca. Muito menos atraente.
Primeiros dias, uma multidão montou acampamento ao pé. Estavam dispostos a esperar ali pelos dez anos seguintes. Findado o primeiro mês, contudo, a maioria tinha desistido. Depois de um ano, havia meia dúzia de pretendentes. E, no início do terceiro ano, restava apenas Guaccaluz, o poeta maltrapilho.
Durante nove anos, trezentos e sessenta e quatro dias, Guaccaluz esperou. Alimentando-se de mel, gafanhotos e do que o povo dava, sofrendo as agruras do clima: passou frio, passou calor, passou fome e não desistiu. Na noite que antecedia a liberdade de Romi, contudo, Guaccaluz se levantou - decidido, descalço, sem olhar para trás - e caminhou para. Quando abriu a porta da Torre na manhã seguinte, Romi não encontrou pessoa, só uma rosa vermelha que o poeta deixara na soleira antes de.🌻
Romi era senhora de uma beleza exuberante; mas, mais que a beleza, era sua magnética pureza, seu trato reto, a honestidade de seu sexo, que faziam com que todos no reino orbitassem seu coração. Simplesmente era bom estar perto dela. Tanta boniteza, no entanto, não lhe trazia felicidade. Homens e mulheres sofriam por Romi e ela se enternecia. Não era confortável à sua alma humilde causar tanta dor. De fato, não é que as pessoas quisessem se apossar do destino da moça; muito pelo contrário, o problema era que, quem conhecia Romi, não conseguia imaginar para si um futuro no qual ela não estivesse. Mais de um tentou suicídio. E Romi sofria do sofrimento que causava; ela, no entanto, era o que era, apenas, sem trama ou cálculo. O que ninguém sabia era que Romi estava doente; seu coração, aos poucos, rachava-se como terra esturricada. Por já não suportar mais sofrer e causar, a moça decidiu se trancar na Torre do Espírito e lá permanecer por exatos dez anos; até que se esquecessem de sua existência. Só então voltaria. Mais velha. Mais seca. Muito menos atraente.
Primeiros dias, uma multidão montou acampamento ao pé. Estavam dispostos a esperar ali pelos dez anos seguintes. Findado o primeiro mês, contudo, a maioria tinha desistido. Depois de um ano, havia meia dúzia de pretendentes. E, no início do terceiro ano, restava apenas Guaccaluz, o poeta maltrapilho.
Durante nove anos, trezentos e sessenta e quatro dias, Guaccaluz esperou. Alimentando-se de mel, gafanhotos e do que o povo dava, sofrendo as agruras do clima: passou frio, passou calor, passou fome e não desistiu. Na noite que antecedia a liberdade de Romi, contudo, Guaccaluz se levantou - decidido, descalço, sem olhar para trás - e caminhou para. Quando abriu a porta da Torre na manhã seguinte, Romi não encontrou pessoa, só uma rosa vermelha que o poeta deixara na soleira antes de.🌻
O OLHO INTERIOR
Há dentro de mim um olho que, quando chuto uma pedra, fixa-se no dedão; que, quando me sinto triste, volta-se para o coração e que, quando resolvo uma equação do segundo grau, engaja-se no raciocínio lógico. O grande poder desse olho, no entanto, consiste em repousar sobre e ver-se a si mesmo. Neste instante, todas às máscaras tomam a forma do rosto e o sol se põe a pino. É meio dia no meu interior. Todos os meus gestos se tornaram devoção.
ESTILO
Não sei muito bem o que é estilo. Qual é o estilo da água? Ela que, maleável, ganha a forma daquilo que diz. Talvez o estilo seja um modo de ser; um gosto: olho a roseira e o girassol; eles dizem todo o tempo sobre boniteza. Mas como eu, sendo tantos, posso ter um estilo se aquilo que escreve em mim é sempre o outro; aquele que - maior - me ultrapassa? Há em mim um mineirinho, menino ainda; que, em sua simplicidade, aconselha meu olho primevo. Há uma prostituta portuguesa que ama o amor. Há uma adolescente que espera o príncipe e chora assistindo a sessão da tarde. Há um peão de obra; um médico; um louco; um bêbado; um monge. Cada um diz a seu modo, mas todos tentam dizer o indizível: a vida, Deus, o amor, a justiça, a verdade, o encontro. Na escola onde trabalho, estudam muitas crianças especiais. Boa parte não fala; sorri apenas. Mas há o Ozi, que é down. Ele fala uma língua só sua, como se fosse uma língua do “p”: ninguém entende. Ele se esforça, aponta com os dedos, faz gestos, todo um teatro. Em seu lugar, outros teriam desistido. Ozi, contudo, teima, insiste em dizer: pepepêpêpê. E vocês precisam ver o modo como ele sorri e balança a cabeça quando entendemos o que quer dizer. É gordinho, fofo, levanta os braços curtos e nos abraça quente– sempre sorrindo. Aos poucos, descobri que gosta do Chaves e de pastel de feira. E, outro dia, estava triste: pepepepêpêpê! Chorando, pepê. Era saudade. Pai e mãe tinham se separado e o pai nunca mais tinha ido vê-lo. Coisa de cortar o coração. Conseguimos falar com o pai por telefone e, na segunda-feira seguinte, o Ozi chegou todo alegre, tinha comido pastel no domingo e com o pai. Especial, Ozi? Pê! (joia com a mão) Tinha de tudo dentro? Pepê! É essa língua do “p” que quero alcançar; e esse pastel, e esse domingo; e esse pai e seu filho muito especial. Estilo? Não tenho a menor ideia do que seja.
Importa?🌻
Importa?🌻
REGISTRO CIVIL DE PESSOAS NATURAIS
Há mais mistérios entre o céu e a terra. Eu era estudante em Assis quando conheci André. Era um cara legal, mas tinha um defeito imperdoável: não suportava música. A cura psíquica acontece por meio da luz da consciência; não digo razão, consciência. Pois bem, André era um cara atlético, culto, curioso, sensível; jovem, enfim. Certa feita, fomos a um daqueles bailes de quinta que aconteciam na Unesp: eu e ele, ele e eu. Um baile para um cara que desteta música é provação, mas eu era insistente. De modo que, lá pelas tantas, manhãzinha já, começou a tocar Andança, com a Beth Carvalho, pra mandar o povo embora mesmo. Olhei meu amigo, nem sei o porquê, e ele se dissolvia em lágrimas. Soluçava. Via-se que estava abalado. Passou. Houve outros encontros, filmes, livros, garotas, estudos. Nos anos subsequentes, contudo, André e eu nos afastamos. Ele deixou de jogar futsal com a gente. Trancava-se no quarto, taciturno, e, se estudava, era muito pouco. A tal noite negra da Alma de que fala San Juan de la Cruz fazia visita. Quando percebeu que estava afundando – de modo definido e irrevogável - meu amigo resolveu pedir ajuda. Foi só e por conta ao Núcleo de Psicologia buscar tratamento. Eu sabia que o pai dele tinha morrido enquanto a mãe estava grávida. De modo que meu amigo nunca conheceu o pai e acho que isso pesava. Ele estava em tratamento havia mais de um ano, quando apareceu na quadra da Universidade pra jogar com a gente outra vez. Estava mais calmo; de boas; mais feliz mesmo.
- Que aconteceu, bro? – perguntei, findado o jogo.
- Eu descobri, mano, e, quando você descobre, consegue meios de lidar com a coisa. Você sabe, nunca conheci meu pai e sempre odiei música. Até outro dia, não sabia que meu pai era músico, vai vendo. Só depois do tratamento foi que confrontei minha mãe e descobri que meu pai era músico e adorava tocar aquela música que tocou na festa aquele dia, Andança. A mãe disse inclusive que, no momento em que fui concebido, tocava aquela canção, ela se lembra. Pai adorava o Paulinho Tapajós e tocava a canção pra ela todo santo dia, no começo da gravidez. Depois que ele morreu, ela ainda ouvia a música no disco e chorava. Era luto. Aí, quando nasci, tomou decisão. Queria luz. Quebrou o disco e nunca mais ouviu aquela canção ou outra qualquer. Em casa, a gente não ouvia música. Nunca tivemos um rádio sequer.
- Mas o Buda não ficou no castelo e um dia teve de sair.
- E encontrou seu destino.
- E encontrou seu destino.
Enquanto caminhávamos para casa no meio do pasto – camisa no ombro, tênis nas mãos – ele tirou uma gaita do bolso e começou a tocar e, olha, tocava como ninguém. 11:11. André, meu amigo. É🌻
- Que aconteceu, bro? – perguntei, findado o jogo.
- Eu descobri, mano, e, quando você descobre, consegue meios de lidar com a coisa. Você sabe, nunca conheci meu pai e sempre odiei música. Até outro dia, não sabia que meu pai era músico, vai vendo. Só depois do tratamento foi que confrontei minha mãe e descobri que meu pai era músico e adorava tocar aquela música que tocou na festa aquele dia, Andança. A mãe disse inclusive que, no momento em que fui concebido, tocava aquela canção, ela se lembra. Pai adorava o Paulinho Tapajós e tocava a canção pra ela todo santo dia, no começo da gravidez. Depois que ele morreu, ela ainda ouvia a música no disco e chorava. Era luto. Aí, quando nasci, tomou decisão. Queria luz. Quebrou o disco e nunca mais ouviu aquela canção ou outra qualquer. Em casa, a gente não ouvia música. Nunca tivemos um rádio sequer.
- Mas o Buda não ficou no castelo e um dia teve de sair.
- E encontrou seu destino.
- E encontrou seu destino.
Enquanto caminhávamos para casa no meio do pasto – camisa no ombro, tênis nas mãos – ele tirou uma gaita do bolso e começou a tocar e, olha, tocava como ninguém. 11:11. André, meu amigo. É🌻
FESTEJO
Tudo o que sou se abre em festa para celebrar a chegada do outro como ele é. Morando em mim, já não quero me colocar como parâmetro; tampouco penso em mudar aquele que vem. A correção não cabe a mim, mas a essa senhora severa chamada Vida. Mal consigo plantar flores no meu próprio caminho, por que me preocupar em aparar a grama do vizinho? E, se o outro me parece sovina, sinto prazer em pagar a conta. Que diferença fazem vinte reais na totalidade da vida? Se o outro é agressivo, assumo minha parcela de responsabilidade, varro só meu lado da rua e o milagre acontece: o outro, por conta própria, começa a varrer o lado dele. Se o outro é inculto, estúpido, raivoso, culto e vaidoso, metido 'a besta, não discuto. Há uma força muito maior que eu capaz de corrigí-lo ou quebra-lo; assim como eu mesmo me quebrei e troquei minha pele pelo couro do cão atropelado no acostamento. A vida é assim, pode demorar anos; mas, ou você assimila que só pode cuidar de si mesmo, que é só um servidor da Vida, ou você naufraga. Isso quer dizer que você tem de se anular? Óbvio que não, quer dizer que você pode dizer o que pensa sem agredir e que é possível não aceitar provocação. Fica fácil quando você cultiva em si o amor sem objeto. Amor que escorre no leito dos rios banhado de perdão. Há mestres por toda parte, vestidos de bicho, nuvem, planta, rio ou gente. O homem, que nesta terra miserável mora entre feras, sente inevitável necessidade de ser beija-flor.
A FILOSOFIA E A VIDA
Não me lembro quem foi que disse que encarava a Filosofia como um ramo da Literatura Fantástica. Sou desses também. Não creio em sistemas, porque a vida não cabe em gavetas e percebo, nos filósofos que li, que cada um enxerga uma franja do real; mas nenhum ser ou sistema é capaz de dar conta da totalidade da vida: talvez os grandes instrutores como Jesus, ou Sidarta. Enfim, os filósofos erram, mesmo aqueles que já não criam em sistemas. A Filosofia francesa da segunda metade do século XX, por exemplo, fortemente influenciada por Nietzsche, já não acreditava em sistemas: Deus estava morto enquanto conceito e, junto com ele, o fundamento e a busca pela verdade. A verdade seria, a partir de Nietzsche, uma construção temporal e haveria forças sociais operando sobre aquilo que chamamos de. Não haveria uma verdade transcendental, a qual alcançaríamos por meio de um método eficiente. É isso que chamam de implosão da metafísica. É legal! É bonito! Contudo.
Deleuze, por exemplo, um dos grandes, propõe no lugar do fundamento, da identidade e da busca pela verdade, a potência do falso. Olha o perigo! Para Deleuze, a Arte seria o espaço que, despreocupado com a ânsia, instauraria a verdade ao nascer: pura imanência. Na prática, o que a gente viu no século XXI não foi a ascensão da Arte, mas das igrejas neo-pentecostais. E, se já não havia uma verdade transcendental, e muito menos o olhar crítico ao Acontecimento, o que passou a dar o tom não foi a Literatura ou o Cinema; mas as fake news. Se tudo é discurso, então tanto é válido dizer que eu sou um ser humano como dizer que a Terra é plana, ou, retrocesso dos, que vacina faz mal. No fim das contas, o real sempre escapa ao pensamento, o que mesmo em Filosofia ainda é raro. Mesmo os filósofos não pensam porque lhes falta a humildade necessária para ser apenas passagem para os pensamentos em busca de pensador. A verdade, o pensamento vêm de outro lugar. E é com os cães que se aprende sobre amor de doação e lealdade; qualidades sem as quais o raciocínio se torna nulo ou nefasto. Mesmo a cabeça tem de passar pelo coração. Bom dia🌻
Deleuze, por exemplo, um dos grandes, propõe no lugar do fundamento, da identidade e da busca pela verdade, a potência do falso. Olha o perigo! Para Deleuze, a Arte seria o espaço que, despreocupado com a ânsia, instauraria a verdade ao nascer: pura imanência. Na prática, o que a gente viu no século XXI não foi a ascensão da Arte, mas das igrejas neo-pentecostais. E, se já não havia uma verdade transcendental, e muito menos o olhar crítico ao Acontecimento, o que passou a dar o tom não foi a Literatura ou o Cinema; mas as fake news. Se tudo é discurso, então tanto é válido dizer que eu sou um ser humano como dizer que a Terra é plana, ou, retrocesso dos, que vacina faz mal. No fim das contas, o real sempre escapa ao pensamento, o que mesmo em Filosofia ainda é raro. Mesmo os filósofos não pensam porque lhes falta a humildade necessária para ser apenas passagem para os pensamentos em busca de pensador. A verdade, o pensamento vêm de outro lugar. E é com os cães que se aprende sobre amor de doação e lealdade; qualidades sem as quais o raciocínio se torna nulo ou nefasto. Mesmo a cabeça tem de passar pelo coração. Bom dia🌻
EDUCAÇÃO
A justiça é como mãe que tem filho predileto. Naqueles campos de várzea, ao menos uma vez por mês, aparecia um defunto. A ROTA agia. Extremo leste, barro, mato alto, violência: notícias no Afanásio Jazadji sobre a captura do Chico Pé de Pato. Os meninos, brincávamos como podíamos. Quando começaram a asfaltar as ladeiras, fazíamos campeonatos de carrinho de rolimã. Isso foi depois. Antes, havia o morro e, lá embaixo, os campos. Depois da aula, meu irmão mais velho e eu íamos até lá pra jogar bola. Pai e mãe trabalhavam o dia todo. De modo que ficávamos os dois. Um dia, surgiram tratores, escavadeiras, caminhões. Os campos seriam substituídos por conjunto habitacional. Nós pulávamos o muro do terreno do seu Dito e ficávamos lá de cima, olhando os trabalhos. Mas chegou janeiro e, com o mês, as chuvas. A obra teve de ser interrompida. Os buracos que serviriam de alicerces aos prédios, tornaram-se piscinas naturais. A molecada inventou brincadeira. Descíamos o morro escorregando na lama e... ti-bummm, na água barrenta lá embaixo. Pra não apanhar das mães, muitos meninos nadavam pelados pra não sujar a roupa. Éramos barulhentos, maritacas nos pés de coquinho. Meu irmão e eu nadávamos de short que depois lavávamos em casa. Um dia, enquanto a molecada brincava, surgiram três malandros mais velhos. Ficaram fumando maconha enquanto brincávamos; olhos de rapina. Um deles me chamou. Na mesma hora, meu irmão apareceu com um tijolo na mão, ameaçando. O malandro riu, os outros dois se juntaram. Meu irmão jogou a pedra e corremos; subindo o morro com a habilidade de quem nascera ali. Mas havia outro menino, mais novo que eu, o Piolho, que estava nadando só, pelado. Não deu outra. Pegaram o negrinho e arrastaram pra trás dos montes de terra. Ali, estupraram-no. Ouvimos os gritos, jogamos pedra e corremos. Passamos o resto da tarde escondidos, com medo. Quando voltamos pra casa, a mãe já nos esperava. Cipó do pé de manga na mão. “Passem aqui. Se correr vai ser pior.” Passamos. Meu irmão levou uma cipoada e se trancou no banheiro. Eu fiquei e absorvi. A notícia tinha corrido o bairro. Piolho estava no hospital. Levara mais de vinte pontos no cu. Havia algo de sombrio naquele solo. Depois que a COHAB foi construída, um menino de catorze anos matou a família inteira ali. Depois, na Febem, cometeu suicídio.
segunda-feira, 21 de outubro de 2019
MEU DOCE SENHOR
Meu Deus é dócil
E com sotaque baiano
Me diz naquelas madrugadas de desespero:
- Se achegue, meu nego, deite sua cabeça boba em meu colim, deite.
E com sotaque baiano
Me diz naquelas madrugadas de desespero:
- Se achegue, meu nego, deite sua cabeça boba em meu colim, deite.
CAMA DE TATAME PELA VIDA AFORA
Saudade dos anos sessenta, mesmo sem ter vivido os anos sessenta. Saudade dos Beatles, dos Beach Boys, da nouvelle vague. Saudades da Paris dos anos vinte, de Zelda, Hemingway e Scott Fitzgerald. Saudades de Kerouac, Ginsberg e Neil Cassady. Saudades dos nossos bailes no Clube da Esquina, sem nunca ter morado em Beagá. Mesmo na minha vida, sempre fui o menino de rua que observava o restaurante do lado de fora do vidro, no frio. Saudades de Assis..., do Rogério, da moradia, da República Bom Jesus e do Deus de minha infância. Saudades da Bianca, de tantos bares, do Pelé, do dia em que conheci Márcia Benedita Barbieri e do jovem que eu era: Ceará e eu atravessando o pasto e as estrelas despencando do céu. Saudades das escolas onde estudei e lecionei; dos amigos que a vida levou pra longe e dos amigos que a morte levou pra nunca mais. Saudades dolorosas do Bom Retiro; da Fernanda, será que ela hoje é feliz? Saudades dos meus irmãos Marcos e Léo. Saudade que dói o dia todinho e traz inverno em pleno outubro. Saudade das excursões para o Playcenter no ensino fundamental. Saudade de certas canções que não são deste mundo. No centro de mim mora um buraco; uma dor gostosa e sem nome que me visita de madrugada; quando é cedo pra levantar, mas tarde demais pra voltar a dormir. Saudade do tempo em que eu ainda não tinha estragado tudo. Saudade do novo que já traz em si a semente dessa saudade; Lábios-labirintos: Ana. Saudade da primeira vez que assisti The Wall, o filme, aos treze anos; da época em que ninguém era viciado em crack. Findada a festa, copos virados, guimbas de cigarro, garrafas vazias; e eu queria continuar bebendo pra não ter de passar por isso. Saudade da minha fé na vida; daquela vontade avassaladora de ser escritor. Saudade do útero, do seio materno; do meu pai consertando o chuveiro; do dia em que meus filhos nasceram. Sinto – diariamente - a saudade que o moribundo sente na quina da morte; e, então, tomo calmantes pra funcionar. Saudade de nascer ao avesso e de ofertar àqueles que estão chegando essa minha alma cheia de bagagens, culpas, arrependimentos, alegrias selvagens, piadas, sorrisos, festas, letras de canção.
Saudade de partir.
Do que ainda não é.
Do mar.
Nesta manhã, amo, porque sou, a humanidade.
E daí?
Saudade de partir.
Do que ainda não é.
Do mar.
Nesta manhã, amo, porque sou, a humanidade.
E daí?
sábado, 19 de outubro de 2019
PESADELO
Desde que Benedita o deixara, Gordão vinha atravessando uma longa noite. Uma hora, no entanto, o corpo pede descanso. E foi aí que. Mas não ainda. Aquilo que se move ao passado dentro da gente se chama alma. Vinte anos atrás, quando pesava trinta quilos a menos, consultara a sorte com uma cigana, numa cidade do interior, a qual, ao jogar o baralho, dissera-lhe:
- Perceba que a melhor parte do amor é a fatia mais fina. Alguns dias entre o primeiro e o segundo mês num relacionamento de quase vinte anos. Tudo passa. Até o fim de sua vida, contudo, não haverá um só minuto em que alguma mulher não estará apaixonada por você.
Como forma de agradecimento, comeu a cigana. E, agora, Benedita. Um corpo mais velho e cansado. Deitado na cama - boca amarga de álcool e alcaloide - resolveu olhar as fotos no Facebook. Tinham feito tanta coisa juntos e agora tudo aquilo parecia ter acontecido numa outra vida. Havia amigos e ele não queria que os amigos. Adormeceu e, mesmo antes de fechar os olhos, sonhou que tinha sido enterrado vivo; sem caixão. A boca cheia. Com as unhas, tentava cavar a terra que não. Despertou assustado.
Banheiro.
Azulejos brancos.
Espelho.
Urinou. E,
ao escarrar na privada,
notou que a saliva estava cheia de terra.🌻
- Perceba que a melhor parte do amor é a fatia mais fina. Alguns dias entre o primeiro e o segundo mês num relacionamento de quase vinte anos. Tudo passa. Até o fim de sua vida, contudo, não haverá um só minuto em que alguma mulher não estará apaixonada por você.
Como forma de agradecimento, comeu a cigana. E, agora, Benedita. Um corpo mais velho e cansado. Deitado na cama - boca amarga de álcool e alcaloide - resolveu olhar as fotos no Facebook. Tinham feito tanta coisa juntos e agora tudo aquilo parecia ter acontecido numa outra vida. Havia amigos e ele não queria que os amigos. Adormeceu e, mesmo antes de fechar os olhos, sonhou que tinha sido enterrado vivo; sem caixão. A boca cheia. Com as unhas, tentava cavar a terra que não. Despertou assustado.
Banheiro.
Azulejos brancos.
Espelho.
Urinou. E,
ao escarrar na privada,
notou que a saliva estava cheia de terra.🌻
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
RETRATO DE UM TEMPO PERIGOSO - NOTA SOBRE CORINGA
Coringa é um bom filme; mas mais que uma obra de arte é um trabalho que capta o zeitgeist, o espírito de um tempo. A direita, burra como sempre, não entendeu o filme. A esquerda, burra como sempre, também não. Sobre seu A banalidade do mal, Hannah Arendt escreveu que a falha do livro é que o mal é sempre radical, nunca banal. A burrice também é sempre radical. Os conservadores viram o filme como um manifesto de esquerda e a esquerda também. Ambos se esqueceram de olhar para o protagonista. O mal é sempre radical. O Coringa é alguém para quem pouco importa a justiça social. É o “tanto-faz”. Ele pode cometer suicídio ou assassinato. E aquilo com que goza nas revoltas de Gotham é com a destruição e não com a possibilidade de um mundo mais humano. Ele não acredita nisso. Tanto que, no final, aparece espalhando pegadas de um sangue inocente. O filme estaria mais perto daqueles dois adolescentes que entraram atirando numa escola em Suzano do que de uma revolução qualquer. Claro, a película mostra como uma sociedade injusta cria violência e monstros. Acontece que ninguém pode controlar esse tipo de energia. Não há utopia no horizonte, só a ânsia de destruição. Esse mesmo tipo de revolta pode criar um Hitler, um Napoleão; com muito menos, no Brasil, fez-se um Bolsonaro. A Gotham City do filme é um pouco o mundo, o Brasil mesmo, hoje, mas também é um pouco da República de Weimar: o ovo da serpente. O livro de cabeceira de Stalin era o Viagem ao fim da noite, de Céline, que, ao ser publicado, foi saudado pela esquerda como um livro revolucionário, uma vez que era uma denúncia contundente do absurdo da sociedade burguesa. Anos mais tarde, Céline exigia o enforcamento de judeus num tribunal. De certo modo, creio que vivemos numa época limítrofe em que o velho está morrendo e o novo ainda não nasceu. O que pode nascer daí, não se sabe. Há as lutas ecológicas, a representatividade cada vez maior das minorias; mas há também o aumento da truculência, das mortes pueris.Temos de trabalhar muito para o Bem. Pode ser que nasça alguém (uma sociedade) como o protagonista de Kundun, ou o próprio bebê de Rosemary. O erro de toda intelligentsia é se achar capaz de utilizar para seus fins supostamente humanitários essa energia louca. A fé na razão tanto de esquerda quanto de direita é ingênua.
Ah, Joaquin Phoenix escreveu de vez seu nome entre os maiores. Embora eu ainda ache que seu melhor trabalho está em Amantes.
Ah, Joaquin Phoenix escreveu de vez seu nome entre os maiores. Embora eu ainda ache que seu melhor trabalho está em Amantes.
QUANDO O AMOR FLORESCE NA LAMA FEITO LÓTUS
- Essa é uma canção deliciosa pra fazer amor e dormir agarradinho, pelado, depois, né não?
- Pode crer, Profe.
Cada um de nós lavava um panelão. Passávamos o dia na laborterapia. Era melhor que ficar lá fora, trancado no refeitório, com mais de cem cabras perturbados. Na cozinha, não parávamos nem por um minuto, mas tínhamos direito a ouvir o rádio e, no final da tarde, tomávamos um cafezinho, sentados na grama, nos fundos da clínica, olhando a serra do mar. Todos carregávamos culpas e agonias impensáveis; em silêncio, duros e doloridos. De vez em quando, contudo, tocava uma canção e a gente virava menino outra vez, cantando junto: sharing the night together, uôô! A magia nos levava pra um lugar longe de nós mesmos: alívio.
- Será que ela vem na visita, Profe?
- Vai saber. Tomara que venha, uai. Não sei nem se vem alguém na minha.
O menino que conversava comigo era o Flavinho. Vinte e dois.
- Sabe, Profe. Na noite em que eu a conheci, nem acreditei, porque não dá pra crer que alguém tão bonita pode carregar tanto sofrimento. Eu tava doidão, pra variar, né? E, nem sei como, fui parar na zona. Como é que uma menina daquelas? Era uma história pra lá de triste: estupros, abusos, violência, aquelas coisas todas, sabe? Então, eu tinha feito fita boa e nem sabia o que fazer com o dinheiro. Nunca soube. Enfim, assim que vi a moça, paguei o pernoite. Falei: você vai ser minha essa noite inteira. Depois vai ser depois. E ela ficou como, Profe? Sorrindo, uiuiui. E eu nem sei outro nome pra isso, é encontro mesmo, né? E ficamos, ali, os dois. Dia seguinte, chamei ela pra ir pra praia e ela topou. E ficamos uma semana na praia, de boas, sem fazer nada, só se amando... fumando um, andando na orla de noite. “Vou fazer um filho em você!” – Falei e sabe o que ela respondeu? “Eu quero”. Mas depois que voltei, tive uns problemas com a lei; descaralhei de vez da cabeça e acabei aqui. Que acha? Será que ela vem, Profe?
- Se disse isso aí tudo vem. Mulher é bem diferente da gente. Nos momentos difíceis é que elas se apegam mais. O contrário não rola. Sabia que setenta por cento das mulheres são abandonadas quando descobrem um câncer ou algo assim?
- Sabia não.
Voltamos às panelas. Eu não sabia se ainda teria uma família ao sair. Nos primeiros noventa dias, ficávamos incomunicáveis. Quanto ao Flavinho, recebeu seu amor em todas as visitas. Ela não faltou uma vez sequer. E sempre levava doces, frutas, trufas, ou.
Da última vez que soube dos dois, o Flavinho tinha comprado um barco – era garoto ligeiro - e trabalhava com pesca no Arraial do Cabo; mandou foto de umas praias lindas. Tinham agora uma menininha de dois anos e o pai dela continuava limpo. Toda vez que me lembro deles, meu coração transborda de ternura e, quase sempre chorando, murmuro um oração por eles, e por mim, e por todos os desajustados desse mundo.
Que o amor floresça sobre a lama feito o lótus: sempre.
🌻
- Pode crer, Profe.
Cada um de nós lavava um panelão. Passávamos o dia na laborterapia. Era melhor que ficar lá fora, trancado no refeitório, com mais de cem cabras perturbados. Na cozinha, não parávamos nem por um minuto, mas tínhamos direito a ouvir o rádio e, no final da tarde, tomávamos um cafezinho, sentados na grama, nos fundos da clínica, olhando a serra do mar. Todos carregávamos culpas e agonias impensáveis; em silêncio, duros e doloridos. De vez em quando, contudo, tocava uma canção e a gente virava menino outra vez, cantando junto: sharing the night together, uôô! A magia nos levava pra um lugar longe de nós mesmos: alívio.
- Será que ela vem na visita, Profe?
- Vai saber. Tomara que venha, uai. Não sei nem se vem alguém na minha.
O menino que conversava comigo era o Flavinho. Vinte e dois.
- Sabe, Profe. Na noite em que eu a conheci, nem acreditei, porque não dá pra crer que alguém tão bonita pode carregar tanto sofrimento. Eu tava doidão, pra variar, né? E, nem sei como, fui parar na zona. Como é que uma menina daquelas? Era uma história pra lá de triste: estupros, abusos, violência, aquelas coisas todas, sabe? Então, eu tinha feito fita boa e nem sabia o que fazer com o dinheiro. Nunca soube. Enfim, assim que vi a moça, paguei o pernoite. Falei: você vai ser minha essa noite inteira. Depois vai ser depois. E ela ficou como, Profe? Sorrindo, uiuiui. E eu nem sei outro nome pra isso, é encontro mesmo, né? E ficamos, ali, os dois. Dia seguinte, chamei ela pra ir pra praia e ela topou. E ficamos uma semana na praia, de boas, sem fazer nada, só se amando... fumando um, andando na orla de noite. “Vou fazer um filho em você!” – Falei e sabe o que ela respondeu? “Eu quero”. Mas depois que voltei, tive uns problemas com a lei; descaralhei de vez da cabeça e acabei aqui. Que acha? Será que ela vem, Profe?
- Se disse isso aí tudo vem. Mulher é bem diferente da gente. Nos momentos difíceis é que elas se apegam mais. O contrário não rola. Sabia que setenta por cento das mulheres são abandonadas quando descobrem um câncer ou algo assim?
- Sabia não.
Voltamos às panelas. Eu não sabia se ainda teria uma família ao sair. Nos primeiros noventa dias, ficávamos incomunicáveis. Quanto ao Flavinho, recebeu seu amor em todas as visitas. Ela não faltou uma vez sequer. E sempre levava doces, frutas, trufas, ou.
Da última vez que soube dos dois, o Flavinho tinha comprado um barco – era garoto ligeiro - e trabalhava com pesca no Arraial do Cabo; mandou foto de umas praias lindas. Tinham agora uma menininha de dois anos e o pai dela continuava limpo. Toda vez que me lembro deles, meu coração transborda de ternura e, quase sempre chorando, murmuro um oração por eles, e por mim, e por todos os desajustados desse mundo.
Que o amor floresça sobre a lama feito o lótus: sempre.
🌻
A ESCRITA, A DOENÇA E A GRANDE SAÚDE
E me lembro daquela entrevista da Clarice Lispector na qual ela parece um bichinho acuado; sentindo-se, em meio aos entrevistadores, como a farpa que o pus e a infecção querem expulsar do dedo. E ela diz: “Quando não estou escrevendo, estou morta!” Em Tigresa, Caetano Veloso canta um de seus versos mais simples e sinceros: “como é bom poder tocar um instrumento”. A possibilidade de escrever, de tocar, de criar, é uma pausa na doença; enquanto a gente escreve, afasta o precipício. Quando nada se forma em nosso útero, é a doença que grassa tal qual mioma, ferida, tumor, ausência de buraco; ou melhor, buraco sem borda. Hemingway deu um tiro com uma espingarda de matar elefante na própria boca porque perdeu essa possibilidade de criar, de honrar a Deus imitando seu gesto, e, ao mesmo tempo, colocar ordem em seu coração escangalhado. Um dia no qual não escrevo é como um dia sem medicação. Tudo fica estranho, sem conexão com a alma; é como se surgisse um fosso entre mim e o lá-fora, tal e qual aqueles fossos que cercavam os castelos na Idade Média. As coisas esvaziam-se de seu mistério e a pedra torna-se só pedra; o pássaro: um bípede com penas e até o amianto, um nome sem porquê. Então, a mão que escreve é verde-violeta e conecta-se ao coração sem passar pela cabeça; enquanto a mão que revisa é racional e teima em segurar a outra para que ela não escreva. Uma é a mão social; a outra, a mão selvagem. Há dias nos quais elas não se entendem e. Outro dia, li um poema da Adélia Prado que termina assim: “A uns Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo”. Enquanto houver a palavra, sei que estou a salvo. Ela, a palavra, não é a corda com a qual me enforco, mas a reta tensionada sobre a qual me equilibro acima do abismo. É impossível um romancista se matar sem terminar o romance que está escrevendo. Mas e se um dia eu sentir que já nomeei o que tinha de ser por mim nomeado e, como van Gogh, achar que nada mais tenho a pintar-escrever? E, se a cartola do mago, de um instante para o outro, ficar vazia?
Ainda assim, aposto no amor.
Hei de sobreviver ao meu sonho.
Sou fé.
Ainda assim, aposto no amor.
Hei de sobreviver ao meu sonho.
Sou fé.
terça-feira, 8 de outubro de 2019
RECAÍDA
E, quando o filho chegou sujo, com o rosto quebrado, já na segunda-feira, o pai - lágrimas nos olhos - perguntou:
- Que aconteceu, meu filho, você estava tão bem?
E o filho:
- Eu não sei, pai.
E não sabia mesmo. E nem conseguiu chorar quando se trancou no quarto.
- Que aconteceu, meu filho, você estava tão bem?
E o filho:
- Eu não sei, pai.
E não sabia mesmo. E nem conseguiu chorar quando se trancou no quarto.
AMITIÉ
GEORGE HARRISON disse:
- Agora sei porque elas são tão grandes!
Referia-se às próprias orelhas que sustentavam a máscara de oxigênio no rosto. O ano era 2001 e George morria de câncer. Ao seu lado, segurando sua mão, estava Paul McCartney. Naquele momento, eram os Beatles que se conheciam havia mais tempo - foi Paul quem apresentou George a John – e eram também os Beatles que mais desavenças haviam enfrentado ao longo dos anos. Nos instantes derradeiros, segurando a mão do amigo, Paul pensou: “Puxa vida, sou amigo desse cabra há mais de quarenta anos e não me lembro quando foi a última vez que estivemos juntos.” Havia já mais de duas horas, agora, que segurava a mão do amigo. O clima não era triste, George era um homem religioso, estava pronto para a travessia. De qualquer modo, é diante da morte que percebemos quais são as coisas importantes de fato na vida. Agora, todas as brigas e intriguinhas por dinheiro, ego ou vaidade estavam diluídas, ambos voltavam aos adolescentes roqueiros. O que me pergunto é: por quê? Por que temos de esperar o raio nos partir ao meio para expressar o que sentimos? Por qual motivo não jogamos a máscara fora agora, sem um motivo trágico qualquer? Do que, afinal, temos medo? Seria orgulho? Arrogância? Covardia? Teimosia? Não sei. Fico, entretanto, feliz que eles tenham tido a chance de se entender no final. George e John, por exemplo, não tiveram; all those years ago é um pedido póstumo de desculpa. E aí, aqui na vila do Chaves, outro dia, fui fazer uma caminhada e vi dois velhos amigos que frequentavam o bar do meu pai pra jogar truco nas antigas: Mané e Tonhão. Ambos já têm mais de 65. O Tonhão está aposentado, mas o Mané é mecânico e continua atendendo seus clientes. Vira e mexe, o Tonhão vai visitar o Mané na mecânica. Às vezes, eles nem ficam perto um do outro; o Mané fica trabalhando e o Tonhão fica sentado ao sol, na calçada, do outro lado da rua. Não precisam conversar, mas gostam de ficar perto: AMIZADE. O som da jovem guarda rolando alto no rádio da oficina. Mais de cinquenta anos de parceria! Eu olho e aprendo, uai.
Bom dia, meus amigos. Estou aqui para aqueles que precisarem.
É outubro outra vez🌻. Bora!
- Agora sei porque elas são tão grandes!
Referia-se às próprias orelhas que sustentavam a máscara de oxigênio no rosto. O ano era 2001 e George morria de câncer. Ao seu lado, segurando sua mão, estava Paul McCartney. Naquele momento, eram os Beatles que se conheciam havia mais tempo - foi Paul quem apresentou George a John – e eram também os Beatles que mais desavenças haviam enfrentado ao longo dos anos. Nos instantes derradeiros, segurando a mão do amigo, Paul pensou: “Puxa vida, sou amigo desse cabra há mais de quarenta anos e não me lembro quando foi a última vez que estivemos juntos.” Havia já mais de duas horas, agora, que segurava a mão do amigo. O clima não era triste, George era um homem religioso, estava pronto para a travessia. De qualquer modo, é diante da morte que percebemos quais são as coisas importantes de fato na vida. Agora, todas as brigas e intriguinhas por dinheiro, ego ou vaidade estavam diluídas, ambos voltavam aos adolescentes roqueiros. O que me pergunto é: por quê? Por que temos de esperar o raio nos partir ao meio para expressar o que sentimos? Por qual motivo não jogamos a máscara fora agora, sem um motivo trágico qualquer? Do que, afinal, temos medo? Seria orgulho? Arrogância? Covardia? Teimosia? Não sei. Fico, entretanto, feliz que eles tenham tido a chance de se entender no final. George e John, por exemplo, não tiveram; all those years ago é um pedido póstumo de desculpa. E aí, aqui na vila do Chaves, outro dia, fui fazer uma caminhada e vi dois velhos amigos que frequentavam o bar do meu pai pra jogar truco nas antigas: Mané e Tonhão. Ambos já têm mais de 65. O Tonhão está aposentado, mas o Mané é mecânico e continua atendendo seus clientes. Vira e mexe, o Tonhão vai visitar o Mané na mecânica. Às vezes, eles nem ficam perto um do outro; o Mané fica trabalhando e o Tonhão fica sentado ao sol, na calçada, do outro lado da rua. Não precisam conversar, mas gostam de ficar perto: AMIZADE. O som da jovem guarda rolando alto no rádio da oficina. Mais de cinquenta anos de parceria! Eu olho e aprendo, uai.
Bom dia, meus amigos. Estou aqui para aqueles que precisarem.
É outubro outra vez🌻. Bora!
O OPALA
O rapaz tinha dezenove anos e era orgulhoso. Estava sentado ao pé da porta, segurando uma caneca de café, curtindo o sol; amanhecia. De pé, ao lado, a irmã mais nova: quinze. Ambos olhavam o Opala de seis canecos com o capô aberto:
- E ficou bom dessa vez? – a menina perguntou.
- Agora está tinindo.
- E o pai?
- Quebrou o pau, como sempre. Você não ouviu?
- Ouvi sim, mas você é filho, ué! Não é sua obrigação sustentar a casa. É dever dele. Se ao menos não bebesse tanto...
Dentro da casa, outros três meninos, o mais velho deles com dez anos recém-completados, assistiam televisão. No quarto, a mãe gemia: câncer. O pai ainda não tinha acordado. Roncava na lavanderia ao ritmo da bebedeira da noite anterior. Era um homem forte, o pai, um metro e noventa e mais de cem quilos; violento, na maior parte das vezes.
- Eu queria me divertir, Ana.
- Eu também.
- A gente tá condenado; o tempo, passando. Não há futuro. Logo seremos dois velhinhos. A mãe morrendo... Essas crianças fodidas também... Dívidas, contas, carnês... O sítio hipotecado! Meu trabalho naquele mercado... sete dias por semana! Ele que nunca se controla! As brigas! Não aguento mais... Nada de melhor nos espera, Aninha. Às vezes, tenho vontade de acabar com tudo. Mais de uma, tive de me esforçar pra não jogar esse carro de frente com uma carreta quando voltava do trabalho.
Os olhos da menina brilharam. Ela tomou o resto do café. Pensou entrar e começar a lavar a louça, mas se decidiu. Sentou-se ao lado do irmão, segurou-o pelo braço:
- Vamos.
- O quê?
- O carro. A carreta. Só nós dois. Juntos. Pra sempre.
- Você não tem coragem.
- Tenho.
Enxergaram-se então. O tempo desacelerou. As mãos dela fervendo no antebraço dele. Os corpos diziam sim. Ele jogou a caneca longe, na terra; segurou a mão da irmã e os dois correram para o carro. O rapaz bateu o capô com força, depois a porta, fez um meio círculo levantando poeira, os pneus cantando, rasgando a terra como se fossem.
E partiram. Rumo à via Dutra.
Dia seguinte, seus retratos estampavam as manchetes dos jornais.🌻
- E ficou bom dessa vez? – a menina perguntou.
- Agora está tinindo.
- E o pai?
- Quebrou o pau, como sempre. Você não ouviu?
- Ouvi sim, mas você é filho, ué! Não é sua obrigação sustentar a casa. É dever dele. Se ao menos não bebesse tanto...
Dentro da casa, outros três meninos, o mais velho deles com dez anos recém-completados, assistiam televisão. No quarto, a mãe gemia: câncer. O pai ainda não tinha acordado. Roncava na lavanderia ao ritmo da bebedeira da noite anterior. Era um homem forte, o pai, um metro e noventa e mais de cem quilos; violento, na maior parte das vezes.
- Eu queria me divertir, Ana.
- Eu também.
- A gente tá condenado; o tempo, passando. Não há futuro. Logo seremos dois velhinhos. A mãe morrendo... Essas crianças fodidas também... Dívidas, contas, carnês... O sítio hipotecado! Meu trabalho naquele mercado... sete dias por semana! Ele que nunca se controla! As brigas! Não aguento mais... Nada de melhor nos espera, Aninha. Às vezes, tenho vontade de acabar com tudo. Mais de uma, tive de me esforçar pra não jogar esse carro de frente com uma carreta quando voltava do trabalho.
Os olhos da menina brilharam. Ela tomou o resto do café. Pensou entrar e começar a lavar a louça, mas se decidiu. Sentou-se ao lado do irmão, segurou-o pelo braço:
- Vamos.
- O quê?
- O carro. A carreta. Só nós dois. Juntos. Pra sempre.
- Você não tem coragem.
- Tenho.
Enxergaram-se então. O tempo desacelerou. As mãos dela fervendo no antebraço dele. Os corpos diziam sim. Ele jogou a caneca longe, na terra; segurou a mão da irmã e os dois correram para o carro. O rapaz bateu o capô com força, depois a porta, fez um meio círculo levantando poeira, os pneus cantando, rasgando a terra como se fossem.
E partiram. Rumo à via Dutra.
Dia seguinte, seus retratos estampavam as manchetes dos jornais.🌻
MORTE, DEUS E CRIAÇÃO
BLANCHOT dizia que o lugar da literatura é à roda da morte. A literatura não é a expressão de um eu-armadura, mas a passagem do impessoal; e não há lugar melhor para se livrar do entulho do eu que à vizinhança da morte. Com câncer terminal, ninguém se preocupa em fazer sucesso ou pôr em prática suas opiniões muito acertadas sobre todas as coisas. Concordo, mas modifico. Creio que o lugar de TODA atividade criadora é a beira do abismo. O canto mais bonito do cisne é pouco antes da foice. Nos anos anteriores à catatonia, Nietzsche produziu, como locomotiva, suas obras mais importantes. Em dois anos, van Gogh pintou mais de duzentos quadros. Kurt Cobain concebeu Nevermind e, logo depois, dissolveu-se. Pouco mais de um mês antes de enfiar a cabeça naquele forno, Sylvia Plath escreveu todos os poemas de Ariel. O inspirado é aquele que foi tocado pela sua própria dissolução. Há algo, no fundo do ser; que, sendo nosso, já é de toda a humanidade. É como cavar um poço e encontrar o lençol freático. Alguns místicos chamam de centelha divina. Há pessoas que conseguem efetuar toda a travessia sustentando o punho erguido ao perambular por este espaço evanescente de tremor. Outros mergulham no abismo sem morrer e descobrem que o abismo tem braços macios abertos: o próprio abismo é Deus. Podemos tomar um chá ou um chocolate sentados na beira com os pés balançando antes de. Eu estive com um pé no alto sobre o abismo e o outro na casca de banana e então, a China. Aprendi que o vazio não é o negativo e tem pouco a ver com niilismo. O vazio não é negativo nem positivo, ele É. O vazio É é o Ser e, no ente humano, se manifesta como paz, gratidão, serenidade, amor, beleza, verdade, cantoria. Do outro lado do desespero, há um colo. Ao lado de Bruce Lee, driblei o fim como um toureiro dribla o touro, mas o mérito não é meu; mesmo porque, hoje, preferia encontrar outro modo de Dizer sem precisar usar os pronomes eu, meu, mim etc. Sou água. Quando não estou em mim, quando me tiro do caminho, é que me sou profundamente. Às vezes, o frio volta a doer feito lâmina de encontro à pele. Com determinação, baixo a cabeça e sigo. É natural gemer um pouco. Sei do que se trata. Tornei-me um agrimensor da ferida, um explorador do abismo. Que seja de sol.
SEGUNDA-FEIRA
Tudo bem que dois blocos fizessem as vezes da perna quebrada da cama, eles acordaram felizes. Enquanto ela foi pro banheiro tomar banho e se aprontar, ele colocou água no fogo para o café. Caminhou até o quintal e ligou realizado o caminhãozinho com a intenção de já ir aquecendo o motor. Era seu próprio caminhão! Sim, senhor! Seria a primeira viagem no que era seu e Pedro estava feliz. A travessia seguia. Durante toda a vida, o pai tinha vendido a força de trabalho nas lavouras: nunca tivera nada de seu; e ele, agora, antes dos trinta, já tinha sua própria casa, seu caminhão e conseguira construir até uma edícula nos fundos pro pai morar mais a mãe; cortinas brancas na cozinha da velhinha! A esposa saiu do banheiro. Ele entrou. A barriga ainda não aparecia, uma vez que a gravidez sequer alcançara o quarto mês. Ângela ainda cabia no mesmo uniforme dos Correios. Enquanto ele se aprontava, ela coou o café que os dois tomaram juntos, depois, com as mãos dadas sobre a mesa. Desfrutavam a simplicidade de ser. A luz do sol entrava pelas janelas e iluminava os rostos de ambos como se fosse um modo de a Divindade dizer: “Ei gente, estou aqui abençoando vocês”. Quando se levantaram para colocar a louça na pia, ele a abraçou por trás, beijou a nuca e ela se virou. Aconteceu então um beijo carregado de. Deste mesmo modo, os querubins se beijavam nas festas no céu. Ele ensaiou uns passos, ela acompanhou: o amor é uma dança; bem como o sexo é o dançar dentro do outro. Antes de entrarem no auto, que se traduzia em termos materiais num carnê de oitenta e quatro páginas, ele colocou ração, água, afagou e brincou com o cachorro:
- Cuida de tudo pra nós, Bruxão! – e o cão, não contendo a excitação, deu uma volta no quintal correndo feito louco. Como não sorrir?
Antes de rumar para a firma, ele a deixou na porta do trabalho. Beijaram-se.
- Eu te amo – ela disse sem véus e sem complicações.
- Eu vejo você – ele respondeu.
Na casa de frente àquela onde moravam, um monge-poeta observava tudo sem inveja; com bênçãos nos olhos. Era um atormentado pela fome de Deus, o monge. Tinha recebido visita uma vez e todo o mundo pintara-se de luz; mas, depois que Deus se foi, sua alma tornara-se sertão. Não conseguia encontrar a porta de entrada de volta. E a alma sequer sabia o que tinha feito de errado; feito noiva abandonada no altar, ainda esperava a visita do Cristo, olhando sem jeito para os convidados. E o Cristo não vinha, não aparecia na porta da capela.
- Cuida de tudo pra nós, Bruxão! – e o cão, não contendo a excitação, deu uma volta no quintal correndo feito louco. Como não sorrir?
Antes de rumar para a firma, ele a deixou na porta do trabalho. Beijaram-se.
- Eu te amo – ela disse sem véus e sem complicações.
- Eu vejo você – ele respondeu.
Na casa de frente àquela onde moravam, um monge-poeta observava tudo sem inveja; com bênçãos nos olhos. Era um atormentado pela fome de Deus, o monge. Tinha recebido visita uma vez e todo o mundo pintara-se de luz; mas, depois que Deus se foi, sua alma tornara-se sertão. Não conseguia encontrar a porta de entrada de volta. E a alma sequer sabia o que tinha feito de errado; feito noiva abandonada no altar, ainda esperava a visita do Cristo, olhando sem jeito para os convidados. E o Cristo não vinha, não aparecia na porta da capela.
sábado, 28 de setembro de 2019
ENQUANTO A PALHA PESA IN
Sabe, senhora, sempre sobra alguma coisa: álbum de retrato, lembrança, filho adolescente, gato vagabundo, cachorro tomba-lata deitado ao sol. Vi uma veiz: mei da rodovia, o homem parou auto, abriu a porta e soltou; no nada - nonada - fora do azul; um cachorrão grandão; bom-bonito, fiável. Adespois, fechou, deu partida e se-foi-se. O bichim, tadim, saiu correndo atrás, à toda. Deu conta não. Correu inté onde. E, daí, parou, carro à vera e caminhão de para-choque duro alderedor; olho-de-bicho-em-desespero, sem entender... suzim, sem dono, no aberto: eu.
Eu, às vezes, m’identifico-me co’milho; e, numinoso, reganho meus dente ao sol. Outras, sou o espantaio e, braços abertos, qual Cristo sangrando dessagrado, n’entrada do campo, esbarro quem quer conhecer meu interior. Indassim, urubu faz ninho no chapéu, enquanto a palha pesa in. Sobrosso, senhora! Condição de pólo. E tudo na vida é milagroso.E tudo na vida é tão banal.
🌻
Eu, às vezes, m’identifico-me co’milho; e, numinoso, reganho meus dente ao sol. Outras, sou o espantaio e, braços abertos, qual Cristo sangrando dessagrado, n’entrada do campo, esbarro quem quer conhecer meu interior. Indassim, urubu faz ninho no chapéu, enquanto a palha pesa in. Sobrosso, senhora! Condição de pólo. E tudo na vida é milagroso.E tudo na vida é tão banal.
🌻
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
POETICAMENTE, MORRE-SE
Há um verso de Hölderlin: "Poeticamente, mas cheio de méritos, o homem habita esta terra". Sobre este verso, Heidegger escreveu páginas belíssimas; mas aqui não. Outro dia quiçá. Embora estejamos enraizados numa placa tectônica - numa superfície metafísica - científica, creio que o homem é por meio da poesia. O ser do cão é lealdade; do gato, elegância; o ser do humano é poesia. O humano não é o animal racional: é o ente poético. Assim, o que me encanta... na medicina tradicional chinesa e, de certo modo, em toda a medicina do Oriente e indígena, é que ela é poética. Não há a separação cartesiana entre corpo e alma, psique e soma. Tudo é psicossomático. Deste modo, se a pessoa não sabe para onde ir, ou sente-se preso de algum modo, provavelmente desenvolverá um problema nas pernas, ou na coluna. E, se a atmosfera está irrespirável, hão de proliferar os casos de problemas respiratórios. Fernanda Young morreu de asma, depois de uma semana inteira de queimadas na Amazônia. Nunca li seus livros e, pra ser honesto, acho que não gostaria. Tenho aversão a gente que parece descolada demais. Trauma da adolescência, talvez. Pode ser. O fato é que a Fernanda era poeta e mulher: dois dínamos de sensibilidade. Deve haver muitas outros como ela morrendo por aí. O ar está mesmo irrespirável. Eu, que dificilmente pego uma gripe, acordei outro dia, no meio da madrugada, com falta de ar.
Vá, menina, e encare o que há para além da pele-fashion, da vaidade e do ego: "Time to die".
Vá, menina, e encare o que há para além da pele-fashion, da vaidade e do ego: "Time to die".
O BALDE TRINCADO
Às vezes, mais de manhã, eu me sinto como um balde furado. Tudo o que coloco em meu coração, vaza. Acordo perdido, sem nada; cansado. Não tendo dormido direito, abro os olhos e não consigo decidir se primeiro escovo os dentes, ou se desligo o despertador. Qualquer decisão parece impossível. Tudo esmaga. Faço meu café, recito uma prece. Ainda assim, quando levanto o balde trincado que sou para lavar o quintal, ele parece mais pesado que se estivesse cheio de concreto.
Today,
I would prefer not to.
Today,
I would prefer not to.
AINDA CARAVELA
Senhora pergunta só coisinha e eu desembesto falar. É que gosto, quando tenho ouvido. Se me incomoda? Pois se gosto e é mais que licor de pequi! Vô? Sim, presença marcante; ausência inda mais. O buraco que ficou onde ele vivia engole agora o derredor: virou dolina, desbarranco, oco. Noite que ele fez passagem, Caravela fugiu. Já tava velhinha, sem préstimo de montaria, mas pulou cerca e desapareceu no vau do mundo. Pensava, ainda pouco, antes d’a Senhora cheg...ar, em bicho. Mó de Caravela. Diz que bicho não ama, mas amor mesmo só cresce – credo meu – onde gente se apequena. Vô dizia que, no amor, das duas uma: ou a gente machuca ou sai machucado. Sem saída. Sem empate. Nunca é recíproco na mesma medida. Quem mais ama, mais machucado sai. Quem menos ama, mais machuca. Punhal, mira, chumbo; espora, machado no meio da gente. Vô dizia isso daí e eu - ainda de pouca idade, alma nova no curral do mundo - creio que ultrapassei, formulo: “nunca perde quem mais amou e, se sente que perdeu, é porque amor não era, mas egoísmo, vaidade, sebo das almas, o anti disfarçado de Cristo”. À vera. O de dentro da fêmea é templo; digo e refirmo. Sim, Caravela foi dele desde a idade de trinta e tantos. Dizia pros meninos, partindo rapadura e farinha aos punhados, que não foi de mulher, mas da égua que aprendeu o amor. A pirralha ria: “nóis também!” De sentido vário, malino, a criançada. Vô não. Contava causo. Eu absorvia. Diz que a cavala tinha criado no dia. Quando foi de noite, Caravela - que era meio bicho, meio gente – quebrou do estábulo a trinca e batia que batia doida com os cascos na porta da casa. Vô saiu bravo. Fosse outra montaria, apanhava, mas era. Que foi, menina? Que foi? Que tu tem, preta? E era guincho e desespero de mãe maluca, maculada e machucada. Caravela voltava, olhava vô e apontava o focinho mesmo que fosse dedo. Pro lado do brejo. Em buraco de poço. Vô ouviu os grito. Era o potrinho que tinha caído e, sem ter jeito de sair, agora se afogava. A mãe, que era aquela mesma Caravela, tinha ido buscar socorro. Vô chamou Mathias, que era contratado, e os dois tiraram o potrinho. Foi difícil e a égua não saiu da beira. Amor que de tal nome é digno, eu penso Senhora, só assim, igual que nem dessa égua por seu potrinho. O mais é negócio. Acordo de conveniência. Pode ser que seja bom, mas deve-se chamar por outro nome: de casório, ou putaria; ou_______
O DESEJO QUE A GENTE ENGOLE VIRA VIOLÊNCIA
Mal acostumado. Ligo de ficar preso aqui não. Senhora sabe. A grade grande não é de fora nem de ferro. É dentro. Tô pra dizer que o ser humano descende antes de Passarim de cativeiro que de macaco. Passarim criado em gaiola, uno pode deixar a portinhola aberta que não sai. Com gente é do mesmo. Liberdade é coisa séria, porque o mundo é grande e a responsa, ser-si-mesmo-próprio, maior aún. Da gaiola, gente conhece as grade. E do mundã...o que não tem fim? Ser livre é coisa rara. Nisso que chamam de amor; uns prende e outros fica preso. Ou alguém crê que o guarda que passa vinte e quatro horas no pé da cela é livre? Nada, tão preso quanto o outro. Senhora sabe, meu trabalho me trouxe aqui. Sem outra oportunidá, fui vender doce e, vosmicê quem disse, anestesia - va. Como é? De médico e louco? Hein, mas ali também tava tudo preso, mesmo no meio da rua. É porque aqueles só queria saber de: bala, doce, pó: dipin lik é pirulito no saquinho... E, na ânsia de ter, não viam o dia, a noite, a lua cheia. Nada não. Caía avião e ninguém ligava. Autismo? Sei não. Pois é, se-assemelha-se sim. Quem cai não quer saber do mundo. E vinga-se, ora; pois que pensa ansim: se o mundo não quer saber de mim, também não quero saber. Vou ficar até findar. Se gostei do brinquedim? Quem não gosta de ouvir um sonzim, némemo? Hein? Das grade? Já falei. E quem é livre? Conto causo porque acho orelha. De Igreja também fui. Católica no começo e evangélica no final. Tal qual Sinhô, avô meu. Que é uma Igreja se não um monte de preso e guarda uns dos outros ao mesmo tempo? E tudo revoltado. Querendo matar aquele que faz o que uno quer e a Igreja num permite. Tinha uma mulher na congregação cuja graça era Dona Sarah Remédios. Sim, todo mundo sabia que apanhava do marido. Era ciúme de doente. Dona Sarah era mulher séria, cumpria à risca o doutrinado. Mas o marido encarnava que não; e batia. Pegava celular. Caçava caso. O ciumento encontra prova onde não há, tal e qual esse juiz que ganhou cargo de ministro. E, sim, o marido. Puxava pelos cabelos e dizia nome feio. Batia de rancor, da traição mais feia imaginada. Mordia a mulher. Deixava roxa. E o povo da Igreja dizia que não. Que ela era anja-santa-e-salvação. Ela que apanhava e ele que era a vítima, precisava de ajuda. Pode? Pois foi que foi e separar não se podia, porque a Igreja. Ele surrava e arrependia, igualzim os viciado, ficava bonzim uns dias e, aí, a mágoa crescia, o ciúme voltava, num dava outra, batia traveiz. O que Deus uniu o homem não separa - diziam. Pois é, foi que foi até que o marido matou. Morta ficou ela. E a Igreja? Sem culpa. Acho que gostaram. O desejo que a gente engole vira violência. Eu? Vou ficando. Tenho pressa não. Me soltarem, voo. Comigo não. Que não deixem a grade aberta. É hoje.
CRIAR
Criar os filhos exige sempre soluções novas, porque o mundo cada vez muda mais depressa; e nós também somos mudança sobre a mutação. Os paradigmas tornam-se líquidos. Não podemos tentar criar nossos filhos – EXATAMENTE - do mesmo modo como fomos criados, há aí um abismo hermenêutico; seria o mesmo que tentar tocar uma fita k7 no celular. Claro, os pilares éticos provavelmente serão os mesmos; são heranças culturais e o ninho faz o pássaro. Por outro lado, ser pai ou mãe... hoje exige que sejamos cada vez mais artistas, mais originais na solução dos problemas que a paternidade nos traz. As crianças já não se contentam com respostas evasivas ou o argumento de autoridade; o que elas querem antes de tudo é a sinceridade. Às vezes, os pais podem pensar que, uma vez que não tiverem todas as respostas, serão desautorizados; mas criar é um ato conjunto entre nós e eles; trata-se de um fazer coletivo da vida e as repostas surgem na relação dialógica, no entre. Esse é também o grande barato de ser pai; o trabalho é que nos ensina. A gente se inventa enquanto é. A mãe surge com o bebê. O pai surge com o bebê. É automático. Todo um novo conjunto de sentimentos floresce em nosso coração assim que vemos o embrulhinho sair do ventre; no caso da mãe, acho que já na gestação. De algum modo, sabemos que nunca mais seremos os mesmos. Perdemos inclusive a liberdade de sermos autodestrutivos. Sobre não se importar com a opinião alheia, aprendo muito com o João. Sobre como conduzir minha vida financeira e emocional, aprendo com a virginiana Sofia. Acho que eles também aprendem comigo, muito mais pelo modo como sou do que pelo digo. Ambos valorizam a amizade - sem esse papo de que amigo só Jesus -, os dois respeitam e amam os animais, gostam de arte; embora o João, entrando na adolescência, agora queira estabelecer sua identidade pelo contra. Natural. Vou dizer uma coisa: na maioria dos conflitos que tivemos, os dois lados estavam certos e errados ao mesmo tempo. Eu podia ter razão, mas errei ao tentar impor. Os pais têm a mania de achar que têm razão porque nasceram antes. Isso pode gerar facilmente na gente o microfascismo e, quando um fecha a porta ao diálogo, o outro também fecha. Boa parte dos conflitos, e aqui não falo só sobre a relação entre pais e filhos, ocorre não porque queremos convencer o outro a enxergar as coisas como vemos, mas porque o ego quer se regozijar por ter razão. Os pais também têm egos, pois é. Enfim, é um trampo difícil porque não há mapas, fórmulas, ou garantias. No meu caso, tento de tudo e, quando nada mais funciona, aposto no amor: solvente que dilui a raiva, a mágoa, o ressentimento, a incompreensão, a tristeza, o medo, o___________
Setembro chegou, uai. Vem aí a primavera.
Setembro chegou, uai. Vem aí a primavera.
NA FERIDA
Em O mal-estar na cultura, Freud retoma uma questão que já perpassa alguns textos de Maquiavel, Schopenhauer e Nietzsche. É o seguinte, o ser humano tem uma face violenta, bestial, animalesca que a cultura – ou civilização - tenta amansar; funciona – der Kultur - como se fosse uma espécie de brida, freio mesmo. Daí o mal-estar, ou alguém imagina que o cavalo se sente confortável com um freio de ferro na boca? Essa parece ser uma lição que esquecemos. Vivemos tão ime...rsos na imagem, querendo parecer bonzinhos, que mentimos para os outros e para nós mesmos sobre a besta em nós. Acho que os antigos compreendiam muito melhor esta questão e incorporavam sua sombra coletiva por meio da catarse: daí as tragédias gregas, o prazer da guerra nos heróis homéricos, as arenas romanas, as mortes públicas na Idade Média. Havia aí um veio para descarregar a volúpia animal, o ódio, a raiva, a ira, a violência. A alma também precisa cagar! Nós suprimimos tais tendências e esperamos que elas milagrosamente desapareçam. Acho que colocamos fé demais no poder da cultura enquanto amansador das bestas. E aí o animalesco explode em focos, em outros pontos, na sociedade, seja por meio dos crimes de ódio – acho que não existem crimes de amor – seja por meio das posições políticas que se situam nos extremos. Quando apertamos demais o parafuso, ele espana. Estou falando tudo isso porque enxergo um estádio de futebol como um espaço pós-moderno de catarse. A torcida ali dentro cospe o que há de mais vil e violento em sua alma. Para algumas pessoas, xingar o juiz é suficiente. Para outras, no entanto, a violência acaba extrapolando o âmbito verbal. É uma questão complexa. Semana passada um juiz parou um jogo por conta de gritos homofóbicos. É a recomendação da FIFA; ela mesma corrupta e violenta. Eu, é claro, sou totalmente a favor; mas fico me perguntando: vigiar e punir é suficiente, muda de fato o interior das pessoas violentas, preconceituosas, homofóbicas? Qual seria o espaço da educação na conscientização? O Estado detém o monopólio da violência para coibir a violência; penalizar – com cadeia que a gente sabe que não resolve – é algo que contribui para a diminuição da homofobia ou só aumenta a ignorância e o ódio latente? Eu não tenho resposta, mas não me contento com as repostas superficiais que estão sendo oferecidas. Repito: qual é o papel da educação na conscientização das pessoas?
Boa semana.
FLUÊNCIA
Quando os sábios do Oriente insistem que é preciso calar o desejo, referem-se ao desejo do ego; do cogito que se imagina puramente racional, mas é desejo tanto quanto razão. Há que se distinguir desejo, vontade e fluência. O desejo é egoico; a vontade é aquela que tanto Schopenhauer, quanto Nietzsche e o primeiro Cioran enxergaram. A vontade é menos individualizada que o desejo. O problema é que enxerga a natureza apenas como luta. A fluência é próxima do ela vit...al, de Bergson. É a naturalidade criativa com que o rio flui para o mar, sem desejo. Quando o sábio cala o desejo, é para seguir a fluência, não é para morrer em vida. É por isso que Deleuze, Guattari, Foucault, _____________ não convencem em sua desconstrução do sujeito. Permanecem presos ao desejo, às máquinas desejantes que se apropriam do eu. Heidegger afirmava que, antes de Dizer, precisamos ouvir o Ser (Eu Sou). Quando calamos o desejo, ouvimos a fluência, a voz do Ser. Estamos de acordo com o destino do mundo. E, se pensamos, é o pensar do Ser: o modo como o Ser se manifesta unicamente no ente humano; pensar poético que supera o Humanismo e dá ao homem a possibilidade de pensar com humildade, em consonância com a Terra.
TESOURO DE UM AMOR QUE VAI CHEGAR
O que eu vendia era morte, Senhora sabe, mas também era sonho, serenidade, sorriso, som de passarim no mato de manhã... Fim feito colo de mãe; menino entrado no riacho; mocita recebendo regla primeira. De negócio não entendo e de trabalho não gosto. De meu feitio é entrar n’água, qualquer filete já me cura um pouco. E, nas Minas, subia nos morro e olhava o imenso. É Deus, num sabe, aquilo que não cabe na gente, extravasa: tantão de tão; Imens...idades. Quando vem o Mayor é ansim, com pézim de bailarina, como quem não quer, e é sol se pondo, avermelhando, u’as nuvem, azul de dez diferenças: o sol. Parecia que não era nada e então é lágrima que corre porque é boniteza demais pra pele de menos: o sol. E é Deus-menino pregando peça, tecendo beleza no céu e derramando do coração da gente: o sol. Eu queria era ser livre e olha onde vim. Qualquer maneira, quando a gente caminha na beira, não tapa o sol com a. Eu penso é que tudo é Deus espalhado: cheiro de cravo, calor de canela, passarim, joaninha, cheiro de erva, a folhinha que morre quieta entre as pedras do rio; mãe minha fofocando na janela e a música que tocava no meu radim de madrugada. Vou dizer, Senhora, eu descolava da vida quando a solidão vinha morar ni mim. Doía tanto que eu nem sabia respirar; que dirá dizer a outrem. Falar? Falo. Primeira coisa que vier? Pois é nome próprio: Mariana. Mariana-mulher, massa do pão e luz do suor. Conto. Tinha u’a menina cuja graça era Sandra e eu gostava dela de muito. Sim. Mas não dizia, porque tinha medo. Uma vez, comprei bombom, mas não dei. Era amor de menino, puro que nem mel quando gente aperta a colmeia entre as mãos lavadas. Eu tinha amigo, nome não digo. Amigo meu devera. Era carne e unha, unha e carne. Onde um parava, outro demorava. Pois eu amava a menina e não dizia porque. Tímido? Sim, até hoje quando não conheço e onde tem gente demais. Fico sem jeito. Enfim, gente estudava tudo junto e Sandra, no fim, se-enamorou-se foi desse amigo meu. Perderam junto a virgindade. E eu? Fiquei chorando só, de madrugada, doendo, criando bolha no coração, ouvindo rádio romântico. Meu amor e amigo meu; meu destino em solidão. Óia, hã. Sei que pegaram namoro e garraram andar de mão dada pela rua. Meninada bulia comigo. Menino sente pena não. Por despeito, fui pra zona, levado por patrão meu. Moço novo, dono da padaria onde eu vendia sonho nessa época. É aí que entra Mariana.
- É cabaço – disse a Dona – e cabacim assim quem quebra é Mariana.
Tinha idade mesma; ou quase.
- Vou cuidar de você. – E me abraçou pelada, cobra di vrido. E, se Deus fez coisa melhor que corpo de mulher, esqueceu de pôr no mundo. – Vou te ensinar o amor. – E foi, Mari-mariana.
Saudade, sim.
Que foi feito da casa de nossa infância, Senhora?
- É cabaço – disse a Dona – e cabacim assim quem quebra é Mariana.
Tinha idade mesma; ou quase.
- Vou cuidar de você. – E me abraçou pelada, cobra di vrido. E, se Deus fez coisa melhor que corpo de mulher, esqueceu de pôr no mundo. – Vou te ensinar o amor. – E foi, Mari-mariana.
Saudade, sim.
Que foi feito da casa de nossa infância, Senhora?
BUM, BUM, BUM
O milagre o povo sabe o que significa. Ele mudou da água para o vinho - dizem. Querendo dizer que a pessoa parece outra, mas que, na verdade, apenas voltou pra casa. Resgatou a criança. É sintomático que, na parábola, isso ocorra numas bodas, em Canaã. No casamento com o Sagrado, ou melhor, em nossa reconciliação, mudamos, reencontramos a criança em estado de brincadeira e inocência. Quero largar a carcaça no deserto e regressar ao lar do meu coração, agora livre de toda fuligem e ferrugem. Em breve, será tempo de pipa outra vez. E o céu há de se vestir com a cor de todo menino.
Estou pronto.
A casa está limpa.
Venha pra morar de vez dentro de mim.
Estou pronto.
A casa está limpa.
Venha pra morar de vez dentro de mim.
COMO?
Já o que dói em mim não é a dor que a vida impõe. Julgo-me musculoso suporte para qualquer chaga. O que hoje me fere é a dor que espalho ao passar: o inseto esmagado pelos meus pés cegos, a vida ceifada - mesmo vegetal - que alimenta minha rotina, a mulher cujo anseio não posso atender. Ando tão difuso que já não sei se o que dói em mim é meu rim ou o rim do mundo. Não há delicadeza que nos impeça de ferir. E quando cravo a enxada no chão, ainda que seja para plantar amor e ternura, ouço os gritos sagrados da Terra. Como?
SERENADE
Deus num tem pressa; não há carreira no eterno. Age na lei do manso, Deus. Tem cavalo que. Uno passa a mão no focinho e o bicho oferece a cabeça; cheio de Deus por dentro e milagre no olho. Cachorro também. E gato. E os homens; na música, gente bruta fica delicada, um precisa do outro, outro necessita do um: vamo fazê isso junto? Um acompletando o outro, que nem humanidade, ciranda, criança de mão dada à roda do quintal. Serenade, sol, sereno, geada nas planta de man...hã; nuvem na baixa em riba do pasto. E na cidade também tem, mas é menos: vi criança de rua brincando com bebê que tava em cadeirinha, banco de trás de carrão importado, hein? E sorriam, os dois, sem saber de abismos. Mas o sinal: verde vã esperança: vrum. E foi. Deus. Deixou perfume de flor. Vontade de suspirar dentro da gente e ajudar a quem precisa. Passou passarim e era Deus de novo, se amostrando pra outro que nem percebeu. Num é só Diabo, Deus também mora no detalhe; tudo pequenim, delicado, amoroso: cafunês. Milagre não num faz estrondo. Eu via, pois, tempo que vendia doce, tinha vô, tiozim-já, que levava a neta no ponto, cinco hora da manhã, e só voltava pra casa depois que a menina entrava no buzo, sô. Como é o nome disso? É Amor. É Humano. É Deus. Oferenda de tudo que se é ao outro. Quem ama fica miudim pra se alegrar na grandeza do outro. É Deus no meio; na semente rompendo a casca, no pintim trincando o ovo. Quem quiser que explique, eu suspiro e choro. Sou cientista não. Menino admirado. U’a veiz, Senhora, fiquei tão triste que pensei morrer. Tenho disso. Triste que nem bicho triste. Que nem sinal de fábrica às sete da manhã. Que nem... Peguei faca na cozinha e tava em ponto de rasgar a goela de ponta a; mas Deus entrou na mão e eu desviei a faca pro bucho e a ferida se-fez-se filha e flor e Sofia; u’a rosa vermeia crescendo em mim; que era o Cristo mesmo feito em flor. Eu sinto, Senhora, que não estou dentro: neste cuerpo cheio de nervo, osso e veia; eu fico é Fora e me visito vestido de brisa, suavidá, Amor meso, uai. Que diferença faz se esse cuerpo não for? Se ele roxear e apodrecer? Eu continuo, no Fora, no meio de Deus, atravessando a brincadeira entre menino milionário e menino de rua. E o que fui – e que só eu podia ser – fica também, na palavra, dentro de quem cuido e amo: u’a rosa, u’a Benedita.
Meu nome já não pode ser Mineirim, só Amor.
Meu nome já não pode ser Mineirim, só Amor.
domingo, 25 de agosto de 2019
FILHOS, LENNON, BILAC E CARTOLA
Cada um cria os filhos do modo como consegue e acha melhor. Aqui em casa é na base da liberdade. Nunca mandei o João ou a Sofia lerem um livro, mas tenho muitos livros e eles me viam lendo muito um tempo atrás. Com a música é do mesmo jeito. A gente divide. Com o Lennon, por exemplo, numa parte da viagem, o rádio é dele; na outra, é meu. Gosto muito de ouvir uns funks, no flow etc e tals... A gíria é a língua em devir; língua menor, máquina de guerra, you know, toda essa baboseira conceitual. Mas, durante o meu comando, eu é que comando, uai; ainda que a Arte chegue sem precisar de mando. Outro dia, tocou Morro Velho, do Bituca, e, quando terminou, o Lennon - João - estava trêmulo, tocado por aquele enredo tão triste e aquela música mineira de carro de boi; som que viajou trezentos anos só pra chegar aos nossos ouvidos. É assim: um dia videogame, outro dia Cervantes, ou. Sem pressa e sem pressão. Funcionou muito bem com a Sofia. Ela se tornou um mulherão. Maior orgulho do papai aí. Mas eu queria mesmo voltar ao som do carro. Hoje, tocou Cartola, O mundo é um moinho, e eu expliquei a história da canção, dando uma enfeitada pra aumentar o drama. Vi o João em silêncio, sorvendo cada palavra, cada acorde. O milagre também é estético. Quer coisa mais bonita que um milagre assim, segunda-feira de manhã? Enfim, deixei o João na escola e voltei pensando no Cartola e no milagre que ele é. Não acho Bilac ruim, não; mas creio que sua obra maior foi mesmo o Cartola. Um acadêmico e um favelado. Coisas do Brasil. Como é que pode um homem sem qualquer instrução formal ser um gênio da língua feito Agenor? A forma como usa a segunda pessoa do singular, o tu, faz o amor ganhar um patamar transcendental: "devias vir para ver os meus olhos tristonhos". Fala de um amor que atravessou o mundo em caravelas, navios negreiros e foi aportar em meio aos barracos da favela. Os vivos do tempo presente somos a boca e a voz de todos os mortos. Quando digo olá, até Camões diz comigo. O grande barato de ser brasileiro, e que nada tem a ver com odiar, é ser liquidificador. O ponto exato onde o batuque de origem mama-África encontra o barroco-católico-português e o culto à mata do guerreiro-índio-menino. Foi uma boa aula pra mim e meu filho. Fomos visitados.
Boa dia e boa semana, amigos.
Boa dia e boa semana, amigos.
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Daniel Lopes
luminação
luminação - iluminada é a onda que, além de sua condição momentânea de onda, descobre-se sempre mar.
Eu? O que sou?
O surfista
Que leva no peito o seguinte verso tatuado:
She loves you, yeah, yeah, yeah!
Eu? O que sou?
O surfista
Que leva no peito o seguinte verso tatuado:
She loves you, yeah, yeah, yeah!
O COTIDIANO COMO HORIZONTE DO ESPLENDOROSO
Outro dia, escrevi que a felicidade é questão de atenção e não de realização. Fomos educados sob a narrativa do heroísmo; seria, pois, preciso fazer algo grande para que a vida ganhasse sentido. A razão da vida, em tal vértice, está sempre no futuro, sob a imagem da façanha. Eu sonhei ser Dostoiévski😲. Tudo bobagem! O sentido da vida está no cotidiano, no corriqueiro, em tudo aquilo que fazemos sem atenção e, muitas vezes, praguejando. Quando conseguimos trazer o espírito de volta à casa do corpo e estar presente no nosso próprio agora, que é a vida mesma acontecendo, tudo se torna sagrado, esplendoroso: oração. Aí, você leva os filhos à escola e percebe que eles estão ali ao lado, crescendo, e que toca no rádio uma canção e isso tudo é o milagre do amor e você não se dava conta, pois queria escrever seu Os Irmãos Karamazov, mas você nem gosta de frio. Você rega as plantas e percebe que, mais que água, vai junto o cuidado, o concernimento, o carinho: amor, porra! E as plantas sabem e, quando você fica triste, elas gritam por você lá do jardim, pedem até desculpas sem saber o que aconteceu, sentem-se culpadas, coitadinhas: “volta, amigo! Prometemos ser comportadas”. Você alimenta os cachorros e eles balançam o rabo e te beijam e não cabem em si de alegria, porque eles estão derramando amor pela língua. Você tira o cocô deles, lava o quintal, cumprimenta o vizinho, tudo isso é milagre e, quando você consegue fazer com amor e atenção, percebe que é um privilegiado. Você está tendo a oportunidade de amar, de se doar, de cuidar e servir. Então por que você não ama? Preocupa-se em ter um carro melhor que o do vizinho! Em escrever uma tese melhor que a do colega! Em ser promovido! Puxa vida! Como é bom tomar o café que a gente mesmo fez numa manhã fria! E quando você dedica atenção e amor assim a tudo o que faz, você fica grato. Você não reclama porque não tem salmão, mas agradece de coração a sardinha. Você não olha a Scarlett Johanson com cobiça, mas percebe o valor e a força da sua própria companheira. Vivendo assim, você nem precisa mais rezar porque tudo o que você faz é uma oração e tudo é abençoado. Quando o dia chega ao fim, você se senta com a família e o violão e todos cantam juntos uma canção qualquer. Ou então você se senta sozinho, pega uma caneta e honra a vida não vivida; escreve, com todo o coração, um conto sobre aquela mulher que não pôde amar porque ambos tinham compromissos. E, depois de escovar os dentes, feliz por ter pasta, escova e dentes, você se deita e percebe que teve um dia feliz. E você consegue o milagre dos milagres: você fecha os olhos e dorme.
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