segunda-feira, 11 de novembro de 2019

ESTILO

Não sei muito bem o que é estilo. Qual é o estilo da água? Ela que, maleável, ganha a forma daquilo que diz. Talvez o estilo seja um modo de ser; um gosto: olho a roseira e o girassol; eles dizem todo o tempo sobre boniteza. Mas como eu, sendo tantos, posso ter um estilo se aquilo que escreve em mim é sempre o outro; aquele que - maior - me ultrapassa? Há em mim um mineirinho, menino ainda; que, em sua simplicidade, aconselha meu olho primevo. Há uma prostituta portuguesa que ama o amor. Há uma adolescente que espera o príncipe e chora assistindo a sessão da tarde. Há um peão de obra; um médico; um louco; um bêbado; um monge. Cada um diz a seu modo, mas todos tentam dizer o indizível: a vida, Deus, o amor, a justiça, a verdade, o encontro. Na escola onde trabalho, estudam muitas crianças especiais. Boa parte não fala; sorri apenas. Mas há o Ozi, que é down. Ele fala uma língua só sua, como se fosse uma língua do “p”: ninguém entende. Ele se esforça, aponta com os dedos, faz gestos, todo um teatro. Em seu lugar, outros teriam desistido. Ozi, contudo, teima, insiste em dizer: pepepêpêpê. E vocês precisam ver o modo como ele sorri e balança a cabeça quando entendemos o que quer dizer. É gordinho, fofo, levanta os braços curtos e nos abraça quente– sempre sorrindo. Aos poucos, descobri que gosta do Chaves e de pastel de feira. E, outro dia, estava triste: pepepepêpêpê! Chorando, pepê. Era saudade. Pai e mãe tinham se separado e o pai nunca mais tinha ido vê-lo. Coisa de cortar o coração. Conseguimos falar com o pai por telefone e, na segunda-feira seguinte, o Ozi chegou todo alegre, tinha comido pastel no domingo e com o pai. Especial, Ozi? Pê! (joia com a mão) Tinha de tudo dentro? Pepê! É essa língua do “p” que quero alcançar; e esse pastel, e esse domingo; e esse pai e seu filho muito especial. Estilo? Não tenho a menor ideia do que seja.
Importa?🌻

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