segunda-feira, 11 de novembro de 2019
EDUCAÇÃO
A justiça é como mãe que tem filho predileto. Naqueles campos de várzea, ao menos uma vez por mês, aparecia um defunto. A ROTA agia. Extremo leste, barro, mato alto, violência: notícias no Afanásio Jazadji sobre a captura do Chico Pé de Pato. Os meninos, brincávamos como podíamos. Quando começaram a asfaltar as ladeiras, fazíamos campeonatos de carrinho de rolimã. Isso foi depois. Antes, havia o morro e, lá embaixo, os campos. Depois da aula, meu irmão mais velho e eu íamos até lá pra jogar bola. Pai e mãe trabalhavam o dia todo. De modo que ficávamos os dois. Um dia, surgiram tratores, escavadeiras, caminhões. Os campos seriam substituídos por conjunto habitacional. Nós pulávamos o muro do terreno do seu Dito e ficávamos lá de cima, olhando os trabalhos. Mas chegou janeiro e, com o mês, as chuvas. A obra teve de ser interrompida. Os buracos que serviriam de alicerces aos prédios, tornaram-se piscinas naturais. A molecada inventou brincadeira. Descíamos o morro escorregando na lama e... ti-bummm, na água barrenta lá embaixo. Pra não apanhar das mães, muitos meninos nadavam pelados pra não sujar a roupa. Éramos barulhentos, maritacas nos pés de coquinho. Meu irmão e eu nadávamos de short que depois lavávamos em casa. Um dia, enquanto a molecada brincava, surgiram três malandros mais velhos. Ficaram fumando maconha enquanto brincávamos; olhos de rapina. Um deles me chamou. Na mesma hora, meu irmão apareceu com um tijolo na mão, ameaçando. O malandro riu, os outros dois se juntaram. Meu irmão jogou a pedra e corremos; subindo o morro com a habilidade de quem nascera ali. Mas havia outro menino, mais novo que eu, o Piolho, que estava nadando só, pelado. Não deu outra. Pegaram o negrinho e arrastaram pra trás dos montes de terra. Ali, estupraram-no. Ouvimos os gritos, jogamos pedra e corremos. Passamos o resto da tarde escondidos, com medo. Quando voltamos pra casa, a mãe já nos esperava. Cipó do pé de manga na mão. “Passem aqui. Se correr vai ser pior.” Passamos. Meu irmão levou uma cipoada e se trancou no banheiro. Eu fiquei e absorvi. A notícia tinha corrido o bairro. Piolho estava no hospital. Levara mais de vinte pontos no cu. Havia algo de sombrio naquele solo. Depois que a COHAB foi construída, um menino de catorze anos matou a família inteira ali. Depois, na Febem, cometeu suicídio.
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