segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O DESAPEGO

Eu ouvi:
Romi era senhora de uma beleza exuberante; mas, mais que a beleza, era sua magnética pureza, seu trato reto, a honestidade de seu sexo, que faziam com que todos no reino orbitassem seu coração. Simplesmente era bom estar perto dela. Tanta boniteza, no entanto, não lhe trazia felicidade. Homens e mulheres sofriam por Romi e ela se enternecia. Não era confortável à sua alma humilde causar tanta dor. De fato, não é que as pessoas quisessem se apossar do destino da moça; muito pelo contrário, o problema era que, quem conhecia Romi, não conseguia imaginar para si um futuro no qual ela não estivesse. Mais de um tentou suicídio. E Romi sofria do sofrimento que causava; ela, no entanto, era o que era, apenas, sem trama ou cálculo. O que ninguém sabia era que Romi estava doente; seu coração, aos poucos, rachava-se como terra esturricada. Por já não suportar mais sofrer e causar, a moça decidiu se trancar na Torre do Espírito e lá permanecer por exatos dez anos; até que se esquecessem de sua existência. Só então voltaria. Mais velha. Mais seca. Muito menos atraente.
Primeiros dias, uma multidão montou acampamento ao pé. Estavam dispostos a esperar ali pelos dez anos seguintes. Findado o primeiro mês, contudo, a maioria tinha desistido. Depois de um ano, havia meia dúzia de pretendentes. E, no início do terceiro ano, restava apenas Guaccaluz, o poeta maltrapilho.
Durante nove anos, trezentos e sessenta e quatro dias, Guaccaluz esperou. Alimentando-se de mel, gafanhotos e do que o povo dava, sofrendo as agruras do clima: passou frio, passou calor, passou fome e não desistiu. Na noite que antecedia a liberdade de Romi, contudo, Guaccaluz se levantou - decidido, descalço, sem olhar para trás - e caminhou para. Quando abriu a porta da Torre na manhã seguinte, Romi não encontrou pessoa, só uma rosa vermelha que o poeta deixara na soleira antes de.🌻

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