Há mais mistérios entre o céu e a terra. Eu era estudante em Assis quando conheci André. Era um cara legal, mas tinha um defeito imperdoável: não suportava música. A cura psíquica acontece por meio da luz da consciência; não digo razão, consciência. Pois bem, André era um cara atlético, culto, curioso, sensível; jovem, enfim. Certa feita, fomos a um daqueles bailes de quinta que aconteciam na Unesp: eu e ele, ele e eu. Um baile para um cara que desteta música é provação, mas eu era insistente. De modo que, lá pelas tantas, manhãzinha já, começou a tocar Andança, com a Beth Carvalho, pra mandar o povo embora mesmo. Olhei meu amigo, nem sei o porquê, e ele se dissolvia em lágrimas. Soluçava. Via-se que estava abalado. Passou. Houve outros encontros, filmes, livros, garotas, estudos. Nos anos subsequentes, contudo, André e eu nos afastamos. Ele deixou de jogar futsal com a gente. Trancava-se no quarto, taciturno, e, se estudava, era muito pouco. A tal noite negra da Alma de que fala San Juan de la Cruz fazia visita. Quando percebeu que estava afundando – de modo definido e irrevogável - meu amigo resolveu pedir ajuda. Foi só e por conta ao Núcleo de Psicologia buscar tratamento. Eu sabia que o pai dele tinha morrido enquanto a mãe estava grávida. De modo que meu amigo nunca conheceu o pai e acho que isso pesava. Ele estava em tratamento havia mais de um ano, quando apareceu na quadra da Universidade pra jogar com a gente outra vez. Estava mais calmo; de boas; mais feliz mesmo.
- Que aconteceu, bro? – perguntei, findado o jogo.
- Eu descobri, mano, e, quando você descobre, consegue meios de lidar com a coisa. Você sabe, nunca conheci meu pai e sempre odiei música. Até outro dia, não sabia que meu pai era músico, vai vendo. Só depois do tratamento foi que confrontei minha mãe e descobri que meu pai era músico e adorava tocar aquela música que tocou na festa aquele dia, Andança. A mãe disse inclusive que, no momento em que fui concebido, tocava aquela canção, ela se lembra. Pai adorava o Paulinho Tapajós e tocava a canção pra ela todo santo dia, no começo da gravidez. Depois que ele morreu, ela ainda ouvia a música no disco e chorava. Era luto. Aí, quando nasci, tomou decisão. Queria luz. Quebrou o disco e nunca mais ouviu aquela canção ou outra qualquer. Em casa, a gente não ouvia música. Nunca tivemos um rádio sequer.
- Mas o Buda não ficou no castelo e um dia teve de sair.
- E encontrou seu destino.
- E encontrou seu destino.
Enquanto caminhávamos para casa no meio do pasto – camisa no ombro, tênis nas mãos – ele tirou uma gaita do bolso e começou a tocar e, olha, tocava como ninguém. 11:11. André, meu amigo. É🌻
- Que aconteceu, bro? – perguntei, findado o jogo.
- Eu descobri, mano, e, quando você descobre, consegue meios de lidar com a coisa. Você sabe, nunca conheci meu pai e sempre odiei música. Até outro dia, não sabia que meu pai era músico, vai vendo. Só depois do tratamento foi que confrontei minha mãe e descobri que meu pai era músico e adorava tocar aquela música que tocou na festa aquele dia, Andança. A mãe disse inclusive que, no momento em que fui concebido, tocava aquela canção, ela se lembra. Pai adorava o Paulinho Tapajós e tocava a canção pra ela todo santo dia, no começo da gravidez. Depois que ele morreu, ela ainda ouvia a música no disco e chorava. Era luto. Aí, quando nasci, tomou decisão. Queria luz. Quebrou o disco e nunca mais ouviu aquela canção ou outra qualquer. Em casa, a gente não ouvia música. Nunca tivemos um rádio sequer.
- Mas o Buda não ficou no castelo e um dia teve de sair.
- E encontrou seu destino.
- E encontrou seu destino.
Enquanto caminhávamos para casa no meio do pasto – camisa no ombro, tênis nas mãos – ele tirou uma gaita do bolso e começou a tocar e, olha, tocava como ninguém. 11:11. André, meu amigo. É🌻
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