terça-feira, 19 de novembro de 2019

BITUCA E TÍ TUNICO

Meu tio Antonico tinha setenta anos, mas parecia ter sete. Era especial. Pequenim, a cabecinha branca, magro-magrim. Foi menino a vida toda. Era do lado italiano da família e gostava de. Conhecia pelo canto. “Ói, hum, trinca-ferro... Ói, ô, é coleirinha!” Era do tempo antigo e, infância vasta, confundia amor e posse. Tinha viveiro onde criava muito, mas de preferencia era um só. Passo preto. Bonito, vistoso, peito estufado, cantadô do grave ao agudo, solfejado; em sendo macho, tinha coração de fêmea, o bichim. Nome dado foi Bituca, em virtude de minha prima, Madá, que era do lado mineiro e escutava o Clube; momento em que o passarim cantava ainda mais alto, desafiado, disputando com o outro. Foi Madá também quem contou causo, no intuito de conscientizar. Disse que o povo furava os olhos de passo preto na intenção de afinar o canto. Nesse dia, o tio chorou. Maldade muita pra imaginar um coração sem mancha. Madá continuou. Era judiação sim; mas também o era manter os bichim tudo assim... preso: mesmo conversando, limpando, dando carinho e alpiste do melhor. “Os bichinhos são do céu e não da gente”. Madá, pedagoga severa. Ensinava o certo pela autoridade; sem vislumbre de delicadeza. Aos pouquim, tio Tunico foi soltando. Mas chorava sempre. E adoecia. Tinha febre alta e caganeira. A vó brigava: “Pra que isso Madá? El’é menino.” E a prima: “Menino também distingue”. E foi que foi. E o tio se-desfez-se da íntegra, mas do Bituca não conseguia, posto que preferido. “Agora canta pra Madá”. Dizia o menino envelhecido. E o preto cantava de um jeito. “Agora canta pra nona.” E o bicho atendia de outro. “Agora pro papai.” E o bichim enchia o peito, s’exibia-se e cantava de perfil, qual tenor italiano. Bom, bonito. Mas deu-se num sábado, feriado da proclamação. O tio tava zelando, limpando o viveiro e, no descuido, deixou a porta aberta. E Bituca, o assum preto, partiu sem olhar. Do jeito que tava tudo, meu tí deixou. Largou o mundo e correu chorando pro quarto. Ali ficou toda a noite; sem saída. Madá teve de dar calmante do forte; do contrário, ninguém dormia. Mesmo assim, tí Tunico só calou quando raiava; momento em que nós, os outros, também.
Amanheceu dia de domingo e a casa inteira acordou em sonho. Pela alegria do canto e a força do fôlgo, era Bituca quem voltava, solfejando a melodia do papai. O tio correu. Dentro do viveiro, a porta ainda aberta, Bituca meso cantava sorrindo. E foi reencontro de sorriso e cheiro, carinho e cuidado. Os dois juntos: um inocente e um passarim. Daí por, tio Tunico percebeu que o bicho queria ser livre e não tornou a fechar; mas o passarim.
Toda tarde saía pra passear pelo mundo; dia seguinte, no entanto, entrava outra vez, por vontade, pela portinhola aberta e cantava que cantava pro meu tio especial.
Quem ama, volta.🌻

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