segunda-feira, 11 de novembro de 2019
FESTEJO
Tudo o que sou se abre em festa para celebrar a chegada do outro como ele é. Morando em mim, já não quero me colocar como parâmetro; tampouco penso em mudar aquele que vem. A correção não cabe a mim, mas a essa senhora severa chamada Vida. Mal consigo plantar flores no meu próprio caminho, por que me preocupar em aparar a grama do vizinho? E, se o outro me parece sovina, sinto prazer em pagar a conta. Que diferença fazem vinte reais na totalidade da vida? Se o outro é agressivo, assumo minha parcela de responsabilidade, varro só meu lado da rua e o milagre acontece: o outro, por conta própria, começa a varrer o lado dele. Se o outro é inculto, estúpido, raivoso, culto e vaidoso, metido 'a besta, não discuto. Há uma força muito maior que eu capaz de corrigí-lo ou quebra-lo; assim como eu mesmo me quebrei e troquei minha pele pelo couro do cão atropelado no acostamento. A vida é assim, pode demorar anos; mas, ou você assimila que só pode cuidar de si mesmo, que é só um servidor da Vida, ou você naufraga. Isso quer dizer que você tem de se anular? Óbvio que não, quer dizer que você pode dizer o que pensa sem agredir e que é possível não aceitar provocação. Fica fácil quando você cultiva em si o amor sem objeto. Amor que escorre no leito dos rios banhado de perdão. Há mestres por toda parte, vestidos de bicho, nuvem, planta, rio ou gente. O homem, que nesta terra miserável mora entre feras, sente inevitável necessidade de ser beija-flor.
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