"A esperança é um urubu pintado de verde"
Mário Quintana
É a mentira que nos mantém em pé
e funcionais. No mesmo instante em que provaram do fruto da árvore do
conhecimento, Adão e Eva provaram também do fruto do delírio. Ao abrir-se no
primeiro macaco para se tornar espelho, a natureza também impregnou tal macaco
de sonho para que ele pudesse suportar. Sem o delírio entrelaçado à razão, o
ser humano não resistiria, não seria possível. A mentira é necessária tanto no
pensamento metafísico: Deus, quanto no pensamento cotidiano: cortesia.
Por outro lado, o humano é sempre
insolúvel, está o tempo todo nas antípodas de si mesmo. Ainda que se mantenha
de pé sustentado pela mentira, busca, feito um onanista obcecado, a verdade. Na
ânsia da verdade, os homens, aqueles que se julgam os melhores da espécie,
assassinam as divindades e colocam a si mesmos no lugar. É trocar um cadáver
por outro, como disse Cioran. Se Deus é um delírio, delira ainda mais quem
sonha tomar seu lugar na eternidade, ter o nome escrito sobre o nome de todos
os outros homens, alcançar a imortalidade sem precisar de um céu, ou de um
além. Toda empreitada humana é fruto deste delírio... Esquecemos um único
detalhe, o planeta-palco onde a comédia é encenada é menor que um grão de
areia. Nenhuma criação humana, nem mesmo a pintura de van Gogh, nem mesmo a
música de Beethoven, é destinada a durar. A essência de tudo é a
transitoriedade, mas o homem não aceita, quer cravar uma estaca no peito do
tempo e travá-lo, matá-lo, diluí-lo, rir na cara da morte acorrentada.
Impossível. Menos no mito, no símbolo, nas
asas do macaco, mas tomamos o caminho contrário, cortamos nossas próprias asas,
quebramos a natureza como se quebra um ovo e a gema é oca, o centro é vazio. O
processo de mapeamento do mundo está avançado. Agora falta pouco para
descobrirmos o que o budismo e o taoísmo sempre souberam: o vazio é a forma e a
forma é o vazio.
Não somos feitos só de átomos,
somos feitos sobretudo de histórias. O mito de Édipo não é encenação de um
papai-mamãe, pornografia que não excita mais nem a pré-adolescentes. Freud
delirou e impôs seu delírio ao mundo, não há definição melhor para gênio. Édipo
Rei é a mais perfeita alegoria da condição humana, mas por outros motivos.
Somos sagazes, astutos, espertos, desvendamos todos os mistérios. A esfinge
desmorona diante da nossa inteligência. Seguimos sempre adiante, ainda que
pressintamos a noite e o gelo. Nosso projeto é desvendar o Ser, dissecá-lo,
destituí-lo de símbolos, de mistérios, ainda que a verdade nos destrua. O homem
de depois de amanhã é ao mesmo tempo Deus e Espectro e vaga oco sobre um
planeta destruído.
A única solução é dormir e a
insônia não deixa.
