Que troço imenso é isso: a vida! A sabedoria popular diz que a gente só entende de fato os pais quando também se torna pai. Alguém discorda? Fui um filho que deu trabalho. Rebelde, roqueiro e raulseixista, vai vendo. Aos dezoito, arranjei uma CB 400 e rasgava as noites do Itaim Paulista para desespero dos meus. Chegava em casa domingo de manhã... A mãe ajoelhada, o pai com o rosto aliviado. Aqui se faz, aqui se paga, não é assim que se diz? Agora, meu menino, que está com doze, é louco por motos e quer porque quer que eu troque meu carrinho popular por uma Hornet. Vou levando, daqui e dali, mas preocupado; com medo de que essa ideia não saia da cabeça dele até completar dezoito. Mesmo o pai ateu reza quando o filho não chega em casa; mesmo o pai ateu se ajoelha para orar com o filho quando ele está com medo da escuridão.
E aí a gente acorda antes do horário e fica olhando os dois dormindo... O coração transbordando, isso não cabe, é grande demais. Vão sofrer, eu sei. Não adianta dar conselho porque a beleza da jornada advém também do sofrimento: o coração quebrado de amor, a insegurança, os amigos que tomam outros rumos. Proteger demais deixa a jornada deles manca. Por outro lado, a liberdade deles acaba com nossos cabelos, estou ficando com umas entradas! Fazê o quê? Posso dar uns toques por ter começado a caminhada antes, mas a palavra só faz sentido quando atravessa a carne. Solto-os sim, mas deixo claro que o ninho vai estar sempre aqui. A gente só entende os pais quando também se torna pai. Enquanto isso, levo o café na cama, faço um pãozinho frito. Gosto de mimá-los, sabe? Agradeço quando confiam em mim. Quando a menina mais velha apaixonada vem pedir a benção para dormir com o namorado. Ser coruja é também ensinar os filhotes a voar, a lutar por justiça. Gosto do João quando acorda e se senta na cama com as pernas cruzadas. Ralho com ele por não querer escovar os dentes. Gosto do rosto engraçado da Sofia quando tem uma ideia; acende-se uma lâmpada assim na testa dela. Ser coruja: aprender a conviver com o medo, não sabe? Tantas aves de rapina pelo mundo! E há tanta violência nas ruas! É preciso pedir a Deus, ao Universo, aos homens que deixem a vida seguir seu ciclo e que eu possa partir antes deles, mas depois de ver ao menos os bisnetos crescidos. No fundo, a gente envelhece, mas não esquece a criança.
Cada instante que passo com meus filhos é um instante de alegria e tristeza. Alegria por estar junto e tristeza por saber que não tem volta. É a tragicomédia da vida sobre a qual só nos resta torcer. Não temos controle de nada, nem dos canais da televisão... Seres híbridos que somos, metade humanos e metade corujas, agradecemos a oportunidade.
domingo, 31 de março de 2019
UM BEATLE NO DIVÃ
A vida é, em si mesma, irônica. George Harrison, o compositor espremido entre John e Paul, fez em carreira solo o melhor disco de todos os ex: All things must pass. Mas não é George aqui, é John (um dos nomes do meu filho é Lennon em homenagem ao Paul😉) e seu primeiro álbum depois do fim d´A banda: Plastic Ono Band.
O disco é o resultado direto da terapia do grito primal e, aqui, John estava acertando contas com o mundo. A primeira canção, Mother, começa com um sino fúnebre e continua com as perguntas ainda mais fúnebres endereçadas à mãe morta, ao pai que ele ficou décadas sem ver e que imaginava tê-lo abandonado. É uma espécie de revisão para se despedir de todas estas dores: “Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você”. “Mamãe não vá! Papai venha para casa!” Aos cinco anos, os pais de John se separaram e, no meio de uma discussão, pediram ao filho, já hipersensível, que escolhesse com qual dos dois queria ficar. Depois de muitas confusões, o menino acabou sendo criado pela tia Mimi, carinhosa mas autoritária. E o garoto era rebelde.
A segunda faixa é a minha preferida, Hold on. Espécie de alívio. Um hino de confiança na vida por ter encontrado Yoko. Aguentem firme, ele diz, tudo vai ficar bem, vamos ver a luz.
A terceira música é um heavy metal, digno do Sabbath, com Jim Keltner espancando a bateria, letra agressiva, vocais irônicos. Phil Collins se inspirou nos vocais de John nesta faixa para cantar Mama. “Eu já te disse para parar com esse papo de irmão, irmão, irmão...” John já não queria saber de gurus e coisas afins. Não queria tapinhas nas costas.
Depois vem Working class hero. Uma canção maneira; mas John, na verdade, era o beatle que tinha uma vida mais confortável financeiramente antes dos Beatles. Era antes um herói da classe média que da operária.
Isolation. Que piano! Todo mundo quer ter um lar.
Remember.
Love: o amor é real.
Well, well, well; um retorno a I found out.
Look at me parece, musicalmente, um diálogo com Julia, do álbum branco. Um convite para ser compreendido.
God: passando as coisas a limpo. Depois dos Rock n´roll, dos anos 60, dos Beatles, Dylan, filosofias esotéricas e lutas o que resta? O amor. É a volta às coisas mesmas. A crença no que é palpável, no amor que se pode tocar, em si e em Yoko. Ateísmo que não renega o amor. Deus é um conceito pelo qual medimos nossas dores. O sonho acabou, o que posso dizer?
John nunca se entendeu muito bem com a mãe. Nutria por ela sentimentos confusos, desejos sexuais inclusive. Quando parecia que os dois estavam se chegando, Julia morreu atropelada, pouco antes de os Beatles decolarem. John engoliu a dor e só em My mummy is dead, mais de dez anos depois, ele canta isso numa faixa gravada toscamente, com voz de menininho abandonado.
Plastic Ono Band, ou um beatle no divã, ou uma alma na bolacha. Proto-punk-metal. Discaralhaço!
O disco é o resultado direto da terapia do grito primal e, aqui, John estava acertando contas com o mundo. A primeira canção, Mother, começa com um sino fúnebre e continua com as perguntas ainda mais fúnebres endereçadas à mãe morta, ao pai que ele ficou décadas sem ver e que imaginava tê-lo abandonado. É uma espécie de revisão para se despedir de todas estas dores: “Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você”. “Mamãe não vá! Papai venha para casa!” Aos cinco anos, os pais de John se separaram e, no meio de uma discussão, pediram ao filho, já hipersensível, que escolhesse com qual dos dois queria ficar. Depois de muitas confusões, o menino acabou sendo criado pela tia Mimi, carinhosa mas autoritária. E o garoto era rebelde.
A segunda faixa é a minha preferida, Hold on. Espécie de alívio. Um hino de confiança na vida por ter encontrado Yoko. Aguentem firme, ele diz, tudo vai ficar bem, vamos ver a luz.
A terceira música é um heavy metal, digno do Sabbath, com Jim Keltner espancando a bateria, letra agressiva, vocais irônicos. Phil Collins se inspirou nos vocais de John nesta faixa para cantar Mama. “Eu já te disse para parar com esse papo de irmão, irmão, irmão...” John já não queria saber de gurus e coisas afins. Não queria tapinhas nas costas.
Depois vem Working class hero. Uma canção maneira; mas John, na verdade, era o beatle que tinha uma vida mais confortável financeiramente antes dos Beatles. Era antes um herói da classe média que da operária.
Isolation. Que piano! Todo mundo quer ter um lar.
Remember.
Love: o amor é real.
Well, well, well; um retorno a I found out.
Look at me parece, musicalmente, um diálogo com Julia, do álbum branco. Um convite para ser compreendido.
God: passando as coisas a limpo. Depois dos Rock n´roll, dos anos 60, dos Beatles, Dylan, filosofias esotéricas e lutas o que resta? O amor. É a volta às coisas mesmas. A crença no que é palpável, no amor que se pode tocar, em si e em Yoko. Ateísmo que não renega o amor. Deus é um conceito pelo qual medimos nossas dores. O sonho acabou, o que posso dizer?
John nunca se entendeu muito bem com a mãe. Nutria por ela sentimentos confusos, desejos sexuais inclusive. Quando parecia que os dois estavam se chegando, Julia morreu atropelada, pouco antes de os Beatles decolarem. John engoliu a dor e só em My mummy is dead, mais de dez anos depois, ele canta isso numa faixa gravada toscamente, com voz de menininho abandonado.
Plastic Ono Band, ou um beatle no divã, ou uma alma na bolacha. Proto-punk-metal. Discaralhaço!
AO EXPLORAR O FUNDO
Sabe, o erro de toda teoria é querer definir. Tal coisa é isso, tal coisa é aquilo. Foi por este motivo que Heidegger, no fim das contas, voltou-se para a Poesia: a palavra poética não rotula, dissolve-se no lugar para onde aponta. Mesmo Guattari, quando trata do inconsciente e o define como usine, faz mal, porque o inconsciente é fábrica, mas também é teatro, como apontou Freud. Nem um, nem outro estão errados e nem um nem outro estão totalmente certos. Há mais de mil camadas submersas, mas cada teórico viu apenas um aspecto; aquele que, por um motivo ou outro, detectou em si mesmo e em seus pacientes. Guattari foi ao esquizo e viu o fluxo incessante. Freud olhou para o neurótico e viu sua própria família. Winnicott olhou para o bebê e viu que o bebê é o bebê mais a mãe, há sempre uma díade e dessa díade o ser emerge. Sloterdijk seguiu a trilha de Winnicott e encontrou, no útero, o feto e a placenta. O inconsciente é sim teatro edipiano, mas também é morada do hábito e da tradição, daquilo que trato como inconsciente positivo não por ser bom, mas por ser plantado e aceito pelo caboclo e sua comunidade. Por outro lado, o inconsciente é também lar dos arquétipos, lençol freático da criatividade. Possui regiões pessoais e coletivas. Quanto mais a gente cava, mais percebe que há coisas lá: formas coloridas, mandalas, anjos placentários, pessoas, sangue, fantasmas, frases inteiras, pulsações, linguagem, mas não só! O inconsciente não é só linguagem! Lugar sem espaço onde o dentro e o fora se tocam. Tanto do Universo quanto do Inconsciente não encontramos o fim, se é que fim há. No lugar mais fundo a que cheguei, encontrei um vazio, um nada-bom, cheio de paz, calma, tranquilidade e, ainda sim, era o nada. Não pode ser traduzido por palavras, só por um suspiro de júbilo. O próprio ato de respirar é poético e não percebemos. Alguns exploradores antigos chamavam de Nirvana ou Deus a este lugar de dissolução que é, ao mesmo tempo, o mais íntimo e o mais exterior... O fundo do ser e o fim do Universo são o mesmo. A alma, meus amigos, é como um ovo; embora possua uma gema mais consistente, as bordas da clara se perdem já em Deus: Omelete; home let.
- NÃO ME DECEPCIONE!
Ela disse e eu fiquei pensando no tamanho dessa encrenca. Como ser humano e conviver com o peso de não poder errar? Quantas vezes eu não me decepcionei comigo mesmo? Pisei na bola. Dei mancada. Prejudiquei a mim e aos outros... Agora teria de viver com a responsabilidade de não decepcionar. Como respirar com tal tensão? Pisaria em ovos enquanto a vida escorreria pelo ralo, isso sim. Ninguém decepciona ninguém: as pessoas é que criam muita expectativa; jogam a responsabilidade de realizar sua jornada nas costas dos outros: "você tem de me fazer feliz!"; mas cada um é responsável pelo seu próprio tempo na Terra: “Ó, a Nana Caymmi, que decepção! Morreu pra mim!” “Está acabada. Que fim triste!” “Vou queimar os discos dela!”. Querer que o outro perca a vida - que é uma só - para fazer a gente feliz é de um egoísmo típico daqueles carrascos que costumam sentir-se vítimas: sobrecarregam o jumento e reclamam quando ele chacoalha: “Que jumentinho mais ingrato!” Como disse o Cazuza: “não sabem amar, ficam esperando alguém que caiba no seu sonho”. A gente precisa aprender a deixar as pessoas ser quem são capazes de ser. Existe o ser humano e existe a natureza e entre eles há o absurdo: a cultura, a política, a competição, a ânsia de imortalidade na Terra ou fora dela. Eu quero é ter as coisas leves: a bolha de sabão que guarda um arco-íris em seu ser, a borboleta que ganhou asas de tanto andar colada ao chão, a luz do sol diferente numa tarde de outono; crianças dependuradas na árvore depois da chuva. De complicado, ganhar o pão com o suor do rosto já é suficiente.
quarta-feira, 20 de março de 2019
EMPODERAMENTO, LUGAR DE FALA E OUTROS QUE TAIS
Nada tenho contra expressões bem intencionadas, mas sou avesso a qualquer tipo de vocabulário que, de um instante para o outro, vira moda. Respeito muito as palavras e creio que nomear uma coisa é também criá-la. A palavra tem a força encantada de criar aquilo que nomeia: no princípio era o Verbo. E, bem, a esta altura do campeonato, eu já não poderia me chamar Roberto, ou Everaldo. Tenho inclusive um amigo chamado Neverton: o qual, por força deste “never”, vive tropeçando pela vida, coitado! Nada que o cara faz funciona. Já tentou ser de tudo: de pizzaiolo a professor. Algo funcionou? NEVER-ton. O nome tem um quê do corvo de Poe: Never more, ton!
Mas por que foi que falei do meu amigo mesmo? Lembrei, as expressões, por vezes bem intencionadas, que viram moda. Sim, não gosto, desde futebol apoiado até empoderamento; essa palavra feia, meio americanizada. Do futebol apoiado melhor nem tratar, mas o empoderamento é simples: trata de tornar um grupo ou alguém poderoso, ou poderosa. E não gosto porque, como diz a canção, o medo de amar é o medo de recusar o poder. Eu creio é no amor e, onde há uma relação de amor, não pode haver poder e vice-versa. Besta é quem pensa que pode controlar o poder. Somos, isso sim, facilmente manipulados por ele. A gente pode tentar apenas restabelecer a autoconfiança de alguém; mas, com o tempo, o poder busca mesmo é o Poder.
E tem também lugar de fala. Para começar, acho que a expressão já exclui a arte, uma vez que a arte é justamente essa possibilidade de dizer com o outro. O artista é aquele que se transforma em tudo: tem mil identidades jogadas sobre o abismo. Deus me livre de ser só isso ou aquilo! E outra coisa, nestes tempos em que há uma tremenda gritaria... um ruído sem fim, mais importante que o lugar de fala seria o lugar silencioso e vazio de escuta. Já ninguém ouve ninguém e, num diálogo, a gente percebe que as pessoas monologam a dois. Aqueles meninos de Suzano gritaram uma dezena de vezes o que estavam prestes a fazer; e ninguém - além dos canalhas - ouviu. De que adianta falar assim? Antes o silêncio que a palavra gasta. O Fascismo acontece quando não nos deixam calar e, de boas intenções, o inferno está cheio. Quase toda censura, tortura, assassinato que aconteceu na história da humanidade foi em nome de um bem maior que pode ser chamado de Fascismo, Revolução, Deus ou Comunismo.
É preciso que a gente esteja sempre atento porque a gente engendra o monstro que combate e, facilmente, pode se transformar nele.
Quando olhamos em demasia para um abismo, o abismo também nos olha. Boa quarta-feira.
Mas por que foi que falei do meu amigo mesmo? Lembrei, as expressões, por vezes bem intencionadas, que viram moda. Sim, não gosto, desde futebol apoiado até empoderamento; essa palavra feia, meio americanizada. Do futebol apoiado melhor nem tratar, mas o empoderamento é simples: trata de tornar um grupo ou alguém poderoso, ou poderosa. E não gosto porque, como diz a canção, o medo de amar é o medo de recusar o poder. Eu creio é no amor e, onde há uma relação de amor, não pode haver poder e vice-versa. Besta é quem pensa que pode controlar o poder. Somos, isso sim, facilmente manipulados por ele. A gente pode tentar apenas restabelecer a autoconfiança de alguém; mas, com o tempo, o poder busca mesmo é o Poder.
E tem também lugar de fala. Para começar, acho que a expressão já exclui a arte, uma vez que a arte é justamente essa possibilidade de dizer com o outro. O artista é aquele que se transforma em tudo: tem mil identidades jogadas sobre o abismo. Deus me livre de ser só isso ou aquilo! E outra coisa, nestes tempos em que há uma tremenda gritaria... um ruído sem fim, mais importante que o lugar de fala seria o lugar silencioso e vazio de escuta. Já ninguém ouve ninguém e, num diálogo, a gente percebe que as pessoas monologam a dois. Aqueles meninos de Suzano gritaram uma dezena de vezes o que estavam prestes a fazer; e ninguém - além dos canalhas - ouviu. De que adianta falar assim? Antes o silêncio que a palavra gasta. O Fascismo acontece quando não nos deixam calar e, de boas intenções, o inferno está cheio. Quase toda censura, tortura, assassinato que aconteceu na história da humanidade foi em nome de um bem maior que pode ser chamado de Fascismo, Revolução, Deus ou Comunismo.
É preciso que a gente esteja sempre atento porque a gente engendra o monstro que combate e, facilmente, pode se transformar nele.
Quando olhamos em demasia para um abismo, o abismo também nos olha. Boa quarta-feira.
segunda-feira, 18 de março de 2019
HEIDEGGER, A TÉCNICA E O ROCK
Há quase cem anos, o filósofo Martin Heidegger já alertava para o problema da técnica. Em termos metafísicos, para o pastor alemão, a própria técnica havia tomado o papel de “sujeito”. Seria, a técnica, como o HAL 9000, a máquina que se rebela no 2001 de Kubrick. Em tal contexto, os papéis estão invertidos e o ser humano passa a ser uma ferramenta nas mãos da técnica: máquina que o mundo domina, grande estrutura devoradora de gente. Para sobreviver, o ser humano precisa se transformar em parafuso, porca, engrenagem. A chave de fenda se volta contra a mão.
Décadas mais tarde, Robert Fripp, guitarrista do King Crimson, alertava para o fato de que mesmo o gênio precisa de uma técnica competente. E é aí que entra a questão central: hierarquia. É preciso dizer a cada coisa qual é seu lugar. O coração vem primeiro e a técnica é a forma pela qual o coração se diz ao mundo. A linha é tênue, sempre se corre o risco de rebelião, porque a técnica é ardilosa e nos pega pela vaidade. O gênio pode fazer uma obra-prima com doze ou dois acordes. Quanto mais domina a técnica, no entanto, mais o artista tem possibilidades tem de fazer o coração ser entendido. Por outro lado, há sempre a tentação do virtuose, do exibicionismo, de mostrar aos outros artistas até onde se pode chegar. Foi nesta pedra que bandas imensas como o Yes tropeçaram. Num determinado momento, deixaram o coração de lado para exibir os músicos excepcionais que eram. Rick Wakeman, tecladista, chegou a comer um frango inteiro em cima do palco, enquanto seu colega Steve Howe fazia um solo de guitarra. Perderam-se, ora pois.
Isso muda o tempo todo, mas hoje eu diria que a canção do século XX é mesmo A Day in the life. Ela tem tudo nos seus devidos lugares. O coração beatle, a letra magistral e surreal, a voz dolorida do John, a leveza do Maca no meio da canção, a orquestra insinuando um apocalipse sonoro sob a batuta de George Martin e, no final, aquele último acorde ao piano que soa por quase um minuto. Nada falta, nada sobra.
O Beatles são o Guimarães Rosa da música.
Décadas mais tarde, Robert Fripp, guitarrista do King Crimson, alertava para o fato de que mesmo o gênio precisa de uma técnica competente. E é aí que entra a questão central: hierarquia. É preciso dizer a cada coisa qual é seu lugar. O coração vem primeiro e a técnica é a forma pela qual o coração se diz ao mundo. A linha é tênue, sempre se corre o risco de rebelião, porque a técnica é ardilosa e nos pega pela vaidade. O gênio pode fazer uma obra-prima com doze ou dois acordes. Quanto mais domina a técnica, no entanto, mais o artista tem possibilidades tem de fazer o coração ser entendido. Por outro lado, há sempre a tentação do virtuose, do exibicionismo, de mostrar aos outros artistas até onde se pode chegar. Foi nesta pedra que bandas imensas como o Yes tropeçaram. Num determinado momento, deixaram o coração de lado para exibir os músicos excepcionais que eram. Rick Wakeman, tecladista, chegou a comer um frango inteiro em cima do palco, enquanto seu colega Steve Howe fazia um solo de guitarra. Perderam-se, ora pois.
Isso muda o tempo todo, mas hoje eu diria que a canção do século XX é mesmo A Day in the life. Ela tem tudo nos seus devidos lugares. O coração beatle, a letra magistral e surreal, a voz dolorida do John, a leveza do Maca no meio da canção, a orquestra insinuando um apocalipse sonoro sob a batuta de George Martin e, no final, aquele último acorde ao piano que soa por quase um minuto. Nada falta, nada sobra.
O Beatles são o Guimarães Rosa da música.
domingo, 17 de março de 2019
QUANDO MORREMOS, QUANDO NOS MATAM E QUANDO MATAMOS
Picasso dizia ter demorado a vida inteira para aprender a pintar como criança. Foi preciso passar pela pintura figurativa, pelo cubismo, as fases rosa, azul, etc, etc, etc... para, por fim, aprender a ser livre. A coisa estava lá desde o começo, mas foi preciso um longo círculo para poder voltar à casa onde nasceu. Com a palavra, o mesmo se dá. A gente tagarela e escreve a vida inteira para aprender a habitar o silêncio. Foi por isso que Belchior fugiu para o Uruguai. Deixou atrás de si família, casa, carro, a tradução da Divina Comédia e foi ser no Uruguai, com a porra do Fantástico atrás😡. Era um ensaio. Estava aprendendo a morrer. Quando a gente morre, deixa tudo aí: fama, grana, casa, carro, obra. Então, para que correr?
Eu estou apenas dormindo.
Quando nos matam, por outro lado, ainda não tomamos a lição do silêncio. A frase fica interrompida. Matam para nos calar; porque aquilo que a gente diz incomoda. Foi o que aconteceu com a Marielle. E por que incomoda tanta gente falar de Marielle? Porque uma Marielle incomoda muita gente; mil Marielles incomodam, incomodam, incomodam muito mais. O tiro saiu pela culatra, uma vez que todos aqueles que comiam do mesmo pão que a menina negra tomaram para si a palavra que ela foi impedida de dizer. Os assassinados já não ficam em silêncio, mas falam pela boca dos vivos. É Lorca hoje em cada menino da Andaluzia com camisa do Barça. É Marielle no sarau da periferia.
E agora penso nos que matam. Essa semana aconteceu aqui e na Oceania. Muitos matam porque sentem dor e a dor, quando não há arte por perto, pode se transformar em ódio ou agressão. Tipo assim: “ninguém liga para o meu sofrimento, minha avó morreu, minha mãe fuma pedra, meu pai não quer saber, por que devo me preocupar com os sofrimentos dos gays, das mulheres, dos negros, de qualquer outro? Se sou invisível, por que dar visibilidade a dor deles? Antes espalhar a morte! Se não posso ser herói, que me deixem ao menos ser vilão. Fazer do assassinato uma obra de arte! Deixar no mundo uma ferida como a minha!” Um ouvido - o reconhecimento de que a pereba doía - teria impedido dez mortes em Suzano. Shakespeare no beco. Quando maltratamos nosso organismo, é normal surgirem pústulas, erupções cutâneas; quando a humanidade se maltrata, surgem os assassinatos em massa. Doença autoimune que está muito longe de alcançar a cura. Aquele que mata e aquele que morre são duas faces do mesmo ser. Quanto a mim, amar e mudar as coisas me interessa mais.
Eu estou apenas dormindo.
Quando nos matam, por outro lado, ainda não tomamos a lição do silêncio. A frase fica interrompida. Matam para nos calar; porque aquilo que a gente diz incomoda. Foi o que aconteceu com a Marielle. E por que incomoda tanta gente falar de Marielle? Porque uma Marielle incomoda muita gente; mil Marielles incomodam, incomodam, incomodam muito mais. O tiro saiu pela culatra, uma vez que todos aqueles que comiam do mesmo pão que a menina negra tomaram para si a palavra que ela foi impedida de dizer. Os assassinados já não ficam em silêncio, mas falam pela boca dos vivos. É Lorca hoje em cada menino da Andaluzia com camisa do Barça. É Marielle no sarau da periferia.
E agora penso nos que matam. Essa semana aconteceu aqui e na Oceania. Muitos matam porque sentem dor e a dor, quando não há arte por perto, pode se transformar em ódio ou agressão. Tipo assim: “ninguém liga para o meu sofrimento, minha avó morreu, minha mãe fuma pedra, meu pai não quer saber, por que devo me preocupar com os sofrimentos dos gays, das mulheres, dos negros, de qualquer outro? Se sou invisível, por que dar visibilidade a dor deles? Antes espalhar a morte! Se não posso ser herói, que me deixem ao menos ser vilão. Fazer do assassinato uma obra de arte! Deixar no mundo uma ferida como a minha!” Um ouvido - o reconhecimento de que a pereba doía - teria impedido dez mortes em Suzano. Shakespeare no beco. Quando maltratamos nosso organismo, é normal surgirem pústulas, erupções cutâneas; quando a humanidade se maltrata, surgem os assassinatos em massa. Doença autoimune que está muito longe de alcançar a cura. Aquele que mata e aquele que morre são duas faces do mesmo ser. Quanto a mim, amar e mudar as coisas me interessa mais.
sexta-feira, 15 de março de 2019
DOCE DE CHUPAR
Prefiro teu grelo a uma colher de doce de leite
Beijo a cereja e com a ponta da língua dou voltas ao redor da fonte
Quando suamos, Pandora,
Não sei mais quem é cavalo
E quem cavaleiro
Quem é dominado
E quem dominador
Não sei sequer onde tu terminas e eu começo
Já não posso dizer meu nome
O mundo lá fora tritura criancinhas
Vá agora,
Mas volte com carinho,
Pois quando eu ligar a máquina celibatária,
Estarei mais distante de Deus.
Beijo a cereja e com a ponta da língua dou voltas ao redor da fonte
Quando suamos, Pandora,
Não sei mais quem é cavalo
E quem cavaleiro
Quem é dominado
E quem dominador
Não sei sequer onde tu terminas e eu começo
Já não posso dizer meu nome
O mundo lá fora tritura criancinhas
Vá agora,
Mas volte com carinho,
Pois quando eu ligar a máquina celibatária,
Estarei mais distante de Deus.
segunda-feira, 11 de março de 2019
A Maldade já vimos demais - 1
"A ânsia pelo reconhecimento de outros homens, os
Linton, o próprio Hindley Earnshaw, a
dor de ser preterido por pena... Tudo isso desperta a ira. O menino cigano
exige ser reconhecido como um igual, mas quando os interpelados se recusam
a passar por essa prova, precisarão se confrontar com a ira daquele que
apresentou a exigência. “Em ofensas que adoecem, a vingança é certamente a
melhor terapia”. Daí para
a frente, Heathcliff já não será um ser humano, mas um destino, UMA VINGANÇA."
Trecho de um artigo sobre o romance O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, publicado na revista Filosofia, Ciência e Vida. Para ler, clique aqui:
segunda-feira, 4 de março de 2019
SHE´S LEAVING HOME
(para Matheus Lopes)
Com o tempo a gente deixa de procurar culpados e, por conseguinte, deixa de se culpar também. A gente percebe que todo mundo age meio cego. Não existe mapa para a vida, tampouco há a possibilidade de passar o rascunho a limpo. Claro, há o livre arbítrio, mas ele atua apenas na nossa parte consciente que é menos que o topo do iceberg. Agindo no fundo, há as forças poderosas dos dois inconscientes, o positivo e o negativo. No inconsciente positivo: nossas crenças, hábitos, a cultura na qual nascemos; no inconsciente negativo: o que não podemos aceitar em nós, o que não cabe na nossa formatação. E, para além de tudo isso, o inequacionável, o que não tem nome e não se deixa dizer. Às vezes, temos até boas intenções, mas ficamos à mercê de forças poderosas, ancientes, transgeracionais (E aqui deixo uma pergunta: como podemos ter uma ação política positiva sem antes compreendermos nossas mais profundas contradições?). Amadurecer tem pouco a ver com idade, passa pelo processo de olhar fundo na gente e trazer à luz essas forças que guiam nossos passos nas sombras. Quanto mais integramos a luz e as sombras, mais agimos de forma harmoniosa, mas não é um processo fácil; nem indolor. Lembro da primeira vez que compreendi She´s leaving home, dos Beatles, e realizei que o que há de mais belo nela é o fato de dar o mesmo peso ao canto de Paul e ao contracanto de John. Os dois lados não se entendem e ambos têm razão. De um lado ouvimos o coração da filha fugindo da casa onde viveu solitária e incompreendida por tantos anos. Do outro lado, na voz dolorida de John, temos os pais, provavelmente de origem humilde como os próprios meninos da banda, que sacrificaram tudo para dar conforto financeiro à filha, mas negligenciaram o substancial: compreensão. Não há culpados. Na vida, é assim... Os pais são tão crianças quanto os filhos e do mesmo modo estão desamparados: “Daddy, our baby is gone”- grita a mãe: “How could she do this to me?”
É bom ter tempo de perdoar e fazer as pazes. Os mais velhos “são crianças como você, o que você vai ser quando crescer.”
Os Beatles deram à massa o biscoito mais fino já produzido.
Com o tempo a gente deixa de procurar culpados e, por conseguinte, deixa de se culpar também. A gente percebe que todo mundo age meio cego. Não existe mapa para a vida, tampouco há a possibilidade de passar o rascunho a limpo. Claro, há o livre arbítrio, mas ele atua apenas na nossa parte consciente que é menos que o topo do iceberg. Agindo no fundo, há as forças poderosas dos dois inconscientes, o positivo e o negativo. No inconsciente positivo: nossas crenças, hábitos, a cultura na qual nascemos; no inconsciente negativo: o que não podemos aceitar em nós, o que não cabe na nossa formatação. E, para além de tudo isso, o inequacionável, o que não tem nome e não se deixa dizer. Às vezes, temos até boas intenções, mas ficamos à mercê de forças poderosas, ancientes, transgeracionais (E aqui deixo uma pergunta: como podemos ter uma ação política positiva sem antes compreendermos nossas mais profundas contradições?). Amadurecer tem pouco a ver com idade, passa pelo processo de olhar fundo na gente e trazer à luz essas forças que guiam nossos passos nas sombras. Quanto mais integramos a luz e as sombras, mais agimos de forma harmoniosa, mas não é um processo fácil; nem indolor. Lembro da primeira vez que compreendi She´s leaving home, dos Beatles, e realizei que o que há de mais belo nela é o fato de dar o mesmo peso ao canto de Paul e ao contracanto de John. Os dois lados não se entendem e ambos têm razão. De um lado ouvimos o coração da filha fugindo da casa onde viveu solitária e incompreendida por tantos anos. Do outro lado, na voz dolorida de John, temos os pais, provavelmente de origem humilde como os próprios meninos da banda, que sacrificaram tudo para dar conforto financeiro à filha, mas negligenciaram o substancial: compreensão. Não há culpados. Na vida, é assim... Os pais são tão crianças quanto os filhos e do mesmo modo estão desamparados: “Daddy, our baby is gone”- grita a mãe: “How could she do this to me?”
É bom ter tempo de perdoar e fazer as pazes. Os mais velhos “são crianças como você, o que você vai ser quando crescer.”
Os Beatles deram à massa o biscoito mais fino já produzido.
domingo, 3 de março de 2019
A MÚSICA E A MÍSTICA
Vida e morte são uma coisa só
Não se opõem, antes se seguem: vidamortevida
Tudo o que se manifesta, vela por igual uma face sombria
A frivolidade, no entanto, evita as sombras
A terra toma do céu sua lei
E o homem faz da terra seu guia
A rota para aquele que almeja tornar-se o céu
É deitar raízes profundas
E, calmo, guardar o caminho
Enquanto brotos e filhotes brincam ao sol.
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