domingo, 31 de março de 2019

PAI CORUJA

Que troço imenso é isso: a vida! A sabedoria popular diz que a gente só entende de fato os pais quando também se torna pai. Alguém discorda? Fui um filho que deu trabalho. Rebelde, roqueiro e raulseixista, vai vendo. Aos dezoito, arranjei uma CB 400 e rasgava as noites do Itaim Paulista para desespero dos meus. Chegava em casa domingo de manhã... A mãe ajoelhada, o pai com o rosto aliviado. Aqui se faz, aqui se paga, não é assim que se diz? Agora, meu menino, que está com doze, é louco por motos e quer porque quer que eu troque meu carrinho popular por uma Hornet. Vou levando, daqui e dali, mas preocupado; com medo de que essa ideia não saia da cabeça dele até completar dezoito. Mesmo o pai ateu reza quando o filho não chega em casa; mesmo o pai ateu se ajoelha para orar com o filho quando ele está com medo da escuridão.
E aí a gente acorda antes do horário e fica olhando os dois dormindo... O coração transbordando, isso não cabe, é grande demais. Vão sofrer, eu sei. Não adianta dar conselho porque a beleza da jornada advém também do sofrimento: o coração quebrado de amor, a insegurança, os amigos que tomam outros rumos. Proteger demais deixa a jornada deles manca. Por outro lado, a liberdade deles acaba com nossos cabelos, estou ficando com umas entradas! Fazê o quê? Posso dar uns toques por ter começado a caminhada antes, mas a palavra só faz sentido quando atravessa a carne. Solto-os sim, mas deixo claro que o ninho vai estar sempre aqui. A gente só entende os pais quando também se torna pai. Enquanto isso, levo o café na cama, faço um pãozinho frito. Gosto de mimá-los, sabe? Agradeço quando confiam em mim. Quando a menina mais velha apaixonada vem pedir a benção para dormir com o namorado. Ser coruja é também ensinar os filhotes a voar, a lutar por justiça. Gosto do João quando acorda e se senta na cama com as pernas cruzadas. Ralho com ele por não querer escovar os dentes. Gosto do rosto engraçado da Sofia quando tem uma ideia; acende-se uma lâmpada assim na testa dela. Ser coruja: aprender a conviver com o medo, não sabe? Tantas aves de rapina pelo mundo! E há tanta violência nas ruas! É preciso pedir a Deus, ao Universo, aos homens que deixem a vida seguir seu ciclo e que eu possa partir antes deles, mas depois de ver ao menos os bisnetos crescidos. No fundo, a gente envelhece, mas não esquece a criança.
Cada instante que passo com meus filhos é um instante de alegria e tristeza. Alegria por estar junto e tristeza por saber que não tem volta. É a tragicomédia da vida sobre a qual só nos resta torcer. Não temos controle de nada, nem dos canais da televisão... Seres híbridos que somos, metade humanos e metade corujas, agradecemos a oportunidade.

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