segunda-feira, 4 de março de 2019

SHE´S LEAVING HOME

(para Matheus Lopes)
Com o tempo a gente deixa de procurar culpados e, por conseguinte, deixa de se culpar também. A gente percebe que todo mundo age meio cego. Não existe mapa para a vida, tampouco há a possibilidade de passar o rascunho a limpo. Claro, há o livre arbítrio, mas ele atua apenas na nossa parte consciente que é menos que o topo do iceberg. Agindo no fundo, há as forças poderosas dos dois inconscientes, o positivo e o negativo. No inconsciente positivo: nossas crenças, hábitos, a cultura na qual nascemos; no inconsciente negativo: o que não podemos aceitar em nós, o que não cabe na nossa formatação. E, para além de tudo isso, o inequacionável, o que não tem nome e não se deixa dizer. Às vezes, temos até boas intenções, mas ficamos à mercê de forças poderosas, ancientes, transgeracionais (E aqui deixo uma pergunta: como podemos ter uma ação política positiva sem antes compreendermos nossas mais profundas contradições?). Amadurecer tem pouco a ver com idade, passa pelo processo de olhar fundo na gente e trazer à luz essas forças que guiam nossos passos nas sombras. Quanto mais integramos a luz e as sombras, mais agimos de forma harmoniosa, mas não é um processo fácil; nem indolor. Lembro da primeira vez que compreendi She´s leaving home, dos Beatles, e realizei que o que há de mais belo nela é o fato de dar o mesmo peso ao canto de Paul e ao contracanto de John. Os dois lados não se entendem e ambos têm razão. De um lado ouvimos o coração da filha fugindo da casa onde viveu solitária e incompreendida por tantos anos. Do outro lado, na voz dolorida de John, temos os pais, provavelmente de origem humilde como os próprios meninos da banda, que sacrificaram tudo para dar conforto financeiro à filha, mas negligenciaram o substancial: compreensão. Não há culpados. Na vida, é assim... Os pais são tão crianças quanto os filhos e do mesmo modo estão desamparados: “Daddy, our baby is gone”- grita a mãe: “How could she do this to me?”
É bom ter tempo de perdoar e fazer as pazes. Os mais velhos “são crianças como você, o que você vai ser quando crescer.”
Os Beatles deram à massa o biscoito mais fino já produzido.


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