domingo, 31 de março de 2019
AO EXPLORAR O FUNDO
Sabe, o erro de toda teoria é querer definir. Tal coisa é isso, tal coisa é aquilo. Foi por este motivo que Heidegger, no fim das contas, voltou-se para a Poesia: a palavra poética não rotula, dissolve-se no lugar para onde aponta. Mesmo Guattari, quando trata do inconsciente e o define como usine, faz mal, porque o inconsciente é fábrica, mas também é teatro, como apontou Freud. Nem um, nem outro estão errados e nem um nem outro estão totalmente certos. Há mais de mil camadas submersas, mas cada teórico viu apenas um aspecto; aquele que, por um motivo ou outro, detectou em si mesmo e em seus pacientes. Guattari foi ao esquizo e viu o fluxo incessante. Freud olhou para o neurótico e viu sua própria família. Winnicott olhou para o bebê e viu que o bebê é o bebê mais a mãe, há sempre uma díade e dessa díade o ser emerge. Sloterdijk seguiu a trilha de Winnicott e encontrou, no útero, o feto e a placenta. O inconsciente é sim teatro edipiano, mas também é morada do hábito e da tradição, daquilo que trato como inconsciente positivo não por ser bom, mas por ser plantado e aceito pelo caboclo e sua comunidade. Por outro lado, o inconsciente é também lar dos arquétipos, lençol freático da criatividade. Possui regiões pessoais e coletivas. Quanto mais a gente cava, mais percebe que há coisas lá: formas coloridas, mandalas, anjos placentários, pessoas, sangue, fantasmas, frases inteiras, pulsações, linguagem, mas não só! O inconsciente não é só linguagem! Lugar sem espaço onde o dentro e o fora se tocam. Tanto do Universo quanto do Inconsciente não encontramos o fim, se é que fim há. No lugar mais fundo a que cheguei, encontrei um vazio, um nada-bom, cheio de paz, calma, tranquilidade e, ainda sim, era o nada. Não pode ser traduzido por palavras, só por um suspiro de júbilo. O próprio ato de respirar é poético e não percebemos. Alguns exploradores antigos chamavam de Nirvana ou Deus a este lugar de dissolução que é, ao mesmo tempo, o mais íntimo e o mais exterior... O fundo do ser e o fim do Universo são o mesmo. A alma, meus amigos, é como um ovo; embora possua uma gema mais consistente, as bordas da clara se perdem já em Deus: Omelete; home let.
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