Picasso dizia ter demorado a vida inteira para aprender a pintar como criança. Foi preciso passar pela pintura figurativa, pelo cubismo, as fases rosa, azul, etc, etc, etc... para, por fim, aprender a ser livre. A coisa estava lá desde o começo, mas foi preciso um longo círculo para poder voltar à casa onde nasceu. Com a palavra, o mesmo se dá. A gente tagarela e escreve a vida inteira para aprender a habitar o silêncio. Foi por isso que Belchior fugiu para o Uruguai. Deixou atrás de si família, casa, carro, a tradução da Divina Comédia e foi ser no Uruguai, com a porra do Fantástico atrás😡. Era um ensaio. Estava aprendendo a morrer. Quando a gente morre, deixa tudo aí: fama, grana, casa, carro, obra. Então, para que correr?
Eu estou apenas dormindo.
Quando nos matam, por outro lado, ainda não tomamos a lição do silêncio. A frase fica interrompida. Matam para nos calar; porque aquilo que a gente diz incomoda. Foi o que aconteceu com a Marielle. E por que incomoda tanta gente falar de Marielle? Porque uma Marielle incomoda muita gente; mil Marielles incomodam, incomodam, incomodam muito mais. O tiro saiu pela culatra, uma vez que todos aqueles que comiam do mesmo pão que a menina negra tomaram para si a palavra que ela foi impedida de dizer. Os assassinados já não ficam em silêncio, mas falam pela boca dos vivos. É Lorca hoje em cada menino da Andaluzia com camisa do Barça. É Marielle no sarau da periferia.
E agora penso nos que matam. Essa semana aconteceu aqui e na Oceania. Muitos matam porque sentem dor e a dor, quando não há arte por perto, pode se transformar em ódio ou agressão. Tipo assim: “ninguém liga para o meu sofrimento, minha avó morreu, minha mãe fuma pedra, meu pai não quer saber, por que devo me preocupar com os sofrimentos dos gays, das mulheres, dos negros, de qualquer outro? Se sou invisível, por que dar visibilidade a dor deles? Antes espalhar a morte! Se não posso ser herói, que me deixem ao menos ser vilão. Fazer do assassinato uma obra de arte! Deixar no mundo uma ferida como a minha!” Um ouvido - o reconhecimento de que a pereba doía - teria impedido dez mortes em Suzano. Shakespeare no beco. Quando maltratamos nosso organismo, é normal surgirem pústulas, erupções cutâneas; quando a humanidade se maltrata, surgem os assassinatos em massa. Doença autoimune que está muito longe de alcançar a cura. Aquele que mata e aquele que morre são duas faces do mesmo ser. Quanto a mim, amar e mudar as coisas me interessa mais.
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