A vida é, em si mesma, irônica. George Harrison, o compositor espremido entre John e Paul, fez em carreira solo o melhor disco de todos os ex: All things must pass. Mas não é George aqui, é John (um dos nomes do meu filho é Lennon em homenagem ao Paul😉) e seu primeiro álbum depois do fim d´A banda: Plastic Ono Band.
O disco é o resultado direto da terapia do grito primal e, aqui, John estava acertando contas com o mundo. A primeira canção, Mother, começa com um sino fúnebre e continua com as perguntas ainda mais fúnebres endereçadas à mãe morta, ao pai que ele ficou décadas sem ver e que imaginava tê-lo abandonado. É uma espécie de revisão para se despedir de todas estas dores: “Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você”. “Mamãe não vá! Papai venha para casa!” Aos cinco anos, os pais de John se separaram e, no meio de uma discussão, pediram ao filho, já hipersensível, que escolhesse com qual dos dois queria ficar. Depois de muitas confusões, o menino acabou sendo criado pela tia Mimi, carinhosa mas autoritária. E o garoto era rebelde.
A segunda faixa é a minha preferida, Hold on. Espécie de alívio. Um hino de confiança na vida por ter encontrado Yoko. Aguentem firme, ele diz, tudo vai ficar bem, vamos ver a luz.
A terceira música é um heavy metal, digno do Sabbath, com Jim Keltner espancando a bateria, letra agressiva, vocais irônicos. Phil Collins se inspirou nos vocais de John nesta faixa para cantar Mama. “Eu já te disse para parar com esse papo de irmão, irmão, irmão...” John já não queria saber de gurus e coisas afins. Não queria tapinhas nas costas.
Depois vem Working class hero. Uma canção maneira; mas John, na verdade, era o beatle que tinha uma vida mais confortável financeiramente antes dos Beatles. Era antes um herói da classe média que da operária.
Isolation. Que piano! Todo mundo quer ter um lar.
Remember.
Love: o amor é real.
Well, well, well; um retorno a I found out.
Look at me parece, musicalmente, um diálogo com Julia, do álbum branco. Um convite para ser compreendido.
God: passando as coisas a limpo. Depois dos Rock n´roll, dos anos 60, dos Beatles, Dylan, filosofias esotéricas e lutas o que resta? O amor. É a volta às coisas mesmas. A crença no que é palpável, no amor que se pode tocar, em si e em Yoko. Ateísmo que não renega o amor. Deus é um conceito pelo qual medimos nossas dores. O sonho acabou, o que posso dizer?
John nunca se entendeu muito bem com a mãe. Nutria por ela sentimentos confusos, desejos sexuais inclusive. Quando parecia que os dois estavam se chegando, Julia morreu atropelada, pouco antes de os Beatles decolarem. John engoliu a dor e só em My mummy is dead, mais de dez anos depois, ele canta isso numa faixa gravada toscamente, com voz de menininho abandonado.
Plastic Ono Band, ou um beatle no divã, ou uma alma na bolacha. Proto-punk-metal. Discaralhaço!
domingo, 31 de março de 2019
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