Há quase cem anos, o filósofo Martin Heidegger já alertava para o problema da técnica. Em termos metafísicos, para o pastor alemão, a própria técnica havia tomado o papel de “sujeito”. Seria, a técnica, como o HAL 9000, a máquina que se rebela no 2001 de Kubrick. Em tal contexto, os papéis estão invertidos e o ser humano passa a ser uma ferramenta nas mãos da técnica: máquina que o mundo domina, grande estrutura devoradora de gente. Para sobreviver, o ser humano precisa se transformar em parafuso, porca, engrenagem. A chave de fenda se volta contra a mão.
Décadas mais tarde, Robert Fripp, guitarrista do King Crimson, alertava para o fato de que mesmo o gênio precisa de uma técnica competente. E é aí que entra a questão central: hierarquia. É preciso dizer a cada coisa qual é seu lugar. O coração vem primeiro e a técnica é a forma pela qual o coração se diz ao mundo. A linha é tênue, sempre se corre o risco de rebelião, porque a técnica é ardilosa e nos pega pela vaidade. O gênio pode fazer uma obra-prima com doze ou dois acordes. Quanto mais domina a técnica, no entanto, mais o artista tem possibilidades tem de fazer o coração ser entendido. Por outro lado, há sempre a tentação do virtuose, do exibicionismo, de mostrar aos outros artistas até onde se pode chegar. Foi nesta pedra que bandas imensas como o Yes tropeçaram. Num determinado momento, deixaram o coração de lado para exibir os músicos excepcionais que eram. Rick Wakeman, tecladista, chegou a comer um frango inteiro em cima do palco, enquanto seu colega Steve Howe fazia um solo de guitarra. Perderam-se, ora pois.
Isso muda o tempo todo, mas hoje eu diria que a canção do século XX é mesmo A Day in the life. Ela tem tudo nos seus devidos lugares. O coração beatle, a letra magistral e surreal, a voz dolorida do John, a leveza do Maca no meio da canção, a orquestra insinuando um apocalipse sonoro sob a batuta de George Martin e, no final, aquele último acorde ao piano que soa por quase um minuto. Nada falta, nada sobra.
O Beatles são o Guimarães Rosa da música.
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