terça-feira, 19 de novembro de 2019

O DIA MAIS FRIO DO ANO

VANDRÉ: Às vezes ainda tenho vontade de ligar pra me desculpar ou ofender, mas é inútil. Fiz de tudo que estava ao meu alcance, empenhei meu mundo e mais: apresentei-te minhas amigas do sagrado feminino, levei-te às reuniões do coletivo, ao meu restaurante vegano favorito, aos protestos por Lula livre, por um país melhor e até frequentei sozinho todas as reuniões para desconstrução da masculinidade tóxica - fiz de tudo pra evitar o mansplaining e o manterrupt; ainda assim, ó Manuela, tu me deixaste no dia mais frio do ano, por um... um... um bolsominion, argh; o qual, por pura maldade, ainda comeu todo meu pudim de leite condensado de soja que estava na geladeira. Não tens ideia do quanto me dói ver tuas fotos no rodeio de Barretos, fazendo arminha com as mãos, ao lado dele.
MANUELA: Nada pessoal, Vandré, é que você me dava nos nervos, querido! Até pra lavar louça tinha discurso, embasamento teórico e citação filosófica, um saco! E tudo era uma questão política e tals: o patriarcado. E quando, por acaso, eu inventava de ler um poema, tu citava uma porra de uma escritora negra, ou indígena desconhecida. Já passou pela sua cabeça que a poeta pode ser mulher, negra, anã, lésbica e perneta e, ainda assim, escrever mal? Tudo tinha de ser por uma minoria, molecular, marginalizada. Todo esse papo furado mudou o quê? E tem mais, gosto é de homem com pegada na cama, não tenho paciência pra minúcias. Teu sagrado masculino era lento feito o Suplicy. Enquanto a gente acampava nas maiores roubadas, ele me hospeda nos melhores hotéis; enquanto tu me davas miçangas, ele me presenteia com diamantes. Algumas mulheres querem é segurança e, quanto ao seu pudim vegano, você tem ideia de quantas aves e javaporcos são mortos para preservar um único campo de soja?

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