sexta-feira, 13 de setembro de 2019

CRIAR

 Criar os filhos exige sempre soluções novas, porque o mundo cada vez muda mais depressa; e nós também somos mudança sobre a mutação. Os paradigmas tornam-se líquidos. Não podemos tentar criar nossos filhos – EXATAMENTE - do mesmo modo como fomos criados, há aí um abismo hermenêutico; seria o mesmo que tentar tocar uma fita k7 no celular. Claro, os pilares éticos provavelmente serão os mesmos; são heranças culturais e o ninho faz o pássaro. Por outro lado, ser pai ou mãe... hoje exige que sejamos cada vez mais artistas, mais originais na solução dos problemas que a paternidade nos traz. As crianças já não se contentam com respostas evasivas ou o argumento de autoridade; o que elas querem antes de tudo é a sinceridade. Às vezes, os pais podem pensar que, uma vez que não tiverem todas as respostas, serão desautorizados; mas criar é um ato conjunto entre nós e eles; trata-se de um fazer coletivo da vida e as repostas surgem na relação dialógica, no entre. Esse é também o grande barato de ser pai; o trabalho é que nos ensina. A gente se inventa enquanto é. A mãe surge com o bebê. O pai surge com o bebê. É automático. Todo um novo conjunto de sentimentos floresce em nosso coração assim que vemos o embrulhinho sair do ventre; no caso da mãe, acho que já na gestação. De algum modo, sabemos que nunca mais seremos os mesmos. Perdemos inclusive a liberdade de sermos autodestrutivos. Sobre não se importar com a opinião alheia, aprendo muito com o João. Sobre como conduzir minha vida financeira e emocional, aprendo com a virginiana Sofia. Acho que eles também aprendem comigo, muito mais pelo modo como sou do que pelo digo. Ambos valorizam a amizade - sem esse papo de que amigo só Jesus -, os dois respeitam e amam os animais, gostam de arte; embora o João, entrando na adolescência, agora queira estabelecer sua identidade pelo contra. Natural. Vou dizer uma coisa: na maioria dos conflitos que tivemos, os dois lados estavam certos e errados ao mesmo tempo. Eu podia ter razão, mas errei ao tentar impor. Os pais têm a mania de achar que têm razão porque nasceram antes. Isso pode gerar facilmente na gente o microfascismo e, quando um fecha a porta ao diálogo, o outro também fecha. Boa parte dos conflitos, e aqui não falo só sobre a relação entre pais e filhos, ocorre não porque queremos convencer o outro a enxergar as coisas como vemos, mas porque o ego quer se regozijar por ter razão. Os pais também têm egos, pois é. Enfim, é um trampo difícil porque não há mapas, fórmulas, ou garantias. No meu caso, tento de tudo e, quando nada mais funciona, aposto no amor: solvente que dilui a raiva, a mágoa, o ressentimento, a incompreensão, a tristeza, o medo, o___________
Setembro chegou, uai. Vem aí a primavera.

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