O que eu vendia era morte, Senhora sabe, mas também era sonho, serenidade, sorriso, som de passarim no mato de manhã... Fim feito colo de mãe; menino entrado no riacho; mocita recebendo regla primeira. De negócio não entendo e de trabalho não gosto. De meu feitio é entrar n’água, qualquer filete já me cura um pouco. E, nas Minas, subia nos morro e olhava o imenso. É Deus, num sabe, aquilo que não cabe na gente, extravasa: tantão de tão; Imens...idades. Quando vem o Mayor é ansim, com pézim de bailarina, como quem não quer, e é sol se pondo, avermelhando, u’as nuvem, azul de dez diferenças: o sol. Parecia que não era nada e então é lágrima que corre porque é boniteza demais pra pele de menos: o sol. E é Deus-menino pregando peça, tecendo beleza no céu e derramando do coração da gente: o sol. Eu queria era ser livre e olha onde vim. Qualquer maneira, quando a gente caminha na beira, não tapa o sol com a. Eu penso é que tudo é Deus espalhado: cheiro de cravo, calor de canela, passarim, joaninha, cheiro de erva, a folhinha que morre quieta entre as pedras do rio; mãe minha fofocando na janela e a música que tocava no meu radim de madrugada. Vou dizer, Senhora, eu descolava da vida quando a solidão vinha morar ni mim. Doía tanto que eu nem sabia respirar; que dirá dizer a outrem. Falar? Falo. Primeira coisa que vier? Pois é nome próprio: Mariana. Mariana-mulher, massa do pão e luz do suor. Conto. Tinha u’a menina cuja graça era Sandra e eu gostava dela de muito. Sim. Mas não dizia, porque tinha medo. Uma vez, comprei bombom, mas não dei. Era amor de menino, puro que nem mel quando gente aperta a colmeia entre as mãos lavadas. Eu tinha amigo, nome não digo. Amigo meu devera. Era carne e unha, unha e carne. Onde um parava, outro demorava. Pois eu amava a menina e não dizia porque. Tímido? Sim, até hoje quando não conheço e onde tem gente demais. Fico sem jeito. Enfim, gente estudava tudo junto e Sandra, no fim, se-enamorou-se foi desse amigo meu. Perderam junto a virgindade. E eu? Fiquei chorando só, de madrugada, doendo, criando bolha no coração, ouvindo rádio romântico. Meu amor e amigo meu; meu destino em solidão. Óia, hã. Sei que pegaram namoro e garraram andar de mão dada pela rua. Meninada bulia comigo. Menino sente pena não. Por despeito, fui pra zona, levado por patrão meu. Moço novo, dono da padaria onde eu vendia sonho nessa época. É aí que entra Mariana.
- É cabaço – disse a Dona – e cabacim assim quem quebra é Mariana.
Tinha idade mesma; ou quase.
- Vou cuidar de você. – E me abraçou pelada, cobra di vrido. E, se Deus fez coisa melhor que corpo de mulher, esqueceu de pôr no mundo. – Vou te ensinar o amor. – E foi, Mari-mariana.
Saudade, sim.
Que foi feito da casa de nossa infância, Senhora?
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