sábado, 28 de setembro de 2019

ENQUANTO A PALHA PESA IN



Sabe, senhora, sempre sobra alguma coisa: álbum de retrato, lembrança, filho adolescente, gato vagabundo, cachorro tomba-lata deitado ao sol. Vi uma veiz: mei da rodovia, o homem parou auto, abriu a porta e soltou; no nada - nonada - fora do azul; um cachorrão grandão; bom-bonito, fiável. Adespois, fechou, deu partida e se-foi-se. O bichim, tadim, saiu correndo atrás, à toda. Deu conta não. Correu inté onde. E, daí, parou, carro à vera e caminhão de para-choque duro alderedor; olho-de-bicho-em-desespero, sem entender... suzim, sem dono, no aberto: eu.
Eu, às vezes, m’identifico-me co’milho; e, numinoso, reganho meus dente ao sol. Outras, sou o espantaio e, braços abertos, qual Cristo sangrando dessagrado, n’entrada do campo, esbarro quem quer conhecer meu interior. Indassim, urubu faz ninho no chapéu, enquanto a palha pesa in. Sobrosso, senhora! Condição de pólo. E tudo na vida é milagroso.E tudo na vida é tão banal.
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