quarta-feira, 1 de julho de 2020
O OUTRO NOME DE DEUS
Não sei quem disse que, não importa qual é a pergunta, o amor é a resposta. Há um Amor imenso conduzindo a órbita dos astros, as gotas de chuva, a fila de formigas. Há Amor na flor que desabrocha, na gata fazendo ninho em meu colo, na canção que ouço no rádio; há Amor até na ferida, na catástrofe, na tragédia. O amor que dedicamos uns aos outros é como gota deste oceano de Amor, como brasa que cai fora da fogueira e anseia voltar. Há dois desejos, o meu: mundano, egóico; e o de minha alma, que só quer doar e se dissolver no Amor. No Amor, já não existem a ganância, a inveja, o ciúme; não existe sequer a humildade, a coragem e o altruísmo; Ele não é o nada, mas o vazio. Tudo se dissolve no Amor e tudo o que é grande no ser humano – a coragem do mendigo que entra em um prédio desabando e morre para salvar a vida alheia; o seio da mãe na boca do bebê; o irmão que doa a parte maior do doce à irmã mais nova – é visitação de Amor. Entre outras coisas, o Amor é disponibilidade de compreensão, ausência de julgamento. Devo confessar: não gostava dela! Frequentávamos o mesmo grupo de ajuda mútua. Ela era chorosa, cheia de autopiedade, parecia querer ser o centro das atenções e nunca dizia o nome de seu problema. Havia tempo, eu perdera a paciência. “É frescura!” – julgava. "Puro mimo!" - sugeria. Só que aí, num dia de chuva, ela resolveu falar. Primeiro, sentou na cadeira e chorou, soluçando. Às vezes, abria a boca e tornava a fechar. “Lá vem!” – julguei ainda. Então chegou o momento em que ela limpou o nariz, os olhos, respirou fundo e disse: “Há três anos, na data de hoje, perdi minha filhinha; ela só tinha cinco anos!” Daí por diante, tudo o que sua boca disse foi poema. A sala inteira chorou junto. Os companheiros mais durões miravam a janela, tentando esconder os olhos. O Amor esbofeteava-me; mostrava a mesquinhez de meu mussolini interior. Fiquei sem jeito. Escondi o rosto. E, quando paramos para o café, eu a abracei e murmurei em seu ouvido: “sinto muito, me perdoe, eu te amo, sou grato”. Ela sorriu e sua bochecha aceitou meu beijo. Era a primeira vez que sorria, amparada por outros seres como eu, feitos para errar🌹
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário