terça-feira, 7 de julho de 2020

NUNCA PARE DE SONHAR, DISSE FREDDY KRUEGER



Tive este pesadelo quatro ou cinco vezes ao longo da vida e ele sempre precede tragédias. Não sei se prevê horrores inevitáveis, ou se os engendra; por isso, evito falar. Sempre tive muito respeito pelas palavras. Muito do que escrevi cego se realizou depois. Também já deixei de escrever muita coisa que chegou até mim por medo de que se realizasse. Certa vez, fui obrigado internamente a comprar uma poltrona usada na Rua Cardeal Arcoverde. Passava os dias olhando o móvel sem coragem de me sentar e sem descobrir que narrativa ela queria que eu contasse. Até que, numa madrugada insone, uma voz de outro dentro de mim disse: “Nesta poltrona, fiquei sentado ao lado de meu filho doente por mais de três anos até que ele morresse”. Horrorizado, destruí o móvel e nunca mais investiguei a história dentro em mim. Também tenho filhos. Mas eu queria contar do sonho. Nele, estou sentado numa mesa muito antiga, de madeira medieval, em uma taberna. Há, no tampo da mesa, muitos riscos feitos de faca, como aqueles que os presidiários fazem nas paredes para contar os dias. Surge então um cruzado com aquelas roupas cheias de correntes, a espada ao lado, uma espécie de capacete e a cruz vermelha estampada no peito. O homem é poder; sua presença me causa horror. Com um aceno de cabeça, exige que eu o acompanhe. Por uma porta lateral redonda, descemos lances e mais lances de escada. A cada degrau, o ambiente fica mais escuro e frio. Continuamos descendo, e descendo, e descendo até o último degrau que dá para o gelo; sob nossos pés, o universo infinito, estrelas, astros, galáxias, imensidão: o nada. Já não posso distinguir a mim mesmo do desconhecido e percebo que é exatamente assim morrer. Um frio enorme antes do nada eterno. Meu coração é tomado por um terror indescritível. Sei como é estar morto. Vai sempre piorando. E o inferno não é quente, é gelado; mais frio que qualquer período glacial.
Há três noites, o cavaleiro voltou.

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