- O amor tem
muito de lençol, mas também muito de navalha, Bahia – ele me dizia de seu leito.
Estávamos internados numa comunidade terapêutica para pessoas com problemas
ligados ao álcool ou a outras drogas. - Nessa época, eu bebia conhaque, Bahia –
continua. - Ele, por essa luz que me alumia, não bebia nada. Era um rapaz ainda
novo, vinte e poucos anos. Trabalhador, cumpridor. Palavra dele, gente podia
fazê fé. Se dizia ansim: amanhã chego às quatro da manhã; dez pras quatro, o
homem estava lá. Mas mulher e mistério que embaralha o juízo da gente, ou não
é? O muito amor é trem por demais de perigoso, cambia fácil no ódio demasiado. Quando
terminava o serviço, nem banho ele tomava na obra; passava água nos braços e no
rosto e corria pra pegar o trem das cinco e quinze. Se saía de casa, era só pra
tomar um suco com a esposa. Por essa luz, Bahia. Casado de novo - a gente dizia
- isso depois passa. Passa nada... Aí aconteceu de vagar um serviço de copeira no
escritório da construtora que era ansim bem de frente da obra, mesmo rumo. A
moça era bonita, sou franco em falar, Bahia, nem parecia pobre, porque pobre, mesmo quando é bonito, tem o rosto maltratado, o cabelo judiado. Enquanto
assentava bloco, Januário, essa era graça dele, via a mulher limpando o salão,
passando pano na vidraça, servindo café do outro lado da rua. Um ria de cá, a
outra sorria de lá. É bonito, némemo, Bahia, quando a gente vê um casalzinho ansim
jovem ainda gostando forte um do outro? Faz a gente crer na vida como em Deus;
mas, nesse mundo tem gente ruim, Bahia, gente invejosa; felicidade do outro
ofende, esfrega na cara a sujeira da alma nossa. Se bem alembro, o fuxico
começou com um tal Iago Biobá.
Brincando, que peão brinca mesmo, não tem jeito, ô raça, ele falou ansim: “vê
lá que a moça de Januário tá de graça com Seo Armando, engenheiro, mulher
formosa como aquela, não tem como se contentar com ajudante de pedreiro”. Sou
franco em falar, Bahia, espreitei, pra ver se era à vera, mas qual nada. A moça
era séria. Peão é bicho invejoso, Bahia: os menino começando a vida e vem uma
alma sebosa dessa pra espalhar discórdia. Nem foi de um dia pro outro, foi não;
demorou. De toda forma, a conversa se espalhou na obra. Januário passava sério,
alguém jogava piadinha e se ria, às veis, mesmo sabendo que nem era verdade. Só
pra ver o oco, azedar o pé do frango do semelhante. E aí Januário ficou sabendo,
meu fí... Quis matar um, levantou enxada pra outro. “Se acalma, Bahia, vai fazê
fé em conversa de Tiriça. ” – Falei. Ele ouvia eu. Deu abrigo à palavra que
soltei. Mas, desse dia em diante, não ria mais pra menina do outro lado, no
escritório, só espreitava: a cara ruim, o coração cimentado. Dava a hora de ir
embora, ele ia na frente, deixava a moça pra trás, ela dava umas corridinha,
tentando acompanhar, mas qual o quê? Homem é bicho orgulhoso, quando empedra o
peito, nem brisa fresca atravessa. E aí sucedeu. A trilha da desgraça tava no
chão, só que ninguém enxergava, tá bom? Bem no dia da mulher, 8 de março, me alembro como
se fosse hoje. Seu Armando deu um buquê de flor pra menina. Pra quê, némemo?
Não sabe que homem bruto é bruto e mais nada? Pois na hora do café, Januário
soube. Atravessou a rua, entrou no escritório, jogou o buquê na cara do
engenheiro e picou a pá na cabeça... Uma, duas, três, quatro... Dez vezes...
Até a cabeça do homem virá uma pasta. A moça correu pra obra. Januário veio,
não era gente, era o cão. Ela gritava que não tinha feito nada, que era
inocente; mas ele não cria. Tava cego. Ela correu pra trás de um, pra trás de
outro. Todo mundo de esguelha. Januário com a navalha na mão. A moça tentou
subir escada, trupicou, a pobre. Caiu mole no chão, pedindo pelo amor de Deus.
Januário beijou na boca e, ainda beijando, cortou a garganta da moça, até quase
arrancar a cabeça. Os zóio dela, menino... quanta dor tamanha de morrer pelas
mãos de quem amava! Parecia os zóio da virgem. Quando saiu de cima, Januário
caiu de lado e desandou chorar, nem fugir tentou... Eu vi, mas não foi só eu.
Todo mundo viu. Uma imagem igualzinha da moça soltou do corpo dela. Era a
menina e não era, era ansim, feito ela, só que só numa luz, uma luz avermelhada,
que se largou do corpo e foi subido pro céu de braços abertos, parecia
crucificada tal qual Cristo nosso Senhor. Por essa luz, Bahia. Eu chorei, teve
mais gente que chorou. Acho que era a alma da menina, vermelha, ensanguentada.
E se perdeu por trás das nuvens...
Silêncio e
pensamento.
Eu só almejava
ir embora. Enquanto esperava o sono em silêncio, pensava na vida e nas
mulheres, agora tão distantes, que amei.

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