As coisas querem ser escritas, assim como as
plantas querem ser regadas e os gatos, acariciados. Elas, as coisas, inclinam
as cabeças em nossa direção. Outro dia escrevi sobre uma canção popular; ontem,
outra canção pediu: “E sobre mim, não vai escrever?”
Começou assim: eu tinha descoberto o primeiro conto publicado da Clarice Lispector: Triunfo, no qual Luísa “desperta” depois de o marido ter
partido. Parece-nos que ela amava mais, mas o conto termina com a
sentença: “Ele voltaria, porque ela era
mais forte.” Fiquei pensando na força da delicadeza. O que parece frágil, é
forte. O que parece forte, é frágil. Diz o Tao Te Ching, no poema 36: “Assim os
submissos e fracos conquistarão os duros e fortes.” Todos os dias, leio trecho
de um texto sagrado, de manhã, e, ontem, caiu de ser bem este. O mundo se
observa naquele que escreve. E aí me lembrei da canção. Ela também vem da
adolescência: o clipe na MTV, a melodia dolorosa e o final: so free her! Woman
in chains, do Tears for Fears.
No vídeo, vemos o duro término de um romance entre
um boxeador e uma stripper. Ele é muito mais musculoso, mas é ela quem é forte
e é quem quer partir. Ele tenta, de todas as formas, represar a água selvagem,
colocar margens na mutação, mas ela já está em outro lugar, triste também,
porque todo final é triste. Como é um atleta, ele não enche a cara, mas pratica
exercícios físicos até depois do limite. É no meio de uma corrida que ele perde
o fôlego, chora e consegue enfim libertá-la: a expressão de dor, como se
tivesse descoberto um tumor. Difícil é esperar até as coisas voltarem a fazer
sentido outra vez. Até conseguir pensar no futuro. Quando levamos um pé na
bunda, um abismo se cria entre nossa alma e as coisas lá fora; temos a
impressão de que vamos nos dissolver no próprio abismo. Ao final, o boxeador
conversa com uma pomba, ainda presa entre as mãos, e faz cara de idiota. Eu
também já fiz exatamente aquela cara.
Um comentário:
Daniel que beleza de crônica. Principalmente por falar sobre música e literatura. Também fiquei impactada com o texto da Clarice. Esse mesmo! E essa canção e clip fizeram minha cabeça na época. Bom demais quando essas duas artes se cruzam e resultam nessa reflexão que nos faz pensar. Já fiquei com a canção rolando em minha mente.
Abração!
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