sábado, 26 de agosto de 2017

O BOXEADOR E A STRIPPER

As coisas querem ser escritas, assim como as plantas querem ser regadas e os gatos, acariciados. Elas, as coisas, inclinam as cabeças em nossa direção. Outro dia escrevi sobre uma canção popular; ontem, outra canção pediu: “E sobre mim, não vai escrever?”
Começou assim: eu tinha descoberto o primeiro conto publicado da Clarice Lispector: Triunfo, no qual  Luísa “desperta” depois de o marido ter partido. Parece-nos que ela amava mais, mas o conto termina com a sentença:  “Ele voltaria, porque ela era mais forte.” Fiquei pensando na força da delicadeza. O que parece frágil, é forte. O que parece forte, é frágil. Diz o Tao Te Ching, no poema 36: “Assim os submissos e fracos conquistarão os duros e fortes.” Todos os dias, leio trecho de um texto sagrado, de manhã, e, ontem, caiu de ser bem este. O mundo se observa naquele que escreve. E aí me lembrei da canção. Ela também vem da adolescência: o clipe na MTV, a melodia dolorosa e o final: so free her! Woman in chains, do Tears for Fears.

No vídeo, vemos o duro término de um romance entre um boxeador e uma stripper. Ele é muito mais musculoso, mas é ela quem é forte e é quem quer partir. Ele tenta, de todas as formas, represar a água selvagem, colocar margens na mutação, mas ela já está em outro lugar, triste também, porque todo final é triste. Como é um atleta, ele não enche a cara, mas pratica exercícios físicos até depois do limite. É no meio de uma corrida que ele perde o fôlego, chora e consegue enfim libertá-la: a expressão de dor, como se tivesse descoberto um tumor. Difícil é esperar até as coisas voltarem a fazer sentido outra vez. Até conseguir pensar no futuro. Quando levamos um pé na bunda, um abismo se cria entre nossa alma e as coisas lá fora; temos a impressão de que vamos nos dissolver no próprio abismo. Ao final, o boxeador conversa com uma pomba, ainda presa entre as mãos, e faz cara de idiota. Eu também já fiz exatamente aquela cara.

Um comentário:

Sonhos melodias disse...

Daniel que beleza de crônica. Principalmente por falar sobre música e literatura. Também fiquei impactada com o texto da Clarice. Esse mesmo! E essa canção e clip fizeram minha cabeça na época. Bom demais quando essas duas artes se cruzam e resultam nessa reflexão que nos faz pensar. Já fiquei com a canção rolando em minha mente.
Abração!