sábado, 11 de maio de 2019

SORRISO

Quando acordei ainda há pouco, estava frio. Acho que vivo o tempo todo no coração, sem proteções, feito caramujo sem casa, lesma exposta ao sal; ou vivo o imenso, ou me dissolvo. Coração na epiderme. Sim, mas quando está frio assim isso ainda aumenta. Há alguns dias voltei a este Disintegration e descobri porque há uns vinte anos ele fez minha cabeça. O menino que ouviu o vinil pela primeira vez tinha razão. É como rever um amigo do peito: nunca perdemos a intimidade.
Mas o que eu queria falar mesmo era sobre o sorriso. Nessa faixa que abre o disco: Plainsong, o ambiente é frio como a morte, o cara se sente como se estivesse vivendo no limite do mundo, tudo tão pesado, e grave, e triste, e então... ELA SORRI! O som faz o resto, a palavra não chega lá: a vida se reconstrói, a esperança é, uma chuva de lantejoulas, algo cristalino escorrendo nas veias, ácido lisérgico talvez, ou o momento em que Edward Mãos de Tesoura faz nevar na vila colorida no filme de Tim Burton. Às vezes, me sinto como o personagem interpretado por Johnny Deep: tenho as melhores intenções, cultivo a pureza, mas não sei lidar com os outros; tenho lâminas nas mãos, estou sempre me ferindo – a face cheia de cicatrizes - e ferindo aos que amo porque são os que estão mais perto.
Voltando ao sorriso, que é do que eu queria falar mesmo desde o começo, lembro o sorriso do Kerouac, inchadão, na entrevista da tevê. Ele ainda sorria como menino que acabara de fazer um touchdown, mesmo deformado de tanto álcool. E o sorriso do Elvis denuncia toda sua pureza. Mais que o rebolado, aquele sorriso venderia milhões de discos. E o sorriso do menino Michael nos Jackson Five? O sorriso dos Beatles no começo. Clarice Lispector não ria em público. Dizia a Lygia que as mulheres não eram levadas a sério quando sorriam. O mundo patriarcal esmaga, mas uma mulher como ela também podia ter levantado mais essa bandeira - a do sorriso - no meio do ambiente artificial das rodas literárias e intelectuais. O artista se alimenta também de reconhecimento, mas deveria poder se alimentar só de sua arte.
Lembro o sorriso da Márcia, no tempo em que ela ainda ria das minhas palhaçadas.
Do riso mineiro, quase baiano, da minha mãe.
Do riso tímido do meu pai, quando conto alguma piada suja.
Quando faz frio assim, fico dolorido, meio tristão sem Isolda, às vezes tento sorrir frente ao espelho e não consigo. O rosto se desfaz feito máscara de cera derretida e acabo chorando, que diabo! “Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada”. No entanto, não me abato, sei que, em algum canto, meu sorriso está lá, disfarçado de João, de Sofia, dos meus bichos, de jardim em estado-semente, esperando para florescer. Meu riso é minha esperança-sempre-viva😉.

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