domingo, 26 de maio de 2019

ANGÚSTIA E ALEGRIA

Heidegger, na esteira de Kierkgaard, dizia que o Ser se desvela na Angústia. A própria Angústia já é visita do Ser, mas a Angústia não é a preocupação, nem o desespero. A Angústia é sem objeto. A outra face do Ser, o Nada; em termos taoístas: não há yang sem yin. Tanto é assim que, quando estamos desse jeito, meio doídos sem razão e alguém desavisado pergunta:
- O que é que você tem?
Respondemos de primeira:
- Nada.
Esse nada dolorido já é o anjo do Ser. É por isso que, quando a vida dói, eu deixo ela doer. Não procuro distrações. Não corro ao shopping. Não quero estar com o outro para jogar sobre ele as fagulhas da minha própria fissura. Um tempo atrás, não suportava esses hiatos; enchia-os de álcool, mas eles me cobravam seu lugar e a cada vez eu me entregava mais. É em solidão que o tédio se torna sorvete. Por outro lado, quando vem a alegria, transformo-me em sol, corro ao jardim, caminho nas praças, sinto a pele pouca para a felicidade e doo o meu abraço como se ofertasse minha própria boca e meu sorriso. Aperto a mão do meu irmão como se contasse uma piada suja.
Há filósofos que falam da alegria, mas não constroem morada no coração da gente porque não sofreram o suficiente. Então, a alegria deles é só uma palavra sem carne, espécie de fuga. O poeta diz amor, a criança diz amor, o carrasco diz amor: a taça é a mesma, só que o vinho é diferente.
Hoje é domingo. Está frio. Acordei cedo, porque meus bichos se acostumaram a comer às seis da manhã, antes de eu ir para o trabalho, e eles não sabem discernir os domingos dos dias de semana. Pois bem; alimentei-os. Lavei o quintal. Fiz um café bem quentinho e forte. Sentei com uma manta sobre os ombros e coloquei um Moody Blues pra tocar. Há sabedoria na Angústia: só quem sofreu fundo sabe o valor do riso e não se lamenta quando a consciência de que se morre faz visita.


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