Ontem, quando voltava da praia, vi cruzes à beira do caminho. Foi ao chegar aqui e olhar a gaiola vazia, entretanto, que a solidão bateu. Encontrei-o há alguns anos; ferido. Talvez, por isso mesmo, tivesse um canto tão. Tratei. Dei alpiste do melhor e proteína de ovo importada. Aos poucos, foi ganhando força e, com a força, confiança. Seu canto mudou. Se antes lamentava as dores da vida; agora louvava alguma força invisível. Dizia-se grato; ainda assim, exigiu gaiola maior, com balancinhos dourados. Todas as manhãs, todavia, sorria e cantava para mim; só para mim. As vizinhas; fofoqueiras, intrigadas; perguntavam-me a respeito. Em pequenas expedições, cautelosa, comecei a trazê-las para vê-lo em ação. Primeira vez na vida, eu tinha importância. Ele, por outro lado, não gostava da exposição. Sentia-se usado. A cada manhã, acordava mais mal humorado. Reclamava de tudo. Dizia que minhas amigas falavam alto e não prestavam atenção. Certa noite, depois de uma discussão, primeira vez, falou em partir. Gritou que tinha saudade da mata, da convivência com outros de sua espécie e, sem qualquer pudor, usou a palavra liberdade. Acusei-o de ingratidão. Disse que estava quase morto quando. Respondeu que preferia ter mesmo morrido e me deu as costas. Para tentar acalmá-lo, passei a pendurar a gaiola no jardim todas as tardes, o que se mostrou ainda pior. Seu canto tornou-se uma ode ao ódio. Algo assim como. Já não conversávamos e ele passou a recusar; primeiro o canto, depois a comida. Comprei do melhor alpiste, sementes importadas e tudo o mais. Nada. Estava decidido como só um pássaro. No dia derradeiro, abri a gaiola e disse que podia. Tarde demais. Já não tinha forças. Antes de amanhecer, encontrei o cadáver no fundo da gaiola. Parecia um menino. Como era seu desejo, joguei o corpo no mar. Agora seu canto é o silêncio e minha solidão, uma gaiola vazia
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
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