Um dia frio antes se situa no espaço que no tempo. É como uma poltrona na qual nos sentamos, cobertor sobre as pernas, café na mão, e abrimos a porta à saudade e ao passado. Um dia frio é um portal pelo qual lembranças e fantasmas, habitantes da garoa, aportam no centro do agora. Se faz sol, vamos à rua. Esquecemos. Gargalhamos na cara da morte. Todas as vezes que me matei fazia frio glacial. Eu sempre soube que passava. Sempre soube que se tratava apenas de um momento; mas, por não poder atravessá-lo, por não ter forças - tédio angústia nada - preferia morrer. Quando acordava, no entanto, estava num barraco, prostíbulo, margem de rio, clínica de recuperação em Itapecerica da Serra. Colocava então meu corpo em rigidez cadavérica pareado com a vida e, se encontrava algum conhecido, tentava esconder meu hálito de zumbi. Nesse tempo, não conseguia olhar ninguém nos olhos e sentia medo-pavor sempre que tocava o telefone. Todo morto tem medo de que descubram seu segredo. É triste ser defunto em meio a tanta gente sem vida
Nenhum comentário:
Postar um comentário