Acho que todo mundo fez coisas na vida das quais não se orgulha. Eu me casei aos quinze e me separei aos dezesseis. Seguiu-se uma época sombria, de álcool, drogas e loucuras. E, aí, quando a gente começa a gostar de verdade de alguém, fica com medo que a pessoa descubra as coisas feias que a gente já fez e deixe de gostar. A gente sente pena até de contar e ferir o outro. Há coisas, no entanto, que não tem como esconder. Faz alguns meses que encontrei esse menino. Ele me trata bem, toca tudo quanto é instrumento e até compõe um monte de músicas só pra mim. Só que eu fiz aquelas coisas e, por medo de que ele descobrisse, terminei várias vezes. Quase enlouqueci ele. Todo mundo fez coisas na vida das quais sente vergonha; só que, quando você conta a coisa feia que fez e o outro, em vez de julgar, abraça e acolhe você, aí então você fica gostando mais ainda. De um jeito que dá até vontade de gritar na janela. Eu sofri um exposed. Foi isso. Naqueles dias tristes, participei de um ménage que acabou caindo na rede. Depois daquilo, achei que nunca mais. Até que. A coisa mais difícil que já tive de fazer na vida foi contar. Recuei várias vezes. A voz simplesmente não saía. Quando, por fim, consegui falar, esperei que ele fosse embora sem olhar na minha cara: "E você tem vontade de repetir essas coisas?" Respondi que não. "Então esquece, a gente não vive no passado". E, como se o que eu tinha contado não tivesse a menor importância, pegou do violão, me deu a mão e a gente foi junto - de mãos dadas - ao trailer da praça pra cantar Legião Urbana e comer um cheese-tudo
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
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