Preso a mim. Não me dou uma folga. Não há um só dia que eu possa não ser eu. E aí vejo o mundo inteiro errado. Vejo as pessoas manipulando, tramando; tudo em troca de sexo e poder. Cada um em busca de seus próprios interesses. Cada relacionamento como barganha, balcão de negócios. E ninguém nunca se preocupou com o quanto eu estava doendo. A virgem e o devasso em mim não se entendem. Nesta manhã, sinto como se fosse rachar ao meio. Não aceito em mim ou no outro a condição humana. E não crio asas ou me torno anjo. Queria ser amado sem condições e, no entanto, lanço tantas exigências em direção aos que amo; sufoco-os, firo, furo a alma, mas não sofro menos. Se conseguisse sair, veria que tudo está bem no mundo injusto. O velhinho passeia com o cão, as crianças brincam, há sol, pipas no céu e vírus no ar. É só em mim que a manhã está irremediavelmente quebrada. É tanta pressão no coração que me sinto prestes a explodir feito panela de feijão. E, no entanto, há tanto Amor e um Amor tão puro em mim! Eu morreria de boa para me tornar um prato de mingau com canela bem quentinho nas mãos de uma criança de rua. E todas essas canções de amor, sempre de amor, me apontam um lugar tão puro e bonito! E me falam de um sentimento que não é deste mundo! Às vezes, acho que só queria dar as mãos e olhar nos olhos, e confiar de verdade em outro ser humano. E saber do horror, da injustiça, da maldade; mas dizer, por telepatia: "nada disso importa. Temos um ao outro." E, talvez, eu nem sequer consiga ser fiel. Mas, quando um pensamento de sexo me atravessa, imediatamente imagino que ocorre o mesmo com o outro e é como se levasse uma facada na barriga dentro de um boteco abarrotado de bêbados. E quero me isolar. E jejuar só, até transcender, até que meu corpo se converta em vapor, até desaparecer no Amor, até que meu nome se dissolva num mar de Amor. Não quero que reste uma lembrança sequer de que um dia pisei este planeta. Desliguem meu cérebro, despluguem meu coração. Só por hoje, quero deixar de pensar e sentir. Só por hoje, quero uma pausa, um pouco de paz antes de seguir na jornada. Façam em mim uma lobotomia.
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário